Autoria: Mafalda Alexandra Silva¹,², Tânia Gonçalves Albuquerque²,³, M. Beatriz P. P. Oliveira², Rita C. Alves², Helena Soares Costa¹,²
¹ Departamento de Alimentação e Nutrição, Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge
² LAQV-REQUIMTE, Faculdade de Farmácia da Universidade do Porto
³ Escola Superior de Hotelaria e Turismo do Estoril

Valorização de subprodutos do melão: Uma oportunidade para a sustentabilidade do setor

Estima-se que cerca de 30% dos alimentos produzidos para consumo humano sejam perdidos ao longo da cadeia de valor (United Nations Environment Programme, 2024), com impacto significativo nos recursos naturais, nos custos de produção e na sustentabilidade global. Para além disso, a sua deposição em aterros contribui para a emissão de gases com efeito de estufa, e pode afetar a segurança alimentar e o custo dos alimentos. Neste contexto, a redução das perdas e do desperdício alimentar constitui um dos maiores desafios dos sistemas alimentares atuais.

IMPORTÂNCIA ECONÓMICA E NUTRICIONAL DO MELÃO FARINHA DE CASCA

O melão (Cucumis melo L.) é uma cultura com elevada importância económica em Portugal, particularmente em regiões como o Ribatejo e o Alentejo. Pertencente à família Cucurbitaceae, que inclui espécies como a abóbora, a melancia e o pepino, o melão apresenta uma produção expressiva na Europa, que atingiu 2,1 milhões de toneladas em 2024. Portugal ocupa o quinto lugar entre os principais produtores europeus, com aproximadamente 73 mil toneladas, atrás de países como Itália, Espanha e França (FAOSTAT, 2026).

Para além das suas qualidades sensoriais, o melão destaca-se pelo seu valor nutricional, sendo rico em fibra alimentar, minerais e compostos bioativos (Silva et al., 2020). No entanto, uma fração considerável da produção é rejeitada na fase de pós-colheita por não cumprir critérios comerciais relacionados com o aspeto e/ou calibre, o que levanta desafios ao nível da gestão das perdas ao longo da cadeia produtiva e da sustentabilidade do setor. Estes frutos, embora frequentemente excluídos do circuito comercial, mantêm o seu valor nutricional, o que evidencia o seu elevado potencial de valorização.

VALORIZAÇÃO DO MELÃO REJEITADO E SEUS SUBPRODUTOS

Figura 1. Subproduto do melão

Figura 1. Subproduto do melão A valorização do melão rejeitado surge, assim, como uma estratégia promissora para reduzir perdas e gerar valor ao longo da cadeia. A sua transformação em produtos como sumos, compotas ou polpas é já uma prática conhecida, mas os subprodutos gerados, como as cascas e sementes, continuam, em grande parte, subaproveitados (Figura 1).

FARINHA DE CASCA DE MELÃO: UMA SOLUÇÃO INOVADORA

Estudos recentes demonstraram que a casca de melão pode ser transformada em farinha e posteriormente incorporada em produtos de panificação (Figura 2). Por exemplo, a sua aplicação no desenvolvimento de bolachas e muffins, com substituições parciais (50%) e totais (100%) da farinha de trigo (Figura 3) revelou-se tecnicamente viável. Os produtos desenvolvidos apresentaram um maior teor de fibra, podendo ser classificados como “ricos em fibra”, e contribuindo de forma relevante para as necessidades diárias recomendadas. A incorporação desta farinha promoveu também um aumento do teor de compostos fenólicos e da atividade antioxidante dos produtos, reforçando o seu interesse do ponto de vista funcional e os seus potenciais benefícios para a saúde (Silva et al., 2024). De igual forma, observou-se um aumento significativo no teor de minerais essenciais, destacando-se o magnésio, fósforo, molibdénio e manganês, contribuindo de forma relevante para a ingestão diária recomendada destes nutrientes (Silva et al., 2025). A farinha de casca de melão apresentou, ainda, quantidades relevantes de aminoácidos essenciais e não essenciais, contribuindo a sua incorporação para o enriquecimento proteico dos produtos (…).

→ Leia este e outros artigos, na Revista Voz do Campo  edição de maio 2026, disponível no formato impresso e digital.