Autoria: Ricardo Pereira Pinto → Professor adjunto convidado no Instituto Politécnico de Viana do Castelo / Subdiretor do Centro de Investigação e Desenvolvimento em Sistemas Agroalimentares e Sustentabilidade (CISAS).
A castração de leitões machos continua a ser prática corrente na suinicultura, mas está cada vez mais sob escrutínio. Entre exigências de bem-estar animal, pressão legislativa e necessidade de eficiência, o setor enfrenta um dilema claro: reduzir o risco de odor a varrasco ou maximizar o rendimento produtivo.
O chamado “odor a varrasco”, também designado, em inglês, por boar taint, resulta da acumulação de compostos na gordura, principalmente androstenona e escatol.
Quando existe acumulação excessiva destes compostos, a carne de porco liberta um odor desagradável. Este aroma é mais notório quando está a ser cozinhada, causando repugnância nos consumidores, particularmente nas mulheres, que têm uma maior sensibilidade ao cheiro da androstenona. É por isso que, historicamente, se recorre à castração dos leitões. A castração consiste na remoção cirúrgica dos testículos dos leitões, geralmente nos primeiros dias de vida, sendo hoje questionada do ponto de vista do bem-estar animal por implicar dor e stress num procedimento invasivo.
Nos últimos anos, a União Europeia tem vindo a reforçar a pressão para a redução da castração cirúrgica, sobretudo quando realizada sem controlo da dor
Embora não exista uma proibição total, há um claro incentivo à adoção de alternativas que conciliem bem-estar animal e qualidade do produto. Este enquadramento tende a ganhar maior relevância nos próximos anos, quer por via regulatória, uma vez que o número de países que legisla neste sentido tem aumentado, quer pela crescente sensibilidade do consumidor a estas questões.
INVESTIGAÇÃO EM PORTUGAL
Esta problemática foi analisada em profundidade num trabalho de doutoramento recente (Boar Taint in Entire Male’s Pork: Control Strategies, Detection Methods and Meat Quality), com particular incidência à realidade nacional, combinando dados de campo, laboratório e consumidor. Em Portugal, existe pouca investigação aplicada nesta área, sendo que este trabalho procurou explorar essa lacuna, reunindo dados sobre incidência, comportamento do consumidor e estratégias de controlo.
A indústria portuguesa (que, em muitos aspetos, é semelhante à espanhola) apresenta um cenário particular.

