Míldio nas brássicas: Sintomatologia, Etiologia e Proteção Integrada

As brássicas são vegetais versáteis, cultivados mundialmente e amplamente utilizados na alimentação humana. Ricas em vitaminas (A, C, E e K), minerais (cálcio, potássio, ferro e fósforo), antioxidantes, carotenoides, fibras, substâncias anti-inflamatórias e compostos bioativos (glucosinolatos e sulforanos) capazes de prevenir o surgimento de alguns tipos de cancro e doenças degenerativas.

Necrose e amarelecimento da folha causado pelo míldio em mudas de repolho

O míldio nas brássicas, causado pelo oomiceto Hyaloperonospora parasitica, é uma das doenças mais destrutivas e frequentes nesta família de culturas. A sua ocorrência é especialmente notória durante o outono e a primavera, uma vez que estas estações oferecem condições climáticas favoráveis ao seu desenvolvimento: temperaturas amenas e elevada humidade causada por nevoeiros, orvalhos matinais e chuvas frequentes.

SINTOMAS

Sintoma de míldio em folha de couve-flor

O míldio pode ocorrer durante todas as fases de produção sendo comum em viveiros, campos abertos e cultivos hidropónicos. Os danos causados pela doença variam em função da suscetibilidade da cultivar e das condições climáticas ao longo do ciclo.

No viveiro, prejudica principalmente a formação das mudas, tornando-as inadequadas para o transplante

Em situações críticas, pode causar inclusive a morte dessas, reduzindo significativamente o stand. A doença é observada inicialmente nos cotilédones e folhas basais, evoluindo posteriormente para as folhas superiores. No início, as manchas são circulares, húmidas e cloróticas, evoluindo rapidamente para lesões negras, irregulares e necróticas. Ao evoluírem, as manchas foliares apresentam coloração castanha, formato angular, aspeto necrótico e encontram-se quase sempre rodeadas por um halo amarelado. A presença de condições climáticas favoráveis promove a formação de frutificações branco-acinzentadas de H. parasitica compostas por esporângios e esporangióforos na face inferior das lesões.
Nas inflorescências de brócolos e couve-flor, o míldio manifesta-se sob a forma de lesões deprimidas, húmidas e escuras, podendo inviabilizar a floração e a produção de sementes.

Lesão angular causada pelo míldio na face abaxial de folha de couve-flor

HOSPEDEIROS

O míldio é descrito em culturas de:  repolho (B. oleracea var. capitata), couve-galega (B. oleracea var. acephala), couve-portuguesa (B. oleracea var. costada, B. oleracea var. viridis), brócolos (B. oleracea var. italica), couve-de-bruxelas (B.  oleracea var. gemmifera), couve-flor (B. oleracea var. botrytis), couve-rabano (B. oleracea var. gongylodes), couve-chinesa (B. rapa subsp. pekinensis), pak-choi (B. rapa subsp. chinensis), nabo (B. rapa subsp. rapa), rúcula (Eruca vesicaria subsp. sativa), mostarda (B. juncea), canola (B. napus), rabanete (Raphanus sativus)  e  agrião (Nasturtium officinale).

ETIOLOGIA

Hyaloperonospora parasitica apresenta esporângios ovoides a elípticos (20 a 22 µm) sem a presença de papila. Os esporangióforos apresentam-se agrupados, eretos, longos e ramificados. O patógeno pode produzir estruturas de resistência denominadas oósporos que lhe permitem persistir no solo durante períodos desfavoráveis ao desenvolvimento da doença.  Caracteriza-se por ser um microrganismo biotrófico, ou seja, para sobreviver e reproduzir-se necessita de um hospedeiro vivo. 

O míldio é favorecido por elevada humidade relativa (>90%) e por temperaturas compreendidas entre 8 a 22°C

Sementes, mudas, substrato, água, equipamentos de irrigação, ferramentas contaminadas, bem como a ação do vento e os salpicos de água da chuva e da rega, constituem os principais agentes de disseminação do patógeno.

PROTEÇÃO INTEGRADA

O controlo do míldio nas brássicas deve basear-se em programas multidisciplinares, que integrem diferentes estratégias, com o objetivo otimizar os resultados, reduzir custos e promover a sustentabilidade da produção e a saudabilidade dos alimentos. 

Entre os fatores a considerar destacam-se:

  • Local de plantação

Evitar a plantação em locais sujeitos à acumulação de humidade e com circulação de ar limitada. Deve-se privilegiar áreas bem ventiladas e com boa drenagem.

  • Sementes e mudas sadias

A utilização de sementes e mudas sadias é fundamental para a obtenção de culturas com baixos níveis de doença e elevado potencial produtivo. Além disso, constitui uma das medidas mais eficazes para evitar a introdução de patógenos na propriedade.
Para a produção de mudas recomenda-se a utilização de substratos, bandejas de semeadura, bancadas e água de rega livres de patógenos, bem como a adoção de práticas que evitem a acumulação de humidade no ambiente de cultivo, como uma rega equilibrada e a promoção da circulação de ar em estufas.

  • Resistência Genética

Sempre que possível, devem ser selecionadas cultivares com algum nível de resistência ao míldio.

  • Espaçamento

Deve-se evitar plantações adensadas, uma vez que promovem a acumulação de humidade e dificultam a circulação de ar entre as plantas, criando um microclima favorável ao desenvolvimento do míldio.

  • Adubação equilibrada

O uso de adubação equilibrada baseada na análise de solo é fundamental para a obtenção de plantas vigorosas e mais resistentes às doenças. Níveis excessivos de azoto podem favorecer o míldio, por promoverem o desenvolvimento de tecidos mais tenros e suscetíveis à infeção. Por outro lado, níveis adequados de fósforo, potássio, cálcio e silício nas folhas podem reduzir a severidade da doença. O uso do fosfito de potássio, como fonte de fósforo e potássio, pode reduzir a severidade do míldio e ativar o sistema de defesa das plantas.

  • Rega controlada

Evitar longos períodos de molhamento foliar e acumulação de humidade no solo é essencial para o controlo da doença. Para o efeito, recomenda-se evitar regas noturnas e ao final da tarde, bem como reduzir a duração e a frequência das regas em períodos favoráveis ao desenvolvimento da doença.

  • Fontes de inóculo

Eliminar e destruir restos culturais, hospedeiros alternativos e plantas voluntárias.

  • Rotação de culturas

Com o objetivo de reduzir a presença do patógeno nas áreas de cultivo, recomenda-se a alternância de espécies, evitando o cultivo de sucessivo de brássicas.

  • Controlo das plantas infestantes

Para além de competirem por espaço, luz, água e nutrientes, as plantas infestantes dificultam a dissipação da humidade e a circulação de ar na folhagem. Além disso, algumas dessas plantas podem funcionar como hospedeiras intermediárias de diversos agentes patogénicos.

  • Produtos Fitofarmacêuticos

A utilização preventiva de produtos fitofarmacêuticos homologados para o controlo do míldio em brassicas deve cumprir rigorosamente as recomendações do fabricante quanto à dose, volume, intervalo e número de aplicações, bem como o uso de equipamentos de proteção individual, o cumprimento do intervalo de segurança e o correto encaminhamento das embalagens vazias. Para prevenir o desenvolvimento de resistência aos fungicidas, os produtos com modo de ação específico (sistémicos) devem ser utilizados de forma alternada ou em mistura com produtos de ação inespecífica (contacto).

  • Biocontrolo

Recomenda-se a utilização de produtos à base de Bacillus spp., que apresentam ação preventiva sobre o oomiceto e ativam os mecanismos de defesa da planta.

Autoria: Jesus Töfoli e Ricardo J. Domingues, Instituto Biológico – jesus.tofoli@sp.gov.br

Leia este e outros artigos na Revista Voz do Campo (edição de abril 2026).