Ainda da parte da manhã do XVI Congresso Nacional do Milho e 2.º Encontro das Culturas Cerealíferas, decorreu o painel – “A produção de cereais em Portugal: Como aumentar áreas e rendimento?”, moderado por José Palha, presidente da ANPOC. A sessão contou com a intervenção de Pedro Santos, diretor-geral da Consulai e comentários de António Carmona Rodrigues (coordenador da Estratégia “Água que Une”), Francisco Gomes da Silva (Instituto Superior de Agronomia), Luís Souto Barreiros (presidente do IFAP) e Susana Barradas (sub-diretora do GPP).
UNIÃO DO SETOR E ESTRATÉGIA +CEREAIS
Pedro Santos, diretor-geral da Consulai, sublinha que o setor enfrenta desafios significativos, mas também oportunidades de crescimento. “Vinha para falar sobre o tema da produção de cereais, de como aumentar áreas e rendimento, e, como vamos ver, é tentar inverter uma tendência que vai exatamente no sentido contrário, mas deixar também bem claro que é um dos setores com os quais eu e a Consulai temos trabalhado de forma muito afincada e onde se tem sentido, nos últimos anos, a capacidade de juntar interesses que antes estavam muito separados”, afirma.

O responsável realça o simbolismo de realizar, em paralelo com o Congresso do Milho, o 2.º Encontro das Culturas Cerealíferas: “Esta possibilidade de organizar, juntamente com o Congresso do Milho, este 2.º Encontro das Culturas Cerealíferas é um sinal muito, muito importante de que o setor está unido e que, dessa forma, está junto para inverter estas questões”.
Pedro Santos aborda a Estratégia +Cereais, apresentada no ano anterior, como ferramenta central para aumentar a produção e melhorar a competitividade.
“De facto, o ano passado foi apresentada uma estratégia renovada, a Estratégia +Cereais, para um conjunto de objetivos que visam inverter a questão dos níveis de autoaprovisionamento e, na altura, até dos custos de produção. Esta nova versão da estratégia dos cereais é um reflexo muito importante da união do setor, permitindo perceber que dificilmente se inverte esta realidade sem ajudas públicas, sem uma mudança de contexto, com menores custos, que permitam ganhar competitividade num mercado em que, inicialmente, a Europa conta pouco em algumas matérias-primas e Portugal conta quase de forma insignificante para qualquer uma delas”, explica.
Avanço importante na Interprofissional
O diretor-geral da Consulai revela também um avanço importante na Interprofissional: “O setor dos cereais procura avançar na criação da sua interprofissional (…). No próximo mês, prevê-se a entrega de um documento ao Gabinete de Planeamento, que permitirá dar início ao processo de reconhecimento”.
APOIOS E INCENTIVOS: ESTABILIDADE E VALORIZAÇÃO DA PRODUÇÃO
Susana Barradas, sub-diretora do GPP, complementou a intervenção, destacando o baixo grau de autoaprovisionamento nacional. “Somos um dos Estados-membros com o menor déficit, cerca de 19%. A nossa balança comercial tem um déficit estrutural que depende quer da energia e da questão alimentar. Os cereais, por exemplo, representam 22% do déficit agroalimentar em Portugal”, afirma.

A responsável explica que o PU de 2026 introduz medidas de maior estabilidade e flexibilidade nos apoios. “Será possível aumentar a estabilidade nos pagamentos ao milho de silagem, especialmente para produtores que comercializem através de organizações de produtores na produção de carne. Para os restantes cereais praganosos e sementes certificadas, introduzimos maior flexibilidade para ajustar o valor do pagamento à procura”, destaca.
Susana Barradas sublinha ainda incentivos específicos para a valorização da produção nacional. “As sementes certificadas são fundamentais para valorizar o produto dos cereais nacionais (…) também tivemos aqui um aumento de 20% no caso de ser em modo de produção biológico”, vinca.
“TEMOS QUE COMEÇAR A OLHAR COMO É QUE AS MEDIDAS FUNCIONAM E ONDE É QUE ELAS CORREM MAL”
Luís Souto Barreiros, presidente do IFAP, destaca os desafios da aplicação das medidas de apoio. O responsável sublinha que muitos problemas surgem devido à complexidade das regras. “As queixas dos agricultores partem normalmente de medidas muito complexas. Temos uma diversidade enorme de medidas, cada uma com regras muito específicas. Temos que começar a olhar como é que as medidas funcionam e onde é que elas correm mal”, afirma.

Luís Souto Barreiros destaca também a comunicação como ferramenta para agilizar pagamentos. “Há uma comunicação específica para os cereais. Este mês, tentámos, em colaboração com as organizações, antecipar o envio das informações para que os pagamentos pudessem ser feitos mais cedo, tendo em conta a fase em que estamos. Mas a realidade é que, no caso dos cereais, pagar muito mais cedo pode não ser viável”, considera.
ESTRATÉGIA “ÁGUA QUE UNE” VISA RESILIÊNCIA HÍDRICA
António Carmona Rodrigues, coordenador da Estratégia “Água que Une”, sublinha a importância das infraestruturas para o desenvolvimento agrícola e económico do país. O responsável reforça que a riqueza de um país mede-se não apenas pela existência de estradas, portos, aeroportos, barragens e canais, mas também pela forma como funcionam. “É preciso que elas existam e que funcionem bem. O funcionar bem envolve organização, governança, regime económico-financeiro para os investimentos, manutenção e conservação”, afirma.

O coordenador explica que o objetivo da Estratégia é passar de uma gestão baseada na contingência para uma gestão orientada para a resiliência. “Estamos sempre a correr atrás de situações que ocorrem, como excesso ou falta de água. O objetivo é passar da contingência para uma efetiva resiliência”, considera.

OS CONSTRANGIMENTOS DA PRODUÇÃO CEREALÍFERA EM PORTUGAL NÃO SÃO APENAS TÉCNICOS, MAS SOBRETUDO ESTRUTURAIS E ECONÓMICOS
Francisco Gomes da Silva, do Instituto Superior de Agronomia, sublinha que os constrangimentos da produção cerealífera em Portugal não são apenas técnicos, mas sobretudo estruturais e económicos. O especialista reconhece que não cabe apenas à agronomia explicar as dificuldades do setor, defendendo que os fatores determinantes são semelhantes aos de qualquer atividade económica.
“O que condiciona a cultura dos cereais em Portugal é aquilo que condiciona a generalidade das culturas ou das atividades económicas”, afirma, explicando que quando existem enquadramentos técnicos e de mercado que garantem competitividade, a produção tende naturalmente a crescer.
Segundo Francisco Gomes da Silva, a evolução diferenciada entre cereais praganosos, milho e arroz reflete precisamente essas condicionantes. “Aquilo que temos observado em Portugal é um reflexo das condições existentes na produção. Como diria alguém no passado, isto é a economia”, considera, reforçando que a competitividade e o enquadramento de mercado são determinantes para o futuro do setor.
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