Preconceitos que urgem ser esclarecidos
Como gerir a validade dos alimentos em casa?
OPINIÃO DE GRAÇA MARIANO
DIRETORA EXECUTIVA DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DOS INDUSTRIAIS DE CARNE
Tanto se escreve, tanto se diz sobre alimentação!
Nunca houve tanta informação disponível, tantos conselhos, tantas tendências, tantos alertas. E, no entanto, persistimos escolhas alimentares pouco equilibradas e em práticas na cozinha que, além de desadequadas, conduzem diariamente a um desperdício alimentar evitável.
Ouvimos frequentemente o apelo ao combate dos chamados “produtos processados”. Mas afinal, o que significa verdadeiramente essa expressão?
Não processamos nós os alimentos em casa? Ou o processamento doméstico não conta? Cozinhar, assar, conservar, congelar — não serão também formas de transformação alimentar?
É certo que consumimos alguns alimentos crus, influência crescente de hábitos gastronómicos oriundos de outras culturas, como as asiáticas, hoje amplamente integradas no nosso quotidiano. Ainda assim, a confeção dos alimentos continua a ser uma prática ancestral e profundamente humana.
Há milhares de anos, o domínio do fogo transformou a alimentação e, com ela, a própria humanidade. O tratamento térmico dos alimentos trouxe vantagens incontornáveis: maior segurança dos alimentos, melhor digestibilidade e um aproveitamento energético muito superior. Os alimentos cozinhados tornaram-se mais macios, exigindo menos esforço na mastigação e digestão. O calor passou também a facilitar a absorção de nutrientes, quebrando estruturas químicas e tornando proteínas e calorias mais disponíveis ao organismo. Muitos cientistas defendem, inclusivamente, que esta maior disponibilidade energética contribuiu decisivamente para o desenvolvimento do cérebro humano.
Todavia, na atualidade, a velocidade com que circula a (des)informação leva-nos muitas vezes a aceitar conceitos contraditórios sem nos questionarmos. Queremos alimentos disponíveis durante todo o ano, vindos dos mais diversos pontos do planeta, mas recusamos os processos de conservação, preparação e transformação que tornam essa realidade possível.
Como sabiamente diziam os antigos, não se pode “ter sol na eira e chuva no nabal”.
Importa, por isso, recuperar algum bom senso e procurar fontes de conhecimento credíveis e fundamentadas
Portugal possui uma extraordinária riqueza alimentar, fruto da diversidade dos seus ingredientes e da simplicidade engenhosa das suas técnicas culinárias. Porém, a evolução da cultura gastronómica trouxe também preconceitos e mitos sem sustentação científica, técnica ou legal, muitas vezes alicerçados apenas por perceções sensoriais ou modas passageiras.
Convém recordar que toda a produção e comercialização alimentar em Portugal obedece a rigorosas normas europeias de higiene e segurança, sendo a carne, entre todos os alimentos, um dos produtos mais controlados.
Vivemos rodeados de uma preocupante “iliteracia alimentar”. Torna-se, assim, essencial esclarecer ideias erradas, promover escolhas conscientes e incentivar práticas que reduzam o desperdício alimentar.
Nesta perspetiva, importa deixar algumas notas simples, mas relevantes, sobre boas práticas alimentares e sobre a importância de uma dieta equilibrada e omnívora.

Comecemos pela congelação e descongelação:
- Podemos congelar alimentos em casa?
Sim, desde que sejam devidamente acondicionados e identificados, preferencialmente com a data de congelação, facilitando uma gestão mais segura do consumo. - Como devemos descongelar alimentos?
Ao contrário da congelação, a descongelação deve ocorrer lentamente. O ideal é retirar os alimentos do congelador e deixá-los descongelar no frigorífico, nunca à temperatura ambiente. - Como devemos arrefecer alimentos cozinhados?
Os alimentos não devem permanecer longos períodos à temperatura ambiente. Devem ser colocados no frio o mais rapidamente possível, preferencialmente isolados nas prateleiras do frigorífico, evitando o aumento da temperatura dos restantes alimentos já refrigerados. - É possível prolongar a validade de produtos congelados?
Sim, desde que o alimento mantenha boas características sensoriais e não apresente sinais de desidratação ou rancificação. Em determinadas condições, essa prática pode inclusivamente ocorrer na comercialização, desde que o consumidor seja devidamente informado. - Podemos consumir alimentos fora de prazo?
Nem todos os prazos de validade têm o mesmo significado. Produtos rotulados com a expressão: “Consumir até”, não devem ser ingeridos após a data expirada, por razões de segurança dos alimentos.
Já os produtos com a indicação na rotulagem: “Consumir de preferência antes de” podem, em muitos casos, continuar aptos para consumo durante algum tempo após o prazo expirado, desde que mantenham boas condições de salubridade.
- Pode-se refrigerar e voltar a aquecer alimentos?
Sim, mas o reaquecimento deve ocorrer apenas na quantidade a consumir, evitando aquecer o mesmo alimento mais do que uma vez.
Muito mais haveria para dizer sobre alimentação, conservação e literacia alimentar. Mas ficará para uma próxima oportunidade.
Até lá, façamos escolhas mais conscientes, valorizemos o conhecimento fundamentado e adotemos boas práticas nas nossas casas — porque alimentar-se bem é também um ato de cultura, responsabilidade e respeito pelos alimentos.
→ Leia este e outros artigos completos na Revista Voz do Campo, edição de junho 2026.

