O setor português dos frutos secos está a despertar cada vez mais o interesse dos investidores internacionais. A convicção foi deixada esta terça-feira por Hugh Macfarlane, CEO da Demeter, durante a sua intervenção no V Congresso da Portugal Nuts, em Évora, onde apresentou uma análise sobre o posicionamento de Portugal no mercado global da amêndoa e o papel da informação na atração de capital para a agricultura.

Com um discurso centrado na perspetiva financeira e estratégica do setor, o responsável britânico considerou que Portugal vive atualmente uma fase particularmente favorável para consolidar a sua posição enquanto origem diferenciada na produção europeia de frutos secos. “Há um enorme volume de capital global muito entusiasmado com o que está a acontecer aqui e que quer investir”, afirma.
Hugh Macfarlane começou por recordar a ligação que mantém com Portugal há quase uma década, período durante o qual acompanhou de perto a evolução do setor agrícola nacional. “A oportunidade continua a ser muito elevada”, refere, destacando que o seu primeiro investimento agrícola no país aconteceu precisamente em Évora.
Portugal visto como mercado “simples” e atrativo para investidores
Ao analisar a estrutura do mercado português da amêndoa, o CEO da Demeter considerou que Portugal apresenta uma vantagem competitiva importante face a outros grandes produtores internacionais: a simplicidade do mercado. Segundo explicou, as exportações portuguesas concentram-se essencialmente em poucos mercados europeus, permitindo maior previsibilidade comercial e facilidade de análise para investidores internacionais. “Se compreendermos três ou quatro mercados europeus, percebemos o que está a acontecer no setor em Portugal”, sustenta.
Na ótica do investidor, esta concentração representa uma vantagem relevante quando comparada com geografias mais complexas, como a Califórnia, onde as dinâmicas comerciais dependem simultaneamente de múltiplos mercados globais. O responsável considera ainda que o potencial de crescimento permanece significativo, mesmo dentro do atual espaço europeu. “Ainda existe uma enorme margem de crescimento apenas dentro de um número relativamente reduzido de mercados europeus”, afirma.
Crescimento da transformação industrial reforça valor acrescentado
Durante a apresentação, Hugh Macfarlane destaca também a evolução da capacidade industrial instalada em Portugal, nomeadamente ao nível do processamento e descasque da amêndoa. Segundo o mesmo, a entrada em funcionamento de unidades de transformação nacionais permitiu alterar o perfil das exportações portuguesas, reduzindo a dependência da exportação indireta através de Espanha. “Estamos ainda nas fases iniciais da oportunidade de mercado além da produção primária”, observa.
O responsável sublinha que continua a existir margem para captar mais valor dentro da cadeia, apontando diferenças relevantes entre os volumes exportados e o valor efetivamente retido em Portugal.
Produção irrigada continua em crescimento
Um dos aspetos mais valorizados pelo CEO da Demeter foi o forte crescimento do amendoal de regadio em Portugal. Com recurso a mapas e indicadores climáticos, Hugh Macfarlane mostrou que a maioria das plantações irrigadas portuguesas ainda não atingiu a maturidade produtiva, o que significa que a produção continuará a aumentar nos próximos anos, mesmo sem expansão significativa da área plantada.
“A maior parte da produção irrigada ainda está em crescimento”, explica aos presentes. Segundo os dados apresentados, apenas cerca de 30% do amendoal irrigado em Portugal se encontra atualmente em fase madura de produção.
Alterações climáticas colocam novos desafios
A intervenção dedicou também uma parte significativa à análise climática aplicada à produção agrícola, área onde a Demeter desenvolve modelos de análise de risco e previsão para investidores e seguradoras.
Hugh Macfarlane alerta para o aumento das temperaturas e para a crescente irregularidade da precipitação em Portugal. “Está a ficar muito mais quente no verão”, afirma. Segundo os dados apresentados, os episódios de precipitação intensa tornaram-se mais frequentes nos últimos anos, sobretudo entre fevereiro e maio, criando maiores desafios operacionais para os produtores. Apesar disso, o responsável considera que Portugal continua relativamente bem posicionado face a outros concorrentes internacionais, nomeadamente Espanha e Califórnia.
No caso do risco de geadas, por exemplo, o CEO da Demeter entende que o impacto é mais controlável através da escolha varietal e da localização dos pomares. “A geada não é um risco que me preocupe particularmente enquanto investidor”, refere.
Já ao nível da água, o cenário é mais complexo. Embora a disponibilidade hídrica no inverno continue relativamente estável, o aumento do stress térmico deverá elevar estruturalmente a procura de água no futuro.
“A oferta de água mantém-se relativamente estável, mas a procura está a aumentar”, alerta.
Informação e transparência como ferramentas para atrair capital
Ao longo da intervenção, Hugh Macfarlane insistiu várias vezes na importância da informação e da transparência para facilitar o financiamento da agricultura. Nesse sentido, explica que a Demeter foi criada precisamente para recolher e organizar dados que permitam aos investidores compreender melhor o setor agrícola e reduzir a perceção de risco.
“Os problemas de crédito, seguros e risco são, fundamentalmente, problemas de informação”, argumenta.
O responsável apresentou ainda novos índices de monitorização agrícola desenvolvidos pela empresa para Portugal e Espanha, ferramentas que pretendem ajudar investidores, seguradoras e agentes financeiros a acompanhar a evolução produtiva das diferentes regiões. “Quanto mais transparente for a indústria, mais fácil será fazer o capital fluir”, afirma.
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