A manhã do segundo dia do XVI Congresso Nacional do Milho, iniciativa organizada pela ANPROMIS em colaboração com a ANPOC – Associação Nacional de Produtores de Cereais – e a AOP – Associação de Orizicultores de Portugal, teve início com o painel “A agricultura europeia, os acordos comerciais e a geopolítica mundial”. Recorde-se que o evento está a decorrer no CNEMA, em Santarém, integrando ainda o 2.º Encontro das Culturas Cerealíferas.

A sessão foi moderada por José Diogo Albuquerque, diretor do Agroportal, que enquadrou o debate num contexto internacional marcado por crescentes tensões geopolíticas, alterações nas cadeias de abastecimento e desafios acrescidos para o setor agrícola europeu.

Como orador convidado, Francesco Meggiolaro, da Direção-Geral da Agricultura e Desenvolvimento Rural (DG AGRI) da Comissão Europeia, abordou o posicionamento da agricultura europeia face aos atuais acordos comerciais e à instabilidade geopolítica global, sublinhando a necessidade de equilíbrio entre competitividade, sustentabilidade e segurança alimentar.

Francesco Meggiolaro, da Direção-Geral da Agricultura e Desenvolvimento Rural (DG AGRI)

O painel contou ainda com os comentários de Jorge Tomás Henriques, presidente da FIPA, de Luís Mira, secretário-geral da CAP, e de Luís Vasconcellos e Souza, ex-presidente da ANPROMIS.

“PARA VENCERMOS UM ACORDO COMO O MERCOSUL E OS DESAFIOS DA ECONOMIA PORTUGUESA PARA O FUTURO, TEMOS DE MUDAR O NOSSO PERFIL”

Jorge Tomás Henriques, presidente da FIPA, deixou um apelo claro à mudança estrutural da fileira agroalimentar portuguesa, defendendo maior escala, organização e criação de valor como condições essenciais para enfrentar desafios como o acordo Mercosul e o défice agroalimentar nacional.

Jorge Tomás Henriques, presidente da FIPA – Federação das Indústrias Portuguesas Agro-Alimentares

“O que está em causa é aquilo que nós próprios, industriais, produtores, nunca fomos capazes de fazer”, afirma, sublinhando a necessidade de transformação do modelo produtivo. “Eu costumo dizer que, para vencermos um acordo como o Mercosul e os desafios da economia portuguesa para o futuro, temos de mudar o nosso perfil (…) para nos transformarmos numa grande quinta”.

Para o responsável, a principal fragilidade do setor reside na falta de organização e capacidade de atuação conjunta. “É isto que nós, infelizmente, não somos capazes de fazer”, reforça, ilustrando essa limitação com um exemplo histórico: “Dou-vos só um pequeno exemplo de como a nossa incapacidade se revela. Quando foi a Guerra do Golfo, em matéria de fornecimento às tropas dos Estados Unidos de águas minerais engarrafadas, o único país da Europa que não foi capaz de exportar uma única garrafa de água foi Portugal, porque não foi capaz de formar uma associação de exportação, um conglomerado de exportação, para responder àquilo que eram as necessidades”.

“Temos que aumentar a escala, mas temos sobretudo que aumentar valor”

No que respeita à competitividade internacional, Jorge Tomás Henriques destacou a necessidade de aumentar escala e valor acrescentado. Referindo-se ao setor do vinho, aponta: “No vinho tivemos um aumento ligeiro de preços, de cerca de 8%, inferiores aos preços que o Chile, que é o principal fornecedor do Brasil, consegue fazer. Ou seja, nós temos que aumentar a escala, mas temos sobretudo que aumentar valor”.

Sobre o Mercosul, considera tratar-se de um desafio relevante, mas não o principal. “O Mercosul é um desafio, mas eu costumo dizer que o grande desafio de Portugal está aqui ao lado. O nosso maior cliente é o nosso maior concorrente”.

“A OPORTUNIDADE EXISTE, MAS TEMOS QUE TRABALHAR PARA ISSO”

Luís Mira, secretário-geral da CAP, destacou o potencial estratégico do mercado brasileiro no contexto do acordo Mercosul, sublinhando a vantagem competitiva única de Portugal. “É um mercado com 210 milhões de pessoas que falam português, que não existe noutra parte do mundo. Só existe no Brasil. Nós temos uma vantagem, sobre qualquer outro país europeu, nesta matéria”.

Luís Mira, Secretário-geral da CAP – Confederação dos Agricultores de Portugal

Contudo, alerta que essa vantagem, por si só, não produz resultados. “Mas isto não chega. Agora temos também que saber aproveitar a vantagem”. Apontando o exemplo de Espanha, refere que “os espanhóis já estão a fazer a promoção do azeite com dezenas de milhões de euros em ações de promoção. Nós estamos a fazer zero”.  Para o dirigente, esta falta de iniciativa repete-se noutros setores: “Isto repete-se para a fruta, para o vinho, para tudo. A oportunidade existe, mas temos que trabalhar para isso”.

Quanto às preocupações em torno dos setores mais sensíveis, identificou a carne de vaca e a carne de frango, mas procurou enquadrar os números do acordo. Recordou que a União Europeia tem importado, nos últimos cinco anos, cerca de 204 mil toneladas de carne do Mercosul, havendo anos com valores entre 220 e 225 mil toneladas. “Aquilo que está estabelecido no Acordo é uma quota de 99 mil toneladas. Metade daquilo que já se tem importado”.

“A EUROPA TEM UM PERFIL DE LUXO QUE NÃO É EXPORTÁVEL”

Luís Vasconcellos e Souza, ex-presidente da ANPROMIS, deixou uma reflexão crítica sobre o posicionamento europeu no atual contexto geopolítico e comercial, alertando para a perda de influência da Europa nas grandes decisões internacionais.

Luís Vasconcellos e Souza, ex-presidente da ANPROMIS – Associação Nacional dos Produtores de Milho e Sorgo

“Portanto, o que estamos a assistir é uma guerra em que nós somos meros espetadores”, afirma, recorrendo a uma metáfora para ilustrar a sua preocupação: “Nós estamos no ringue de boxe. Estamos a ver o boxe. E isso é que é triste. É que, no fundo, chegámos a uma situação em que a nossa opinião parece que já não conta muito”.

O antigo dirigente associativo defendeu que a Europa se tem vindo a afastar das dinâmicas globais, assumindo um posicionamento cada vez mais exigente e sofisticado, mas também mais isolado. “Há quem diga que a Europa tem um perfil de luxo, e eu também acho que tem, cada vez mais destacado do mundo, e que esse perfil de luxo não é exportável”.

Na sua perspetiva, o modelo europeu — político, social e de qualidade de vida — não é facilmente replicável noutras geografias. “Nós não vamos conseguir nem que o Brasil, nem que a Índia, nem que a Argentina, nem que o Uruguai consigam ter um sistema político como o nosso. Nós temos um sistema político e temos uma qualidade de vida que eu penso que não é exportável”.

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