O olival tradicional português é um elemento identitário, um repositório de saberes ancestrais e um fator de equilíbrio ecológico. Estende-se desde as encostas íngremes de Trás-os-Montes até às planícies soalheiras do Alentejo, atravessando séculos de história e contribuindo para a economia rural.
Este sistema agrícola caracteriza-se por árvores de grande porte, baixa densidade de plantação e uso predominante das variedades autóctones características de cada região olivícola, como é o caso da ‘Galega Vulgar’ e da ‘Cobrançosa’ que são as mais difundidas. A produção resultante, embora mais modesta em quantidade quando comparada aos sistemas intensivos e em sebe, distingue-se pela elevada qualidade dos azeites e por serem a base dos azeites DOP, muitas vezes premiados a nível nacional e internacional. Nas últimas décadas este património enfrenta desafios crescentes, como é o caso do envelhecimento das árvores e dos olivicultores, os elevados custos com a mão de obra, a dificuldade em mecanizar particularmente as colheitas, as alterações climáticas e a forte concorrência de mercados estrangeiros. Em paralelo, a evolução tecnológica na agricultura tem permitido ganhos significativos de eficiência e produtividade através de sistemas de monitorização e análise de dados.
Este artigo propõe explorar como a utilização de sensores inteligentes – adaptados à realidade do olival tradicional – pode ajudar a rentabilizar a produção, reduzir custos e mitigar riscos, sem descaracterizar este sistema agrícola histórico.
Olivicultura em Portugal:
A oliveira (Olea europaea L.) é uma cultura de elevada relevância na bacia do Mediterrâneo. O azeite, presente na dieta mediterrânea há inúmeras gerações, foi reconhecido pela UNESCO, em 2010, como Património Cultural Imaterial da Humanidade (Aquino et al., 2022).
Em Portugal, em 2024, a área total de olival atingiu cerca de 380 779 hectares, dos quais a maior parte se concentra no Alentejo (206 620 ha), predominantemente orientada para a produção de azeite (INE, 2025).
O aumento da produção de azeite incentivou os produtores a procurar formas de melhorar a produtividade, promovendo a reconversão de olivais tradicionais de sequeiro – frequentemente associados a rentabilidade negativa – para sistemas modernos, como o olival intensivo e em sebe (Agricultura e Mar, 2019). A expansão das áreas abrangidas por perímetros de rega contribuiu para um significativo aumento da produtividade, levando à substituição de grande parte dos olivais de sequeiro por sistemas de regadio (EDIA, 2021).
Desafios e Limitações do Olival Tradicional:
Apesar da sua importância cultural, ambiental e gastronómica, o olival tradicional enfrenta um conjunto de dificuldades que comprometem a sua viabilidade económica no contexto atual.
De entre esses desafios e limitações destacam-se:
– Baixa Produtividade – o espaçamento entre árvores, aliado à idade avançada da maioria dos exemplares e à limitação de mecanização, resulta em produtividades médias muito reduzidas (800 a cerca de 3 000 kg de azeitona/ha em Portugal), quando comparadas com a produtividade dos olivais intensivos e em sebe (12 000 kg de azeitona/ha). Esta diferença acentua a pressão económica sobre os produtores tradicionais, especialmente quando os preços de mercado da azeitona e do azeite se mantêm baixos (Agricultura e Mar, 2019);
– Custos de mão de obra – a colheita manual, predominante no olival tradicional, é intensiva em mão de obra e por isso bastante dispendiosa. Com a redução da disponibilidade de trabalhadores sazonais e o aumento dos custos salariais, esta etapa torna-se um dos principais entraves à rentabilidade destes olivais (Almeida & Fernandes-Silva, 2023);
– Limitações na mecanização – o porte das oliveiras elevado e a copa larga dificultam a colheita. Os intervalos longos entre podas são a principal causa. Embora existam adaptações, estas são menos eficientes e mais lentas que nos sistemas modernos de condução (Almeida & Fernandes-Silva, 2023);
– Alterações climáticas – o aumento das temperaturas médias, as ondas de calor e a irregularidade das chuvas afetam diretamente a floração e a frutificação. A escassez de água, especialmente no sul do país, pode comprometer a produção e a qualidade do azeite (Dias, 2023); A irregularidade climática típica do clima mediterrâneo desde logo permite que os olivicultores disponham de alguma capacidade de resiliência;
– Concorrência no mercado – A entrada de azeites produzidos em sistemas intensivos e em sebe, tanto nacionais como estrangeiros, coloca o olival tradicional numa posição frágil no mercado de volume. A aposta em nichos de qualidade e certificação (DOP, biológico) é uma alternativa, mas exige estratégias de marketing e diferenciação que nem todos os produtores conseguem implementar (Perestrelo, 2008).
Tecnologias para Modernização do Olival Tradicional:
Embora o conceito de “modernização” possa parecer incompatível com um sistema agrícola de base tradicional, a realidade é que a adoção seletiva de tecnologias pode ajudar a preservar a identidade do olival e ao mesmo tempo melhorar a sua rentabilidade e resiliência. Entre as inovações disponíveis, a utilização de sensores e de sistemas de monitorização destacam-se por permitirem uma gestão mais eficiente e informada da cultura, mesmo em explorações de pequena e média dimensão.
Os sensores climáticos de baixo custo, instalados em pequenas estações meteorológicas (Figura 1 a) instaladas na própria exploração são um recurso valioso.
Figura 1. Estação meteorológica (a – esq.) e armadilha inteligente de captura p.e. traça ou mosca da azeitona (b – dir.)
Estes equipamentos registam parâmetros como temperatura, humidade relativa, radiação solar, velocidade e direção do vento. Os dados recolhidos permitem antecipar riscos, como a proliferação da mosca-da-azeitona (Bactrocera oleae) (Figura 1 b), observar a necessidade de efetuar tratamentos preventivos, aumentar a proteção contra fenómenos climáticos adversos ou planear a colheita em função das previsões meteorológicas (…).
→ Leia este e outros artigos completos, na Revista Voz do Campo – edição de dezembro 2025, disponível no formato impresso e digital.
Autoria: Manuelito, C.¹*; Inês, C.¹; Pragana, J.¹; Fernandes, J.¹; Ferreira, L.¹; Cordeiro, A.¹
1Instituto Nacional de Investigação Agrária, I.P. (INIAV, I.P.) – Pólo de Elvas. Estrada de Gil Vaz s/n, apartado 6, 7351-091 Elvas, Portugal *catarina.manuelito@iniav.pt



