A alimentação é um dos fatores mais relevantes na produção de borregos, influenciando diretamente o desempenho produtivo dos animais, a qualidade da carcaça e da carne e o custo de produção.
Tradicionalmente, nos sistemas intensivos de engorda de borregos, os animais são confinados e alimentados com dietas à base de alimentos compostos ricos em cereais. Embora estas dietas, altamente energéticas, promovam o crescimento e a eficiência alimentar, podem comprometer o valor nutricional da carne, ao originarem uma composição em ácidos gordos menos favorável do ponto de vista da saúde humana [1]. Níveis mais elevados de 18:1 trans-10 são encontrados na gordura de borregos alimentados com dietas ricas em cereais, enquanto animais criados em sistemas baseados em pastagens e forragens apresentam níveis mais elevados de 18:1 trans-11 (ácido vacénico) e de 18:2 cis-9,trans-11 (ácido ruménico) [2]. Embora os efeitos específicos dos ácidos gordos trans na saúde humana ainda não estejam totalmente esclarecidos, o 18:1 trans-10 tem sido associado a efeitos negativos, enquanto o 18:1 trans-11 e o 18:2 cis-9,trans-11 apresentam potenciais benefícios para a saúde [2-4].
Procura de estratégias alimentares alternativas
A maior proporção de 18:1 trans-10 encontrada nos animais alimentados com dietas ricas em cereais resulta de uma alteração no metabolismo dos lípidos da dieta no rúmen, especificamente no processo de bioidrogenação ruminal dos ácidos gordos insaturados, conhecida por “shift trans-10”, que favorece a produção ruminal de 18:1 trans-10 em substituição do 18:1 trans-11 [1,5]. Esta alteração nas vias de bioidrogenação ruminal, que conduz a uma composição em ácidos gordos menos favorável na gordura dos ruminantes alimentados com dietas ricas em cereais, como as habitualmente utilizadas nos sistemas intensivos de engorda de borregos, tem impulsionado a procura de estratégias alimentares alternativas que permitam manter elevadas taxas de crescimento e as características desejáveis da carcaça, promovendo simultaneamente uma melhoria da composição em ácidos gordos da carne.
Dietas com 40% de forragem, substituição parcial de cereais por coprodutos agroindustriais e suplementadas com óleo vegetal para engorda de borregos
A utilização de dietas com cerca de 40% de forragem de elevada qualidade, nas quais parte dos cereais é substituída por coprodutos agroindustriais de baixo teor de amido e suplementadas com fontes lipídicas ricas em ácidos gordos polinsaturados (PUFA) tem sido apontada como uma estratégia alimentar eficaz para limitar o “shift trans-10” e promover o aumento de 18:1 trans-11 e de 18:2 cis-9,trans-11 na gordura intramuscular de borrego sem comprometer o crescimento dos animais [6].
TESTAGEM DE ESTRATÉGIA ALIMENTAR ALTERNATIVA EM CONDIÇÕES DE PRODUÇÃO
Num estudo recentemente publicado pela nossa equipa [7], esta estratégia alimentar alternativa foi comparada com o alimento concentrado convencional aplicado na engorda de borregos, para avaliar a sua eficácia e aplicabilidade prática em condições comerciais. Neste estudo, foram utilizados 90 borregos Merino machos, distribuídos por 6 parques (15 borregos/parque), sendo cada uma das dietas, convencional e alternativa, fornecida em 3 parques. A dieta alternativa é composta por concentrado e forragem na proporção de 60:40, utilizando-se luzerna desidratada como forragem (Tabela 1). A dieta alternativa é ainda composta por 17,6% de cereais, 17,5% de coprodutos agroindustriais e 6% de óleo de soja (Tabela 1). Ambas as dietas foram fornecidas ad libitum, e todos os animais tiveram acesso a palha de trigo. Ao longo dos 32 dias de engorda, a ingestão alimentar foi monitorizada diariamente e os borregos foram pesados semanalmente. Doze animais de cada dieta (4 borregos/parque) foram abatidos para avaliação da carcaça e da carne (…).
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Agradecimentos:
Projeto “Val+Alentejo – Valorização dos produtos dos pequenos ruminantes do Alentejo” financiado pelo FEDER através do programa ALENTEJO 2020 (REF: ALT20-03-0246-FEDER-000049), e Fundação para a Ciência e a Tecnologia pelo financiamento das Unidades de I&D MED (https://doi.org/10.54499/ UID/05183/2025) e CIISA (https://doi.org/10.54499/UID/00276/2025) e dos Laboratórios associados CHANGE (https://doi.org/10.54499/LA/P/0121/2020) e AL4AnimalS (https://doi.org/10.54499/LA/P/0059/2020).
Bibliografia:
1. Bessa et al., 2015. European Journal of Lipid Science and Technology, 117, 1325 -1344; 2. Alves et al., 2021. Lipids, 56, 539–562; 3. Vahmani et al., 2024. Canadian Journal of Animal Science, 99, 1–10; 4. Chikwanha et al, 2018. Food Research International, 104, 25–38; 5. Aldai et al., 2013. European Journal of Lipid Science and Technology, 115, 1378-1401; 6. Santos- -Silva et al., 2019. Meat Science, 147, 28-36, 7. Jerónimo et al., 2026. Foods, 15(2), 193; 8. Mariamenatu et al., 2021. Journal of Lipids, 221, 8848161.
Eliana Jerónimo1,2*, Olinda Guerreiro1,2, Andreia Silva1,3,4, Patrícia Lage1,2, Hélder Alves5, João M. Almeida3,4,6, Susana P. Alves3,4,7, Rui J. B. Bessa3,4,7, José Santos-Silva3,4,6
1 Centro de Biotecnologia Agrícola e Agro-Alimentar do Alentejo (CEBAL) / Instituto Politécnico de Beja (IPBeja), 7801-908 Beja, Portugal.
2 MED – Instituto Mediterrâneo para a Agricultura, Ambiente e Desenvolvimento & CHANGE – Instituto para as Alterações Globais e Sustentabilidade, CEBAL, 7801-908 Beja, Portugal.
3 CIISA – Centro de Investigação Interdisciplinar em Sanidade Animal, Avenida da Universidade Técnica, 1300-477 Lisboa, Portugal.
4 Associate Laboratory for Animal and Veterinary Sciences (AL4AnimalS), Avenida da Universidade Técnica, 1300-477 Lisboa, Portugal.
5 Carlos e Helder Alves Sociedade Agro-Pecuária Lda., Funcheira, 7670-112 Garvão, Portugal.
6 Instituto Nacional de Investigação Agrária e Veterinária, Polo de Inovação de Santarém, Quinta da Fonte Boa, 2005-048 Vale de Santarém, Portugal.
7 Faculdade de Medicina Veterinária, Universidade de Lisboa, Avenida da Universidade Técnica, 1300-477 Lisboa, Portugal
* eliana.jeronimo@cebal.pt
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