Santarém acolheu recentemente, no CNEMA, o XVI Congresso Nacional do Milho, iniciativa organizada pela ANPROMIS – Associação Nacional dos Produtores de Milho e Sorgo em colaboração com a ANPOC – Associação Nacional de Produtores de Cereais – e a AOP – Associação de Orizicultores de Portugal. O evento integrou ainda o 2.º Encontro das Culturas Cerealíferas e contou ainda com uma reflexão sobre os 40 anos de integração de Portugal na Europa, os desafios técnicos da produção de cereais e o papel da Política Agrícola Comum na coesão da União Europeia.
Na sessão de abertura, o presidente da Câmara Municipal de Santarém, João Teixeira Leite, destaca o simbolismo da realização do congresso na capital ribatejana.
“É com particular honra que Santarém acolhe, uma vez mais, o 16.º Congresso Nacional do Milho, num espaço que é símbolo e ponto de encontro do mundo rural português”, afirmou, sublinhando o papel do CNEMA como “palco maior do mundo rural”.
RIBATEJO COMO TERRITÓRIO ESTRATÉGICO
O autarca reforçou a centralidade da agricultura para o território. “O Ribatejo não é um cenário rural. É um território competitivo, estruturante e estratégico, que ajudou a construir Portugal e continua a ser essencial para o seu equilíbrio económico e territorial”, vinca.
Referindo-se ao tema do Congresso, associou a cultura do milho a questões estratégicas para o país e para a Europa. “Falar de milho é falar de soberania alimentar, de capacidade produtiva e de autonomia estratégica. Temas que hoje regressam ao centro do debate europeu”, sublinha.
“A agricultura não pode ser regulada apenas a partir de um gabinete”
Num contexto de exigências ambientais, acordos comerciais globais e pressão sobre os custos de produção, João Teixeira Leite defende uma política agrícola assente no realismo. “A agricultura não pode ser regulada apenas a partir de um gabinete. Precisa de ser pensada a partir do território. O município de Santarém procura afirmar essa visão. Uma agricultura moderna, tecnicamente evoluída, ambientalmente responsável, mas economicamente viável. Uma agricultura integrada numa estratégia mais ampla de desenvolvimento território e de valorização do mundo rural”, defende.
O presidente da autarquia considera ainda que encontros como este são fundamentais para aproximar produtores, investigadores e decisores: “Aqui constrói-se conhecimento aplicado e propostas concretas. É desse trabalho conjunto que depende a capacidade de Portugal e da Europa responder aos desafios do presente sem comprometer o futuro”.
“A IMPORTÂNCIA DO CONGRESSO COMO ESPAÇO DE UNIÃO DO SETOR CEREALÍFERO”
Jorge Neves, presidente da ANPROMIS, na sua intervenção, sublinha a importância do Congresso como espaço de união do setor cerealífero e realça que “reunimos aqui mais de 600 participantes, entre agricultores, técnicos, investigadores, decisores e representantes da indústria, o que mostra que os cereais continuam a ser um pilar estratégico na agricultura portuguesa”, destacando a integração de produtores de milho, cereais praganosos e arroz num único evento.
40 anos de integração europeia
Jorge Neves recorda o marco histórico da entrada de Portugal na então Comunidade Económica Europeia. Explica que “assinalamos 40 anos da integração de Portugal na Europa, um período que trouxe oportunidades, investimento, modernização, mas também desafios e ajustamentos difíceis, que ainda hoje sentimos no setor cerealífero”.
O dirigente sublinha os desafios atuais da produção cerealífera e acrescenta que “alterações climáticas, fenómenos meteorológicos extremos, pressão sobre a produção e exigências ambientais crescentes exigem mais ciência, mais precisão e mais resiliência do que nunca. A inovação genética, a digitalização e a transferência de conhecimento são essenciais”.
Cereais como questão estratégica
O presidente da ANPROMIS alerta para o contexto global e afirma que “vivemos tempos de instabilidade, ruturas nas cadeias de abastecimento e crescente instrumentalização da alimentação. A produção de cereais é agora também uma questão de soberania e segurança alimentar”.
Na sua intervenção, reforça ainda o papel da PAC, explicando que “não é apenas um instrumento financeiro, mas político, económico e social. Para ser eficaz, tem de ser equilibrada, justa e adaptada às realidades nacionais. Não há sustentabilidade ambiental sem sustentabilidade económica, nem transição verde sem agricultores”.
Jorge Neves conclui, sublinhando o papel da associação: “A ANPROMIS tem sido uma voz responsável e tecnicamente fundamentada na defesa dos produtores de milho e do setor cerealífero (…). Este Congresso pretende gerar conhecimento, promover diálogo e contribuir para soluções concretas”.
COMISSÁRIO EUROPEU DESTACA 40 ANOS DE COOPERAÇÃO E FUTURO DA AGRICULTURA PORTUGUESA
Presente também na sessão de abertura do XVI Congresso Nacional do Milho, Christoph Hansen, Comissário Europeu da Agricultura e Alimentação, sublinha o papel central da agricultura na trajetória de Portugal na União Europeia. “Há 40 anos, Portugal fez uma escolha, pela estabilidade, pela cooperação, pela agricultura. E a agricultura tem estado e continua a estar no centro desta trajetória”, afirma.
O Comissário recordou que a adesão à UE trouxe desenvolvimento económico e social. “Portugal trouxe para a Europa a sua terra, a sua força rural e as suas tradições, e a Europa apoiou o seu desenvolvimento. Desde que aderiu à União Europeia, a economia portuguesa mais do que duplicou, foram criados mais de um milhão de postos de trabalho e as exportações multiplicaram-se, incluindo as agroalimentares”, destaca.
A importância da Política Agrícola Comum
Christoph Hansen sublinha a relevância da Política Agrícola Comum para a estabilidade do setor: “Todos os anos, cerca de 200.000 agricultores portugueses recebem apoios que estabilizam os rendimentos, permitem investimentos e possibilitam o planeamento, época após época. No atual plano estratégico da PAC para Portugal estão previstos mais de 7 mil milhões de euros para a agricultura, incluindo 120 milhões em pagamentos diretos para milho, arroz, cereais e proteaginosas”.
O Comissário apontou ainda as prioridades para o futuro: competitividade, inovação e mercados previsíveis. “Para que a inovação se traduza em resultados, é necessário conhecimento, cooperação e também mercados que funcionem, simples, justos e previsíveis. Portugal prova a sua força com 800.000 toneladas de cereais e 600.000 toneladas de milho por ano”, afirma.
Christoph Hansen destaca também o apoio futuro da União Europeia: “Portugal beneficiará de 32,5 mil milhões no próximo período de programação, incluindo 7,4 mil milhões dedicados à agricultura. Em toda a União, a nova rede de segurança de 6,3 mil milhões ajudará os Estados-Membros quando os mercados enfrentarem choques. Trata-se de proteção quando realmente importa”.
O Comissário encerrou com uma mensagem de confiança e cooperação.
“Uma janela de 40 mil milhões no Fundo Europeu para a Competitividade e no Horizonte Europa impulsionará a inovação em eficiência hídrica, biofertilizantes, novas tecnologias e solos mais saudáveis (…). A Europa e Portugal são bem-sucedidos quando estão unidos. Vamos construir o próximo capítulo com a mesma confiança. Para a Europa, isso continuará a significar parceria, solidariedade e oportunidades para todos os produtores portugueses de milho e cereais”.

O primeiro painel dedicado aos 40 anos de integração de Portugal na União Europeia, contou com Carlos Coelho, Comissário para as Comemorações, como orador, e teve como comentadores Arlindo Cunha, ex-ministro da Agricultura, Guilherme d’Oliveira Martins, administrador da Fundação Calouste Gulbenkian, e Pedro Oliveira, diretor da NOVA SBE. A moderação esteve a cargo de Manuel Carvalho, do jornal Público.
“EVOLUÍMOS MUITO DO PONTO DE VISTA ESTRUTURAL E COMPETITIVO”
Arlindo Cunha, ex-Ministro da Agricultura, abordou a estratégia de negociação agrícola de Portugal aquando da adesão à União Europeia, sublinhando a cautela e a transição faseada adotadas pelo país. “Tivemos uma estratégia de negociação na agricultura muito cautelosa. Fomos o país que fez uma transição por etapas, distinguindo entre os produtos que não teriam à partida grandes dificuldades competitivas, com preços mais baixos, e aqueles com maiores desafios potenciais”, afirma.
O ex-ministro detalha que produtos como vinho, azeite, frutas e legumes, bem como carne de ovinos e caprinos – representando menos de 30% da produção nacional – beneficiaram de uma transição clássica de sete anos. “A esses produtos aplicou-se a transição clássica de sete anos”, sublinha, destacando que esta abordagem permitiu gerir de forma gradual os impactos da adesão.
Arlindo Cunha recorda que o período entre 1992 e a entrada no euro, em 2002, foi especialmente exigente. “Foi um período muito difícil de adaptação a estas mudanças, muito difícil, muito difícil. Mas conseguimos”, afirma, sublinhando que a sequência de reformas da Política Agrícola Comum (PAC) permitiu consolidar a transição e reforçar o segundo pilar em 2003.
Apesar de reconhecer que o crescimento do produto agrícola bruto em Portugal desde 2010 tem sido praticamente nulo, Arlindo Cunha salienta os avanços estruturais e competitivos alcançados. “Se formos contar desde 2010 até agora, a taxa média de crescimento anual é próxima de zero, mas evoluímos muito do ponto de vista estrutural e do ponto de vista competitivo”, afirma, reforçando que o país conseguiu adaptar-se e modernizar a agricultura portuguesa num contexto europeu complexo.
DIMENSÃO POLÍTICA E ECONÓMICA DA ADESÃO
Carlos Coelho, Comissário para as Comemorações, destacou os impactos políticos, económicos e sociais deste marco histórico. “A entrada na União Europeia obrigou-nos não apenas a olhar para aquilo que conseguimos fazer, mas a usar esse capital de experiência para olhar para o futuro”, afirma.
O Comissário recordou que a integração europeia consolidou o processo democrático português e normalizou relações com países vizinhos. “Não apenas nós abrimos à Europa, de certa forma, reencontramos com o nosso continente, mas também normalizámos as nossas relações com Espanha”, sublinha. A nível económico, destaca os avanços significativos: “Aposta no crescimento, no bem-estar, no desenvolvimento económico e social é indesmentível. Portugal deu um passo em frente”.
O Comissário sublinha que a entrada de Portugal trouxe vantagens, mas que o país também contribuiu para a Europa.
“Portugal beneficiou muito com a sua entrada na União Europeia, mas é justo também dizer que Portugal deu muito à Europa. Ganhou pela nossa capacidade de levar a Europa a olhar para outros destinos, como África e América do Sul, e pelas nossas características: os portugueses têm capacidade de compromisso, de conciliação. Não somos, muitas vezes, os melhores a planear, mas somos fantásticos no improviso e nas funções criativas”.
Olhar para o futuro com confiança
Carlos Coelho defende uma visão europeia centrada nas pessoas e na coesão social e territorial: “A Europa que queremos não é apenas a Europa dos mercados, é também a Europa dos cidadãos, da solidariedade e do desenvolvimento, é a Europa do mercado interno, do euro, da capacidade económica, da geração de emprego, mas é também a Europa da paz, da segurança e da defesa. Temos a certeza de que juntos somos mais fortes”.
O Comissário concluiu com uma mensagem de confiança sobre o futuro da participação de Portugal na União Europeia: “Estamos orgulhosos daquilo que Portugal fez nestes 40 anos, mas olhamos para o futuro da nossa inserção na Europa com confiança e com esperança, e com a certeza de que estamos melhor na Europa do que estaríamos se estivéssemos sozinhos neste mundo em que vivemos”.
“É COM FUNDO SENTIDO DE MISSÃO QUE A NOVA SBE ESTÁ AQUI NESTE PAINEL E SE JUNTA HOJE AO CONGRESSO NACIONAL DO MILHO”
Pedro Oliveira, diretor da NOVA SBE, explicou a relevância da escola de Economia, Gestão e Finanças para o evento. “Será natural que alguns se perguntem o que é que tem uma escola de Economia, Gestão e Finanças, uma escola hoje muito internacional, com o Congresso do Milho. Acho que a resposta está na nossa história comum e na nossa missão e em tudo aquilo que aconteceu nos últimos 40 anos”, sublinha, destacando o papel da integração europeia no fortalecimento da capacidade do país em diversos setores.
Pedro Oliveira enfatizou o desafio da produtividade. “40 anos depois desta adesão, o desafio que enfrentamos é transformar esta capacidade em capacidade de entrega, de mais produtividade. E este desafio aplica-se ao setor agrícola, como se aplica ao setor do ensino superior”, alerta.
O diretor da NOVA SBE associou ainda a modernização do setor agrícola à utilização de dados e tecnologia. “A agricultura é hoje um setor cada vez mais industrializado, quase de precisão, baseado em dados. O agricultor que gera o regadio com base em dados e o gestor que opera em mercados globais são duas faces da mesma moeda, que tem sido a modernização de Portugal”, afirma, reforçando o contributo também da academia para o desenvolvimento do país. “É por isso que faz todo o sentido trazer uma universidade para uma discussão como esta”, sublinha Pedro Oliveira.
O segundo painel dedicado ao tema “Produção de Cereais: Que desafios técnicos se nos colocam?” reuniu especialistas nacionais e internacionais A sessão foi moderada por Carlos Parreira do Amaral, presidente da AOP – Associação de Orizicultores de Portugal.

MELHORAMENTO GENÉTICO NO CENTRO DA RESPOSTA
Antonio Villarroel, diretor-geral da ANOVE – Asociación Nacional de Obtentores Vegetales, destacou o papel estratégico do melhoramento genético na resposta aos desafios globais. “Somos um setor relativamente pequeno, mas somos líderes em investigação na Europa, com uma percentagem de investimento em pesquisa que excede os 20% em muitos cultivos. Isto é mais do que o setor farmacêutico ou o setor aeronáutico”, afirma.

Nas palavras do diretor-geral, a ANOVE é uma associação com 20 anos que conta atualmente com 62 membros, representando em Espanha toda a indústria de melhoramento vegetal, desde grandes multinacionais a empresas familiares, cooperativas e centros públicos de investigação. O responsável sublinhou ainda a importância da inovação para garantir competitividade e sustentabilidade no setor.
Mais população, mais alimentos, menos recursos
Antonio Villarroel alerta para o cenário global que se desenha nas próximas décadas. “Estamos numa situação que a humanidade nunca enfrentou antes”, afirma, referindo-se ao crescimento da população mundial. “Segundo estimativas da FAO, vamos ter de aumentar a produção de alimentos em torno de 60 a 70%. Mas não temos mais terra para produzir (…)”.
O desafio, sublinha, é claro: “Temos uma equação de mais população, mais necessidade de alimentos, mas não temos mais terra. Então, temos de produzir mais com menos custos. E esta é uma equação difícil de resolver”. Neste contexto, o diretor-geral da ANOVE reforçou que os cereais terão um papel fundamental na resposta alimentar global.
“AS NOSSAS VARIEDADES JÁ NÃO FUNCIONAM DA MESMA FORMA E AS PRAGAS E DOENÇAS COMEÇAM A SER DIFERENTES”
Alejandro Castilla, do IFAPA – Instituto Andaluz de Investigación y Formación Agraria, Pesquera, Alimentaria y de la Producción Ecológica, alertou para os efeitos concretos das alterações climáticas na produção cerealífera do sul de Espanha. “Eu venho do sul da Espanha, concretamente da Andaluzia, e nós já sabemos em que se traduzem as alterações climáticas”, afirma, sublinhando que o fenómeno vai muito além do simples aumento das temperaturas.
“As alterações climáticas não são apenas um aumento de temperatura ou uma variação na frequência das chuvas. Isso tem uma tradução direta: as nossas variedades já não funcionam da mesma forma e as pragas e doenças começam a ser diferentes”, explica.
O investigador destaca que, na Andaluzia, algumas pragas passaram a ter carácter permanente.
“Neste momento, temos zonas endémicas, ou seja, temos problemas com pragas todos os anos”, vinca. Como exemplo, referiu o mosquito do trigo (Mayetiola destructor), que “em 2016 praticamente acabou com 50% da produção de trigo na Andaluzia”.
INNOVPLANTPROTECT REFORÇA PAPEL DA INVESTIGAÇÃO NA ADAPTAÇÃO DAS CULTURAS
António Saraiva, do InnovPlantProtect – Laboratório Colaborativo, destacou a importância da investigação para enfrentar os desafios emergentes na produção de cereais. “É com orgulho que hoje, ao fim de sete anos, temos 28 investigadores a trabalhar a tempo inteiro nesta temática, dos quais 12 doutorados, com experiência em culturas como o arroz, que tem sido central no nosso trabalho”, afirma, sublinhando o carácter multifuncional e internacional das equipas.
O responsável explicou que a investigação não se limita ao arroz, estando também envolvida em projetos relacionados com o milho. “Estamos a finalizar uma candidatura ao Horizonte Europa focada em variedades melhoradas para resistir aos principais problemas do arroz (…) mas também com o milho, estamos envolvidos em algumas iniciativas, um projeto que está a terminar agora, e mais dois grupos operacionais que estão para arrancar sobre problemas emergentes da cultura”.
Para António Saraiva, a antecipação é fundamental: “Estes desafios não podem esperar muito tempo para serem discutidos ou resolvidos. Quanto mais cedo anteciparmos as questões, mais fáceis, eficazes e económicas serão as soluções”.
O investigador frisa ainda o impacto do clima. “O que foi dito hoje é claro: a alteração climática é a maior ameaça que temos”, considera.
SUSTENTABILIDADE EXIGE SISTEMAS PRODUTIVOS MAIS COMPLEXOS
Cristina Cruz, da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (FCUL), defendeu que a transição para sistemas mais sustentáveis exige uma abordagem integrada e baseada no funcionamento do solo. A investigadora sublinhou que é possível aumentar a eficiência no uso de recursos: “Podemos poupar 30% da fertilização e 30% da água utilizando uma rega subótima, porque temos um maior desenvolvimento radicular e plantas mais robustas para vários tipos de stress”.
Ainda assim, alerta que não existem soluções milagrosas. “Não podemos pensar que isto é um milagre. O nosso objetivo não é apenas usar produtos de origem biológica, biofertilizantes ou bioestimulantes. Tem de ser, termos sistemas produtivos mais complexos, com solos que sejam um fator de apoio à produção, e não apenas um substrato para sustentar a planta (…). E esse trabalho passa por implementar técnicas, como a rotação de culturas, as culturas de cobertura, a introdução de biofertilizantes, a introdução de compostos orgânicos, etc., que vão permitir este melhor funcionamento do solo”, afirma
Para Cristina Cruz, a chave está no bom funcionamento do sistema planta–microbiologia–solo. “É esse melhor funcionamento que nos vai permitir ter sistemas mais eficientes e que geram biofertilização. Isso é que é a chave da sustentabilidade”.
A docente defende ainda que a inovação tecnológica e a sustentabilidade não são caminhos opostos. “Temos de associar as técnicas que temos ao nosso dispor — melhoramento de plantas, agricultura de precisão, biotecnologia — e integrá-las no contexto local. É daí que vamos tirar a mais-valia e alcançar uma intensificação sustentável da agricultura”.
MANUEL PATANITA, DA ESA BEJA – ESCOLA SUPERIOR AGRÁRIA DE BEJA, DESTACOU A NECESSIDADE DE DESENVOLVER VARIEDADES DE CEREAIS ADAPTADAS ÀS NOVAS CONDIÇÕES CLIMÁTICAS.
“Temos que ter claramente variedades adaptadas a estas situações, com plasticidade de ciclo e estabilidade produtiva. Sabemos que desde a década de 90 se atingiu o patamar produtivo do trigo, mas nas nossas condições climáticas não conseguimos atingir esse potencial. Precisamos, portanto, de variedades resilientes e estáveis”, afirma.

O docente sublinha ainda o papel do regadio: “Qualquer exploração agrícola com possibilidade de regadio, seja privado ou público, e que regue nas fases críticas das culturas, com um acréscimo de 500 a 1.000 m³ de água por hectare, consegue duplicar ou triplicar a produção, dependendo do ano”.
Manuel Patanita reforça, assim, a combinação entre genética e maneio hídrico como estratégia fundamental para enfrentar os desafios da produção cerealífera em Portugal.
INOVAÇÃO GENÉTICA NO ARROZ: NOVAS VARIEDADES PARA ENFRENTAR DESAFIOS
Ricardo Araque, da Hisparroz – Instituto Hispânico del Arroz, destacou o esforço contínuo em inovação genética para responder às necessidades do setor.
“Todos os anos, temos mais de 300 a 400 linhas diferentes de variedades de arroz em estudo, e praticamente todos os anos obtemos novas variedades. Fazemos isto há mais de 50 anos e sempre fomos líderes em obter variedades (…). Em Espanha, praticamente sempre tivemos as melhores variedades do mercado, e temos desafios como Portugal, em que trabalhamos com muito entusiasmo (…)”, comenta.
O investigador sublinha a evolução das variedades convencionais para as tecnológicas: “Nos últimos anos vimos uma tendência clara para desenvolver variedades tecnológicas. Em colaboração com a BASF, estamos a criar variedades que resistem melhor às infestantes”.
A AGRICULTURA EUROPEIA, OS ACORDOS COMERCIAIS E A GEOPOLÍTICA MUNDIAL
A manhã do segundo dia do XVI Congresso Nacional do Milho teve início com o painel “A agricultura europeia, os acordos comerciais e a geopolítica mundial”.
A sessão foi moderada por José Diogo Albuquerque, diretor do Agroportal, que enquadrou o debate num contexto internacional marcado por crescentes tensões geopolíticas, alterações nas cadeias de abastecimento e desafios acrescidos para o setor agrícola europeu.

Como orador convidado, Francesco Meggiolaro, da Direção-Geral da Agricultura e Desenvolvimento Rural (DG AGRI) da Comissão Europeia, abordou o posicionamento da agricultura europeia face aos atuais acordos comerciais e à instabilidade geopolítica global, sublinhando a necessidade de equilíbrio entre competitividade, sustentabilidade e segurança alimentar.
O painel contou ainda com os comentários de Jorge Tomás Henriques, presidente da FIPA, de Luís Mira, secretário-geral da CAP, e de Luís Vasconcellos e Souza, ex-presidente da ANPROMIS.
“PARA VENCERMOS UM ACORDO COMO O MERCOSUL E OS DESAFIOS DA ECONOMIA PORTUGUESA PARA O FUTURO, TEMOS DE MUDAR O NOSSO PERFIL”
Jorge Tomás Henriques, presidente da FIPA, deixou um apelo claro à mudança estrutural da fileira agroalimentar portuguesa, defendendo maior escala, organização e criação de valor como condições essenciais para enfrentar desafios como o acordo Mercosul e o défice agroalimentar nacional.
“O que está em causa é aquilo que nós próprios, industriais, produtores, nunca fomos capazes de fazer”, afirma, sublinhando a necessidade de transformação do modelo produtivo. “Eu costumo dizer que, para vencermos um acordo como o Mercosul e os desafios da economia portuguesa para o futuro, temos de mudar o nosso perfil (…) para nos transformarmos numa grande quinta”.
Para o responsável, a principal fragilidade do setor reside na falta de organização e capacidade de atuação conjunta. “É isto que nós, infelizmente, não somos capazes de fazer”, reforça, ilustrando essa limitação com um exemplo histórico: “Dou-vos só um pequeno exemplo de como a nossa incapacidade se revela. Quando foi a Guerra do Golfo, em matéria de fornecimento às tropas dos Estados Unidos de águas minerais engarrafadas, o único país da Europa que não foi capaz de exportar uma única garrafa de água foi Portugal, porque não foi capaz de formar uma associação de exportação, um conglomerado de exportação, para responder àquilo que eram as necessidades”.
“Temos que aumentar a escala, mas temos sobretudo que aumentar valor”
No que respeita à competitividade internacional, Jorge Tomás Henriques destacou a necessidade de aumentar escala e valor acrescentado. Referindo-se ao setor do vinho, aponta: “No vinho tivemos um aumento ligeiro de preços, de cerca de 8%, inferiores aos preços que o Chile, que é o principal fornecedor do Brasil, consegue fazer. Ou seja, nós temos que aumentar a escala, mas temos sobretudo que aumentar valor”.
Sobre o Mercosul, considera tratar-se de um desafio relevante, mas não o principal. “O Mercosul é um desafio, mas eu costumo dizer que o grande desafio de Portugal está aqui ao lado. O nosso maior cliente é o nosso maior concorrente”.
“A OPORTUNIDADE EXISTE, MAS TEMOS QUE TRABALHAR PARA ISSO”
Luís Mira, secretário-geral da CAP, destacou o potencial estratégico do mercado brasileiro no contexto do acordo Mercosul, sublinhando a vantagem competitiva única de Portugal. “É um mercado com 210 milhões de pessoas que falam português, que não existe noutra parte do mundo. Só existe no Brasil. Nós temos uma vantagem, sobre qualquer outro país europeu, nesta matéria”.
Contudo, alerta que essa vantagem, por si só, não produz resultados. “Mas isto não chega. Agora temos também que saber aproveitar a vantagem”. Apontando o exemplo de Espanha, refere que “os espanhóis já estão a fazer a promoção do azeite com dezenas de milhões de euros em ações de promoção. Nós estamos a fazer zero”. Para o dirigente, esta falta de iniciativa repete-se noutros setores: “Isto repete-se para a fruta, para o vinho, para tudo. A oportunidade existe, mas temos que trabalhar para isso”.
Quanto às preocupações em torno dos setores mais sensíveis, identificou a carne de vaca e a carne de frango, mas procurou enquadrar os números do acordo. Recordou que a União Europeia tem importado, nos últimos cinco anos, cerca de 204 mil toneladas de carne do Mercosul, havendo anos com valores entre 220 e 225 mil toneladas. “Aquilo que está estabelecido no Acordo é uma quota de 99 mil toneladas. Metade daquilo que já se tem importado”.
“A EUROPA TEM UM PERFIL DE LUXO QUE NÃO É EXPORTÁVEL”
Luís Vasconcellos e Souza, ex-presidente da ANPROMIS, deixou uma reflexão crítica sobre o posicionamento europeu no atual contexto geopolítico e comercial, alertando para a perda de influência da Europa nas grandes decisões internacionais.

“Portanto, o que estamos a assistir é uma guerra em que nós somos meros espectadores”, afirma, recorrendo a uma metáfora para ilustrar a sua preocupação: “Nós estamos no ringue de boxe. Estamos a ver o boxe. E isso é que é triste. É que, no fundo, chegámos a uma situação em que a nossa opinião parece que já não conta muito”.
O antigo dirigente associativo defendeu que a Europa se tem vindo a afastar das dinâmicas globais, assumindo um posicionamento cada vez mais exigente e sofisticado, mas também mais isolado. “Há quem diga que a Europa tem um perfil de luxo, e eu também acho que tem, cada vez mais destacado do mundo, e que esse perfil de luxo não é exportável”.
Na sua perspetiva, o modelo europeu — político, social e de qualidade de vida — não é facilmente replicável noutras geografias. “Nós não vamos conseguir nem que o Brasil, nem que a Índia, nem que a Argentina, nem que o Uruguai consigam ter um sistema político como o nosso. Nós temos um sistema político e temos uma qualidade de vida que eu penso que não é exportável”.
Ainda da parte da manhã do segundo dia decorreu o painel – “A produção de cereais em Portugal: Como aumentar áreas e rendimento?”, moderado por José Palha, presidente da ANPOC. A sessão contou com a intervenção de Pedro Santos, diretor-geral da Consulai e comentários de António Carmona Rodrigues (Coordenador da Estratégia “Água que Une”), Francisco Gomes da Silva (Instituto Superior de Agronomia), Luís Souto Barreiros (Presidente do IFAP) e Susana Barradas (Subdiretora do GPP).

UNIÃO DO SETOR E ESTRATÉGIA +CEREAIS
Pedro Santos, diretor-geral da Consulai, sublinha que o setor enfrenta desafios significativos, mas também oportunidades de crescimento. “Vinha para falar sobre o tema da produção de cereais, de como aumentar áreas e rendimento, e, como vamos ver, é tentar inverter uma tendência que vai exatamente no sentido contrário, mas deixar também bem claro que é um dos setores com os quais eu e a Consulai temos trabalhado de forma muito afincada e onde se tem sentido, nos últimos anos, a capacidade de juntar interesses que antes estavam muito separados”, afirma

O responsável realça o simbolismo de realizar, em paralelo com o Congresso do Milho, o 2.º Encontro das Culturas Cerealíferas: “Esta possibilidade de organizar, juntamente com o Congresso do Milho, este 2.º Encontro das Culturas Cerealíferas é um sinal muito, muito importante de que o setor está unido e que, dessa forma, está junto para inverter estas questões”.
Pedro Santos aborda a Estratégia +Cereais, apresentada no ano anterior, como ferramenta central para aumentar a produção e melhorar a competitividade.
“De facto, o ano passado foi apresentada uma estratégia renovada, a Estratégia +Cereais, para um conjunto de objetivos que visam inverter a questão dos níveis de autoaprovisionamento e, na altura, até dos custos de produção. Esta nova versão da estratégia dos cereais é um reflexo muito importante da união do setor, permitindo perceber que dificilmente se inverte esta realidade sem ajudas públicas, sem uma mudança de contexto, com menores custos, que permitam ganhar competitividade num mercado em que, inicialmente, a Europa conta pouco em algumas matérias-primas e Portugal conta quase de forma insignificante para qualquer uma delas”, explica.
Avanço importante na Interprofissional
O diretor-geral da Consulai revela também um avanço importante na Interprofissional: “O setor dos cereais procura avançar na criação da sua interprofissional (…). No próximo mês, prevê-se a entrega de um documento ao Gabinete de Planeamento, que permitirá dar início ao processo de reconhecimento”.
APOIOS E INCENTIVOS: ESTABILIDADE E VALORIZAÇÃO DA PRODUÇÃO
Susana Barradas, subdiretora do GPP, complementou a intervenção, destacando o baixo grau de autoaprovisionamento nacional. “Somos um dos Estados-membros com o menor déficit, cerca de 19%. A nossa balança comercial tem um déficit estrutural que depende quer da energia e da questão alimentar. Os cereais, por exemplo, representam 22% do déficit agroalimentar em Portugal”, afirma.

A responsável explica que o PU de 2026 introduz medidas de maior estabilidade e flexibilidade nos apoios. “Será possível aumentar a estabilidade nos pagamentos ao milho de silagem, especialmente para produtores que comercializem através de organizações de produtores na produção de carne. Para os restantes cereais praganosos e sementes certificadas, introduzimos maior flexibilidade para ajustar o valor do pagamento à procura”, destaca.
Susana Barradas sublinha ainda incentivos específicos para a valorização da produção nacional. “As sementes certificadas são fundamentais para valorizar o produto dos cereais nacionais (…) também tivemos aqui um aumento de 20% no caso de ser em modo de produção biológico”, vinca.
“TEMOS QUE COMEÇAR A OLHAR COMO É QUE AS MEDIDAS FUNCIONAM E ONDE É QUE ELAS CORREM MAL”
Luís Souto Barreiros, presidente do IFAP, destaca os desafios da aplicação das medidas de apoio. O responsável sublinha que muitos problemas surgem devido à complexidade das regras. “As queixas dos agricultores partem normalmente de medidas muito complexas. Temos uma diversidade enorme de medidas, cada uma com regras muito específicas. Temos que começar a olhar como é que as medidas funcionam e onde é que elas correm mal”, afirma.

Luís Souto Barreiros destaca também a comunicação como ferramenta para agilizar pagamentos. “Há uma comunicação específica para os cereais. Este mês, tentámos, em colaboração com as organizações, antecipar o envio das informações para que os pagamentos pudessem ser feitos mais cedo, tendo em conta a fase em que estamos. Mas a realidade é que, no caso dos cereais, pagar muito mais cedo pode não ser viável”, considera.
ESTRATÉGIA “ÁGUA QUE UNE” VISA RESILIÊNCIA HÍDRICA
António Carmona Rodrigues, coordenador da Estratégia “Água que Une”, sublinha a importância das infraestruturas para o desenvolvimento agrícola e económico do país. O responsável reforça que a riqueza de um país mede-se não apenas pela existência de estradas, portos, aeroportos, barragens e canais, mas também pela forma como funcionam. “É preciso que elas existam e que funcionem bem. O funcionar bem envolve organização, governança, regime económico-financeiro para os investimentos, manutenção e conservação”, afirma.

O coordenador explica que o objetivo da Estratégia é passar de uma gestão baseada na contingência para uma gestão orientada para a resiliência. “Estamos sempre a correr atrás de situações que ocorrem, como excesso ou falta de água. O objetivo é passar da contingência para uma efetiva resiliência”, considera.
OS CONSTRANGIMENTOS DA PRODUÇÃO CEREALÍFERA EM PORTUGAL NÃO SÃO APENAS TÉCNICOS, MAS SOBRETUDO ESTRUTURAIS E ECONÓMICOS
Francisco Gomes da Silva, do Instituto Superior de Agronomia, sublinha que os constrangimentos da produção cerealífera em Portugal não são apenas técnicos, mas sobretudo estruturais e económicos. O especialista reconhece que não cabe apenas à agronomia explicar as dificuldades do setor, defendendo que os fatores determinantes são semelhantes aos de qualquer atividade económica.

“O que condiciona a cultura dos cereais em Portugal é aquilo que condiciona a generalidade das culturas ou das atividades económicas”, afirma, explicando que quando existem enquadramentos técnicos e de mercado que garantem competitividade, a produção tende naturalmente a crescer.
Segundo Francisco Gomes da Silva, a evolução diferenciada entre cereais praganosos, milho e arroz reflete precisamente essas condicionantes. “Aquilo que temos observado em Portugal é um reflexo das condições existentes na produção. Como diria alguém no passado, isto é a economia”, considera, reforçando que a competitividade e o enquadramento de mercado são determinantes para o futuro do setor.
O último painel foi dedicado ao tema “A importância da Política Agrícola Comum na Coesão de uma União Europeia a 27”.
A sessão foi moderada por Isabel Martins, diretora da Vida Rural, e contou com a intervenção principal de Ricard Ramon, da DGAGRI, acompanhada pelos comentários de Eduardo Diniz, diretor-geral do GPP, João Pacheco, do Think Tank Farm Europe, Luís Bulhão Martins, diretor da ANPROMIS e Paulo do Nascimento Cabral, membro da Comissão de Agricultura e Desenvolvimento Rural do Parlamento Europeu.

FLEXIBILIDADE E RAPIDEZ NA PAC 2028-2034
Ricard Ramon, da DGAGRI, responsável centrou a sua intervenção na futura PAC 2028-2034, defendendo que o próximo quadro deve assentar numa maior flexibilidade. “Muito frequentemente, os Fundos Europeus são acusados de serem excessivamente rígidos e de não permitirem a sua utilização quando são realmente necessários”, afirma.
Para Ricard Ramon, a União Europeia tem de ser capaz de reagir com rapidez a crises imprevistas. “Temos crises muito concretas e precisamos de responder rapidamente. Essa rapidez, que é exigida em Bruxelas, é precisamente o que os novos fundos devem permitir”, considera, apontando a flexibilidade como elemento-chave da próxima reforma da PAC.
EDUARDO DINIZ, DIRETOR-GERAL DO GPP, ALERTA PARA OS IMPACTOS DA CRIAÇÃO DO NOVO FUNDO EUROPEU PARA A COMPETITIVIDADE, ONDE SE INTEGRA, POR EXEMPLO, O PROGRAMA HORIZONTE.
Embora reconheça o reforço orçamental deste instrumento, sublinha que a sua gestão é totalmente centralizada na Comissão Europeia, sem participação direta dos Estados-Membros, sem participação de outras instituições.
O responsável antecipa que esta configuração poderá gerar tensões entre as áreas da agricultura e da coesão de cada um dos Estados-Membros, sobretudo num contexto em que se debate a escassez de recursos na PAC e na política de coesão.

Para Eduardo Diniz, antes de se concluir que há falta de verbas, importa discutir o equilíbrio entre fundos de gestão partilhada e fundos de gestão centralizada. “Se achamos que há pouco dinheiro na PAC e na coesão, talvez devamos começar por corrigir também parte dessa questão”, defende.
JOÃO PACHECO, DO THINK TANK FARM EUROPE, ALERTA PARA O RISCO DE CONCORRÊNCIA ENTRE DIFERENTES POLÍTICAS EUROPEIAS NO ACESSO A FUNDOS.
“Esses 90 mil milhões a mais vão estar em concorrência com outras políticas, como a política de coesão em Portugal”, afirma.

O especialista sublinha que o apoio ao investimento é crucial para garantir competitividade e produtividade na agricultura europeia, bem como para enfrentar os desafios climáticos. Sem investimento suficiente, adverte, “temos uma agricultura mais fraca, que continua fraquejando”. João Pacheco critica a proposta da Comissão por não oferecer garantias claras de que estas questões serão efetivamente abordadas.
LUÍS BULHÃO MARTINS, DIRETOR DA ANPROMIS, CONSIDERA QUE A NOVA POLÍTICA AGRÍCOLA COMUM REPRESENTA UM VERDADEIRO TESTE À CAPACIDADE DE RESPOSTA DOS ESTADOS-MEMBROS, INCLUINDO PORTUGAL.
“Encontrou Portugal num momento que permite quase fazer um ensaio sobre como a nova PAC pode ajudar na recuperação do potencial produtivo, das infraestruturas e do rendimento das pessoas”, afirma.

O responsável sublinha que a PAC continua a ser um instrumento fundamental de coesão, tanto entre Estados-membros como dentro do próprio país. “Portugal tem grandes desigualdades territoriais e de rendimento. A PAC pode corrigir algumas dessas assimetrias, não todas, porque são problemas históricos, mas pode ajudar”, refere.
Destacando o papel estruturante da agricultura nos territórios mais desfavorecidos, Luís Bulhão Martins lembra que o setor pode dinamizar economias locais através da produção, agroindústria e turismo, contribuindo para fixar população. “Se deixarmos sair as pessoas de 70% do território, teremos um problema enorme”, alerta.
Apesar de reconhecer o potencial da nova PAC, manifesta preocupação com a sua complexidade e com a capacidade administrativa para a implementar. “Assusta-me a complexidade e a mudança face aos modelos anteriores. Precisamos de uma administração capaz de transpor tudo isto para a realidade portuguesa”, vinca, mantendo ainda assim uma nota de prudente otimismo.
PAULO DO NASCIMENTO CABRAL, MEMBRO DA COMISSÃO DE AGRICULTURA E DESENVOLVIMENTO RURAL DO PARLAMENTO EUROPEU, CONSIDERA A PROPOSTA DE REFORMA DA PAC “UM DESASTRE” E “DEMASIADO DISRUPTIVA” PARA OS TEMPOS ATUAIS.
O eurodeputado sublinha que, perante desafios geopolíticos, de segurança e de defesa europeias, a agricultura continua a ser um pilar essencial: “Pôr comida na mesa dos europeus é o primeiro passo para a segurança e defesa europeia”.

Paulo do Nascimento Cabral alerta para a fragmentação da política: “Ao tirar um comum à PAC, passamos a ter 27 pequenas políticas agrícolas nacionais, e a PAC é uma política fundacional da União Europeia”. Critica medidas como a descressividade e o limite de idade para apoios, que, segundo ele, desincentivam a permanência na atividade agrícola. “No caso português, a média de idades dos agricultores são 64 anos, a nível europeu são 57, e depois nós incluímos nesta proposta que, a partir do momento em que o agricultor atinge a idade da reforma, deixa de estar elegível a apoios da PAC (…). No tempo em que vivemos, precisamos de mais agricultores, novos e menos novos, mas precisamos produzir mais. A proposta da Comissão não contribui para isso”, sublinha.
“ESTE CONGRESSO DEMONSTROU QUE O SETOR DOS CEREAIS NÃO FOGE AO DEBATE, NÃO EVITA A COMPLEXIDADE E ESTÁ PREPARADO PARA PENSAR O FUTURO”
Na sessão de encerramento do XVI Congresso Nacional do Milho, Jorge Neves, presidente da ANPROMIS, começou por expressar solidariedade aos produtores afetados pelas recentes tempestades, com destaque para os agricultores do Vale do Mondego que viram o seu potencial produtivo, bastante afetado pelo rebentamento do dique da margem direita do Mondego.

“A mensagem que eles pediram para transmitir foi que não baixam os braços e querem produzir, já durante esta campanha (…). Têm vontade de continuar a produzir, porque é gente da raça. Agora, há uma coisa fundamental para eles: a disposição do potencial produtivo, nomeadamente estas infraestruturas, que sem elas não vão ter água para desenvolver os seus cultivos”, considera.
O responsável sublinha que “este Congresso demonstrou que o setor dos cereais não foge ao debate, não evita a complexidade e está preparado para pensar o futuro. Mas um Congresso como este não pode terminar apenas com conclusões técnicas. Tem que terminar com uma mensagem política clara, responsável e construtiva”.
Para Jorge Neves, falar de cereais em Portugal é falar de soberania alimentar, segurança do abastecimento e equilíbrio territorial. “Portugal tem hoje um baixíssimo grau de autoaprovisionamento em cereais, particularmente em milho e em trigo. Dependemos fortemente do exterior para alimentar pessoas e animais. Esta realidade torna-nos mais vulneráveis a choques internacionais, a crises geopolíticas e a flutuações de preços que não controlamos”, afirma.
O presidente da ANPROMIS critica ainda a assimetria nas exigências do comércio internacional: “Aos agricultores europeus são impostas regras cada vez mais exigentes, e bem, mas depois há facilidade à importação de produtos que não cumprem essas mesmas regras. Isto não é comércio justo. Isto é exportar exigência e importar permissividade”.
Jorge Neves destaca ainda o papel do projeto Água que Une como instrumento estratégico para o setor: “Não é apenas uma obra hidráulica, é uma visão de futuro, de ligação entre território, de eficiência de uso da água e de adaptação às alterações climáticas. A sua implementação é essencial para garantir a sustentabilidade da produção agrícola, particularmente nas regiões onde o milho é estruturante”.
ÁLVARO MENDONÇA E MOURA, PRESIDENTE DA CAP, COMEÇA POR REFLETIR SOBRE OS 40 ANOS DE INTEGRAÇÃO EUROPEIA, SUBLINHANDO QUE ESTA TRAJETÓRIA CRIOU UM QUADRO INSTITUCIONAL E NORMATIVO QUE HOJE DEFINE A PRODUÇÃO AGRÍCOLA EM PORTUGAL.
“Quando falámos dos 40 anos de integração europeia, no fundo estivemos a falar do quadro institucional e normativo em que temos hoje de produzir, e não deixei de achar curioso e muito positivo que, reconhecendo os desafios que por vezes tivemos de enfrentar na nossa adaptação a esse quadro, estivesse sempre subjacente a todos os intervenientes que seria absurdo contestar esse quadro, tais as vantagens e a modernização que nos permitiu ou a que nos obrigou”, afirma, destacando que a adoção destas normas trouxe avanços significativos para o setor agroalimentar.
O responsável aponta ainda os efeitos dos acordos comerciais.
“O que constatamos é que esses mesmos acordos comerciais têm sido vantajosos para o conjunto do setor agroalimentar da União Europeia. O superavit agroalimentar europeu, nos últimos quinze anos, multiplicou por sete”, sublinha, alertando, porém, que existem setores que sofrem diretamente com a concorrência de produtos de países terceiros, caso não sejam negociadas medidas de salvaguarda apropriadas. “A questão coloca-se ao nível dos setores específicos que sofrem diretamente com a concorrência de produtos de países terceiros e, mais importante a meu ver, na questão do apoio popular que conseguimos obter. Ou seja, na razoabilidade dos sacrifícios que são pedidos”, afirma.

Álvaro Mendonça e Moura defende, neste momento, que o setor agrícola exige ao Estado português três compromissos essenciais: uma Política Agrícola Comum forte e bem financiada, que garanta competitividade e não coloque Portugal em desvantagem face a outros Estados-membros. Capacidade de execução, concretizando no terreno as estratégias já definidas com as associações do setor. Implementação da Estratégia “Água Que Une”, considerada a reforma estrutural mais decisiva para o futuro da agricultura e da floresta em Portugal, determinante para avaliar a ação de qualquer governo.
REPROGRAMAÇÃO DO PEPAC E APOIO AO SETOR
O Ministro da Agricultura, José Manuel Fernandes, durante o seu discurso abordou a reprogramação do PEPAC, destacando medidas de apoio à produção de milho e cereais. “Na reprogramação do PEPAC, como sabem, aumentamos o montante para milho-grão, milho-silagem, flexibilizamos o que respeita à condicionalidade e agora também vos posso dizer que aquilo que estava previsto para pagamentos em abril, no que respeita ao milho-silagem e multiplicação de sementes, vai ser pago em fevereiro”, afirma, sublinhando o papel do IFAP no processo: “E o IFAP está de parabéns neste domínio por um excelente trabalho de recuperação que está a fazer”.

O governante especificou ainda os prazos para outros pagamentos. “Aquilo que era para abril, nos cereais praganosos e milho-grão, passará para março. Tentaremos, se possível, mas temos este objetivo: a antecipação das práticas promotoras de biodiversidade”, afirma.
José Manuel Fernandes refletiu também sobre o contexto europeu e a necessidade de mercados para os produtos agrícolas portugueses. “A União Europeia tem 64 mil milhões de euros de superavit. Isto tem logo uma conclusão: precisa de mercado (…), sublinhando a importância de garantir acesso a mercados justos.
O Ministro de Agricultura destaca ainda a necessidade de solidariedade e coesão territorial dentro da União Europeia, criticando falhas na aplicação de políticas específicas para regiões ultraperiféricas. “Não desistimos de uma União Europeia que tem obrigações e que deve, claro, olhar para a competitividade, mas não deve esquecer princípios de solidariedade e de coesão territorial (…)”.
EMANUEL CAMPOS, VICE-PRESIDENTE DA CÂMARA MUNICIPAL DE SANTARÉM, DESTACA O PAPEL CENTRAL DO TERRITÓRIO E DOS AGRICULTORES NA ECONOMIA NACIONAL E NA COESÃO RURAL.
O autarca sublinha a importância estratégica da região e dirigiu-se ao Ministro da Agricultura: “Senhor Ministro, Santarém é um território leal ao país. É produtivo, estruturante (…). Somos a capital nacional da agricultura. Os nossos agricultores cumprem todos os dias a sua missão. Produzem, investem, inovam, resistem. O que pedem não é privilégio, é previsibilidade. Não é retórica, é compromisso. Esperam legitimamente que o Estado e a Europa estejam à altura da responsabilidade histórica de proteger quem produz e quem fixa população no mundo rural”, afirma.
Agricultura moderna e enraizada no território

Emanuel Campos salienta que a agricultura atual vai muito além da imagem tradicional do agricultor: “Temos de deixar de pensar no agricultor como o homem da enxada, essa imagem pertence ao passado. Hoje falamos de homens e mulheres altamente qualificados, que dominam a tecnologia, que gerem riscos, que incorporam inovação, que utilizam dados, que trabalham com a ciência e que querem estar na linha da frente da agricultura moderna. É essa agricultura que Santarém tem. Competitiva, tecnológica e sustentável. Mas é enraizada no território e no valor do trabalho”, sublinha.
Para o vice-presidente da Câmara de Santarém, o valor do Congresso depende da aplicação prática do conhecimento partilhado.
“Encerramos este Congresso com uma certeza. O conhecimento aqui partilhado só terá verdadeiro valor se se traduzir numa ação concreta. O que está em causa não é apenas o futuro de uma cultura agrícola ou de um setor específico. O que está em causa é a resiliência dos nossos territórios, a segurança das nossas comunidades e a dignidade de quem trabalha na Terra”, vinca.
HOMENAGEM AO ENGENHEIRO BENVINDO MAÇÃS
Durante o XVI Congresso Nacional do Milho e 2.º Encontro das Culturas Cerealíferas – o setor o setor cerealífero nacional prestaram homenagem ao engenheiro Benvindo Maçãs pela dedicação e pelo contributo excecional que, ao longo de mais de 40 anos, dedicou ao desenvolvimento do setor cerealífero em Portugal.
No momento em que cessa funções enquanto investigador e responsável pela Unidade Estratégica de Investigação e Serviços de Biotecnologia e Recursos Genéticos do INIAV, as Direções da ANPROMIS, da ANPOC e da AOP fizeram questão de sublinhar publicamente o papel determinante do Eng.º Benvindo Maçãs na capacitação dos agricultores portugueses.
Destacaram ainda o seu contributo decisivo para o reforço da resiliência, da inovação e da competitividade do setor cerealífero nacional, num contexto global cada vez mais exigente e desafiante.
Na edição de março de 2026, a Revista Voz do Campo publicará uma grande entrevista com Jorge Neves, Presidente da Anpromis.
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