Autoria: Cindy Dias e Manuela Pintado
Universidade Católica Portuguesa, CBQF – Centro de Biotecnologia e Química Fina – Laboratório Associado, Escola Superior de Biotecnologia
Desafios no armazenamento da pera ‘Rocha’: O dilema na utilização do 1-MCP
A pera ‘Rocha’ do Oeste é uma variedade de Denominação de Origem Protegida (DOP), produzida maioritariamente na região Oeste de Portugal e amplamente reconhecida pelas suas qualidades sensoriais e capacidade de conservação. Estas características contribuíram para que se tornasse um dos principais produtos agrícolas nacionais de exportação.
Atualmente, com uma produção média anual de cerca de 173 mil toneladas, este fruto é exportado para mais de 20 mercados internacionais.
A pera ‘Rocha’ é, assim, um dos produtos agrícolas mais emblemáticos de Portugal, assumindo também um papel estratégico para a economia agrícola nacional.
Para responder à elevada procura e garantir a sua disponibilidade ao longo de cerca de 10 meses, o armazenamento em frio tornou-se uma prática essencial, permitindo retardar os processos de senescência. No entanto, o frio prolongado pode induzir distúrbios fisiológicos, como o escaldão superficial e o acastanhamento interno. Durante décadas, estes problemas foram controlados com a aplicação da difenilamina (DPA), entretanto descontinuada na União Europeia por razões de segurança alimentar.
O PAPEL DO 1-MCP: SOLUÇÃO QUE PODE TORNAR-SE PROBLEMA
Mais recentemente, o 1-metilciclopropeno (1-MCP) tem sido amplamente utilizado para prolongar o armazenamento da pera ‘Rocha’, atuando ao nível da inibição do etileno, a hormona responsável pelo amadurecimento. Contudo, a utilização deste regulador revelou um efeito colateral relevante: após a saída do armazenamento em frio e seguimento para comercialização, muitos frutos apresentam dificuldade em amadurecer normalmente, permanecendo duras, sem sabor e pouco aromáticos. Este bloqueio do amadurecimento compromete a qualidade percecionada pelo consumidor e constitui uma das principais preocupações do setor.
O QUE ESTÁ POR TRÁS DESTE BLOQUEIO?
O amadurecimento da pera ‘Rocha’ é um processo complexo, regulado por uma rede de sinais fisiológicos e bioquímicos. Entre os fatores mais relevantes estão:
– Produção e perceção de etileno
– Atividade respiratória
– Alterações de cor e textura
– Metabolismo de açúcares e compostos aromáticos
Quando a ação do etileno é inibida de forma prolongada, por ação do 1-MCP, estes processos deixam de estar sincronizados, comprometendo a evolução normal do amadurecimento.
O CONTRIBUTO DA UNIVERSIDADE CATÓLICA PORTUGUESA
Perante este desafio, a Universidade Católica Portuguesa, através da Escola Superior de Biotecnologia e do seu Laboratório Associado – Centro de Biotecnologia e Química Fina, tem desenvolvido investigação aplicada orientada para o setor, focada na compreensão dos mecanismos associados ao bloqueio de amadurecimento pelo 1-MCP e na identificação de estratégias que permitam ultrapassá-lo. Esta investigação é conduzida em estreita colaboração com os Produtores de Pera Rocha da região do Oeste e com o RochaCenter, assegurando uma forte ligação entre a investigação científica e as necessidades reais do setor (…).
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