O que hoje se apresenta como um cenário de destruição imediata nas explorações agrícolas pode, dentro de poucos meses, transformar-se numa ameaça ainda mais grave e generalizada. As tempestades que recentemente assolaram várias regiões do nosso país, deixaram um rasto de prejuízos visíveis, tais como culturas arrasadas, estufas destruídas, animais perdidos, mas deixaram também algo menos evidente e potencialmente mais perigoso: uma enorme carga de combustível espalhada pelo território.

Paulo Gomes – Diretor da Revista Voz do Campo

O levantamento de prejuízos em curso e a mobilização institucional são sinais positivos. A reposição do potencial produtivo, através dos apoios anunciados pelo Governo, é essencial. Contudo, há um fator que não pode ser ignorado: a ligação direta entre estas tempestades e o risco de incêndios no próximo verão.

Milhões de árvores tombadas, copas espalhadas, ramos finos acumulados, folhas secas em quantidade massiva. Um inverno chuvoso que alimenta o crescimento de vegetação espontânea. O resultado é previsível: quando as temperaturas subirem, todo este material secará rapidamente, a acumulação de matéria fina, altamente inflamável, irá funcionar como rastilho para fogos incontroláveis.

Estamos, portanto, perante um verdadeiro barril de pólvora. E a experiência recente mostra-nos que não se trata de um cenário hipotético. Incêndios de grande escala já marcaram anos anteriores, e tudo indica que os fatores de risco estão a intensificar-se. Ignorar esta realidade é aceitar, de forma passiva, que a tragédia se repita.

É aqui que a ação preventiva se torna decisiva. A limpeza das áreas afetadas, a gestão dos sobrantes florestais, o controlo da vegetação espontânea e a criação de faixas de proteção não podem ser adiadas. Os instrumentos de apoio existem, mas é fundamental garantir que chegam ao terreno com eficácia. O envolvimento das autarquias, das entidades públicas e dos proprietários é indispensável.

Também a responsabilidade individual não pode ser desvalorizada. O uso do fogo em contexto agrícola exige autorização e prudência. A consulta diária do risco de incêndio, a limpeza em redor das habitações e o cumprimento das normas são gestos simples que podem evitar catástrofes.

Este não é apenas um problema da floresta. É um problema da agricultura, da economia rural, da segurança das populações. É, acima de tudo, um problema de antecipação. Se nada for feito agora, estaremos a pagar no verão o preço da inação de hoje.

Aos decisores, exige-se mais do que respostas reativas. Exige-se planeamento, coordenação e coragem política para agir antes que o pior aconteça. Aos agricultores, pede-se resiliência, mas também apoio efetivo. E à sociedade, pede-se consciência.

Porque o que as tempestades deixaram no chão não é apenas destruição, é também muito combustível que o verão não perdoa.

Editorial da Revista Voz do Campo › Edição de março 2026

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