Autoria: García-Díez, J.1,2,3,*, Moura, D.4, Saraiva, C.1,2,3, Silva, F.1,2,3., Saraiva, S.1,2,3
1Animal and Veterinary Research Centre (CECAV),
2Associate Laboratory for Animal and Veterinary Sciences (AL4AnimalS),
3Department of Veterinary Sciences, School of Agricultural and Veterinary Sciences, University of Trás-os-Montes and Alto Douro (UTAD), 5000-801 Vila Real, Portugal.
4Divisão de Intervenção de Alimentação e Veterinária de Vila Real e Douro Sul, Direção de Serviços de Alimentação e Veterinária da Região Norte, Direção Geral de Alimentação e Veterinária, Lugar de Codessais, 5000-421 Vila Real, Portugal.
*Autor correspondente: juangarciadiez@utad.pt
A febre Q é uma zoonose de distribuição cosmopolita causada pela bactéria gram-negativa intracelular obrigatória Coxiella burnetii. Embora infete uma ampla variedade de hospedeiros, os ruminantes domésticos (ovelhas, cabras e bovinos) constituem o principal reservatório de infeção para o ser humano.
Em medicina veterinária, a doença está predominantemente associada a falhas reprodutivas, incluindo abortos no último terço da gestação, nascimento de crias debilitadas e endometrite (Ullah et al., 2022).
Coxiella burnetii é um agente patogénico singular devido ao seu bifasismo morfológico e funcional. Apresenta uma variante de célula grande (LCV – large cell variant), metabolicamente ativa no fagossoma ácido do hospedeiro, e uma variante de célula pequena (SCV – small cell variant), que funciona como uma forma de resistência pseudoesporulada. Esta última é capaz de sobreviver durante meses no solo e de ser transportada por aerossóis a distâncias superiores a 5 km, o que explica a ocorrência de surtos em zonas urbanas sem contacto direto com gado (Marrie, 2024).
A infeção em animais ocorre principalmente por inalação de poeiras contaminadas ou por ingestão de fômites
Após a entrada no organismo, a bactéria é fagocitada por macrófagos alveolares, onde sobrevive e se replica no interior de vacúolos parasitóforos com um pH aproximado de 4,5 a 5,0. Em fêmeas gestantes, C. burnetii apresenta um tropismo marcado pelo trofoblasto placentário. A replicação maciça neste tecido compromete a nutrição fetal e desencadeia uma resposta inflamatória granulomatosa. A excreção bacteriana atinge o seu pico durante o parto ou aborto; estima-se que uma única placenta de uma ovelha infetada possa libertar até 107 doses infeciosas por grama de tecido (Lang, 2024).
EPIDEMIOLOGIA
Coxiella burnetii carateriza-se por presentar um tropismo acentuado pelo útero gravídico. Os bovinos, ovinos e caprinos são os principais reservatórios domésticos, e a infeção é endémica em muitas regiões do mundo. A transmissão dentro e entre rebanhos ocorre principalmente pela inalação de aerossóis ou poeiras contaminados gerados pelas placentas, fluidos do parto, secreções vaginais, fezes e, em menor grau, leite (Rizzo et al., 2016).
A importância epidemiológica do parto é fundamental
A carga bacteriana é maior em torno dos abortos ou partos, o que explica que as épocas de partos sejam períodos de elevado risco para a exposição animal e humana. A presença de carraças contribui para a epidemiologia da febre Q atuando como reservatórios naturais e vetores da Coxiella burnetii, mantendo a bactéria em ciclos na vida selvagem. Embora muitas espécies de carraças possam albergar o agente patogénico, a transmissão por carraças é considerada epidemiologicamente menos importante do que a exposição por aerossóis provenientes de ruminantes infetados em ambientes domésticos (Korner et al., 2021). A nível populacional, a prevalência é altamente variável, uma vez que as estimativas dependem da espécie, do sistema de produção, da geografia, do tipo de amostra e do método de diagnóstico.
Sintomatologia
Na maioria dos casos, a infeção em ruminantes é subclínica ou assintomática, o que dificulta a sua deteção precoce. Contudo, em pequenos ruminantes (ovelhas e cabras), constitui uma das principais causas de “tempestades de abortos”. No gado bovino, a apresentação tende a ser mais insidiosa. Para além dos abortos, podem apresentar-se outros sinais clínicos como retenção de membranas fetais, mastite subclínica com excreção intermitente do agente patogénico através do leite ou Infertilidade persistente e repetição de cio (Edmondson & Shipley, 2020, Troedsson et al., 2024).
Diagnóstico
O diagnóstico baseado exclusivamente na sintomatologia é insuficiente. Os protocolos de referência atualmente recomendados incluem: i) PCR em tempo real (qPCR): é o método de eleição para a deteção de ADN bacteriano em placentas, exsudados vaginais, leite e fezes e ii) serologia (ELISA): técnica preferencial para estudos de prevalência ao nível do efetivo. Permite a deteção de anticorpos contra antigénios de Fase I (associados a infeção crónica/persistente) e de Fase II (associados a infeção aguda) (Anderson et al., 2015).
TRATAMENTO E MEDIDAS DE CONTROLO
O controlo da febre Q (Figura 1) exige uma abordagem multifatorial. A utilização de antibióticos (principalmente oxitetraciclina) durante um surto de abortos pode reduzir a carga bacteriana, mas não elimina o estado de portador nem interrompe completamente a excreção do agente (Mobini, 2007).

A medida profilática mais eficaz é a vacinação com vacinas inativadas de Fase I (e. g. Coxevac®, única vacina comercial disponível em Portugal). Ao contrário das vacinas de Fase II, estas demonstraram reduzir significativamente a excreção bacteriana no leite e nos fluidos uterinos, protegendo tanto a produtividade do efetivo como a saúde dos trabalhadores. As medidas de biossegurança, incluindo a gestão rigorosa do estrume e a desinfeção dos locais de parto com peróxido de hidrogénio ou soluções cloradas, são essenciais para mitigar a persistência ambiental do agente. Ainda, a implementação de profilaxia antiparasitária é importante na prevenção da febre Q (Mori & Roest, 2018, Rahaman et al., 2021).
EPIDEMIOLOGIA E ASPETOS ZOONÓTICOS
A Febre Q, causada pela bactéria intracelular Coxiella burnetii, representa uma das zoonoses sob vigilância intensiva mais relevantes na Europa, devido à sua elevada infeciosidade e à sua persistência ambiental (Christodoulou et al., 2023). A apresentação clínica desta doença pode assumir duas formas: aguda e crónica. A febre Q aguda manifesta-se predominantemente como um síndrome febril inespecífica (cerca de 70% dos casos) ou como pneumonia atípica (aproximadamente 20%). Ao contrário do observado noutros países europeus, a afeção hepática (hepatite granulomatosa) é relativamente frequente nos casos reportados no sul de Portugal (Marrie, 2024).
No caso da febre Q crónica, esta caracteriza-se sobretudo como causa de endocardite com hemoculturas negativas, afetando predominantemente doentes com valvulopatias prévias ou portadores de próteses vasculares (Raoult et al., 2024).
A febre Q é tradicionalmente considerada uma doença profissional, afetando sobretudo médicos veterinários, pastores e trabalhadores de matadouros (Moreira et al., 2024)
O perfil epidemiológico predominante é o de indivíduos do sexo masculino, com uma razão aproximada de 3:1 em relação ao sexo feminino, e uma idade média de cerca de 48 anos, refletindo maior exposição em atividades laborais ou recreativas ao ar livre. Embora menos frequentes, existem também casos pediátricos descritos. Contudo, os relatórios mais recentes sugerem a emergência de um perfil epidemiológico distinto, no qual a infeção está associada a exposição ambiental indireta. Têm sido descritos casos em residentes de áreas suburbanas próximas de rotas de transumância ou de explorações pecuárias intensivas, onde o agente patogénico pode ser transportado pelo vento em partículas de poeira contaminada.
Adicionalmente, o consumo de leite cru e de queijos frescos artesanais sem tratamento térmico adequado mantém-se como uma via de transmissão secundária (Miller et al., 2021, Pustahija et al., 2024)
No contexto europeu, a epidemiologia da doença é marcada por forte heterogeneidade geográfica, com áreas endémicas, surtos localizados e diferenças importantes na sensibilidade dos sistemas de vigilância. Uma revisão recente mostrou que os maiores números de casos confirmados na União Europeia (Figura 2 e 3) se concentraram sobretudo nos Países Baixos, França e Alemanha em vários períodos de vigilância, refletindo a interação entre densidade pecuária, proximidade a áreas povoadas e capacidade diagnóstica (Christodoulou et al., 2023).
O exemplo epidemiológico mais marcante continua a ser o dos Países Baixos, onde ocorreu entre 2007 e 2010 o maior surto de febre Q descrito mundialmente, com 4026 casos humanos notificados. Esse episódio esteve fortemente associado à produção intensiva de cabras leiteiras e levou à implementação de medidas de controlo rigorosas, incluindo vacinação animal, restrições sanitárias e abate seletivo, demonstrando a importância de uma abordagem integrada entre saúde animal e saúde pública (Schneeberger et al., 2014).
NOUTRAS REGIÕES EUROPEIAS, A FEBRE Q MANTÉM-SE ENDÉMICA, EMBORA FREQUENTEMENTE SUBDIAGNOSTICADA
No sudeste da Europa, um estudo multicêntrico com dados de 2002–2021 identificou 2714 casos confirmados em seis países, com manutenção endémica da doença, marcada desigualdade espacial e predomínio de casos na população adulta em idade ativa, sobretudo na primavera (Pustahija et al., 2024). Na Suíça, dados combinando ruminantes e humanos mostraram seroprevalência de rebanho de 5,0% em ovinos e 11,1% em caprinos, com evidência adicional de excreção bacteriana em amostras de aborto; nos humanos, a seroprevalência laboratorial variou entre 1,7% e 3,5% entre 2007 e 2011, sugerindo circulação persistente do agente (Magouras et al., 2015). Em conjunto, estes dados confirmam que a febre Q continua a ser um problema relevante na Europa, exigindo vigilância robusta, controlo nas explorações e integração efetiva numa perspetiva Uma Só Saúde (Pustahija et al., 2024)
EPIDEMIOLOGIA DA FEBRE Q NA PENÍNSULA IBÉRICA NO CONTEXTO DO ONE HEALTH
A Península Ibérica constitui uma das regiões da União Europeia com maior número de casos notificados de febre Q. Em Portugal, a febre Q apresenta uma taxa de incidência oficial que oscila entre 0,2 e 0,5 casos por 100.000 habitantes no período 2021–2025. Contudo, existe um consenso científico sólido quanto à existência de um subdiagnóstico significativo, atribuível tanto à inespecificidade clínica das formas agudas como à limitada suspeita diagnóstica (Monteiro et al., 2021).

– Em Portugal, os principais focos regionais concentram-se no Alentejo e na região Centro, áreas caracterizadas por elevada produção ovina e caprina. Neste contexto, a doença tem vindo a evoluir de um risco estritamente ocupacional para um padrão de exposição ambiental mais abrangente, incluindo também possíveis vias alimentares. Um dos achados mais relevantes da investigação recente em Portugal é a elevada vulnerabilidade dos médicos veterinários. Um estudo transversal de grande escala concluído em 2025 revelou uma seroprevalência de 33,7% de anticorpos IgG contra Coxiella burnetii em veterinários, em comparação com 17,4% observados numa população geral emparelhada por idade e sexo (Moreira et al., 2025) Estes resultados indicam que o risco entre veterinários clínicos de campo é aproximadamente o dobro do observado na população urbana. Os principais fatores de risco identificados incluíram a ausência de utilização sistemática de luvas durante a assistência a partos e o contacto direto com placentas, particularmente na região Norte do país.
– Em Espanha, país com o maior número absoluto de casos notificados na região ibérica, os dados oficiais indicaram uma tendência ascendente sustentada nos últimos anos, passando de 240 casos em 2021 para 544 em 2024. As áreas de maior incidência incluem as Ilhas Canárias, a Andaluzia e a faixa cantábrica (País Basco, Navarra e La Rioja) (Miyar et al., 2025).
– A nível europeu, a sazonalidade constitui um fator determinante, com picos entre março e agosto, coincidindo com a época de parição dos pequenos ruminantes. No Reino Unido, para além dos casos associados à exposição profissional, as autoridades de saúde pública descreveram surtos imprevisíveis relacionados com a transmissão a longa distância por aerossóis, incluindo casos de endocardite crónica em contextos não ocupacionais no sudoeste de Inglaterra. Estes achados reforçam o papel predominante da transmissão aerógena (UKgov, 2025).
O PROGRESSO NO CONTROLO DESTA ZOONOSE DEPENDE DA INTEGRAÇÃO EFICAZ DE DADOS ENTRE A SAÚDE ANIMAL E A SAÚDE HUMANA, SEGUNDO A ABORDAGEM ONE HEALTH.
Em Portugal, a colaboração entre a Direção-Geral de Alimentação e Veterinária (DGAV) e a Direção-Geral da Saúde (DGS) tem sido fundamental para identificar clusters humanos associados a infeções em efetivos pecuários. Neste sentido, o reforço das medidas de biossegurança, nomeadamente o uso adequado de equipamentos de proteção individual, e a sensibilização pública para os riscos associados ao consumo de produtos lácteos não pasteurizados constituem pilares essenciais.
EVOLUÇÃO DOS CASOS NOTIFICADOS EM PORTUGAL (2000–2016)
Entre 2000 e 2016, de acordo com os dados públicos do sistema nacional de vigilância epidemiológica (SINAVE), Portugal notificou um número baixo, mas persistente de casos, com oscilações interanuais. Registou-se um máximo precoce em 2001 (19 casos), seguido de um decréscimo até um mínimo relativo em 2004–2005 (6 casos por ano). Entre 2006 e 2010, a incidência estabilizou em torno de 10–14 casos anuais. Posteriormente, entre 2012 e 2015, observaram-se picos relevantes (26 casos em 2012 e 2015) (DGS, 2015, 2017). Desde 2018 não existem dados públicos detalhados de incidência nacional por ano. Segundo os relatórios europeus da EFSA (embora não sejam publicadas cifras discriminadas por país) entre 2022 e 2023 os casos declarados na Europa aumentaram aproximadamente 11,5%. (EFSA, 2024).
Vias de transmissão e padrões epidemiológicos
Do ponto de vista clínico e epidemiológico, os dados recolhidos na bibliografia publicada tanto em Portugal como em Espanha, evidenciam um amplo espectro de apresentação clínica. De acordo com a maioria das publicações, a principal via de infeção em humanos é a aerógena, através da inalação de aerossóis ou poeiras contaminadas, geralmente associadas a ruminantes (ovelhas, cabras e bovinos) e ao seu ambiente. Outras vias, como o consumo de produtos lácteos não pasteurizados, a inoculação por artrópodes (carraças), ou ou transfusional, são infrequentes e raramente demonstradas de forma conclusiva (Mekonnen, 2020).
Evidência clínica em Portugal
Em Portugal, a literatura clínica é limitada, mas elucidativa. O estudo efetuado por Palmela et al. (2012) descreveu 32 doentes hospitalizados com febre Q aguda, predominantemente homens em idade ativa, concentrados no distrito de Lisboa. Neste estudo, os autores salientam que a exposição não se restringiu às profissões clássicas de risco; muitos doentes referiram atividades recreativas no meio rural ou contacto ocasional com animais. A hipótese mais provável foi a exposição a aerossóis em contextos rurais ou periurbanos associados a ruminantes. O consumo de produtos lácteos não pasteurizados foi pouco frequente, e nenhum doente reportou contacto com animais durante o parto.
Casos clínicos adicionais e fatores de risco
No caso do estudo publicado por Alves et al. (2017) analisaram-se sete casos de febre Q hospitalizados entre 2014 e 2015, todos com envolvimento hepático. Todos os doentes apresentavam antecedentes epidemiológicos compatíveis com exposição a ruminantes. Foram documentadas exposições de alto risco, como trabalho em matadouro e contacto com um aborto ovino. Nenhum doente referiu consumo de produtos lácteos não pasteurizados, reforçando novamente a via aerógena como principal mecanismo de transmissão.
Já o caso descrito por Godinho et al. (2015) corresponde a um recetor de transplante renal com febre persistente, no qual se colocou como hipótese epidemiológica a exposição a um gato doméstico, na ausência de outros fatores de risco identificáveis. Este caso ilustra que os animais de companhia podem atuar como potenciais veículos de infeção, embora o seu papel seja secundário relativamente ao dos ruminantes.
SITUAÇÃO EPIDEMIOLÓGICA EM ESPANHA
Em Espanha, os perfis epidemiológicos publicados incluem: i) séries clínicas urbanas com elevada proporção de doentes sem contacto animal declarado; ii) casos individuais com exposições não clássicas, como o descrito por Peña-Irún et al., (2012) no qual um biólogo com exposição a roedores silvestres e picadas de carraças desenvolveu febre Q sem contacto com gado; e iii) surtos ocupacionais com confirmação ambiental, como o relatado por Alonso et al. em trabalhadores de uma unidade de triagem de resíduos, onde a fonte provável foram restos animais contaminados e a transmissão ocorreu por poeiras em suspensão.
CONCLUSÃO
A principal fonte de infeção por febre Q em humanos é a inalação de aerossóis contaminados provenientes de ruminantes e do seu ambiente. Este risco aumenta em contextos ocupacionais (matadouros, prática veterinária, gestão de resíduos), durante estadias em zonas rurais ou periurbanas e na época de partos. Embora menos frequentes, devem igualmente ser consideradas outras vias, como a transmissão alimentar, a participação de artrópodes ou a exposição a animais de companhia (Anastásio et al., 2022).
Os estudos portugueses indicam que a doença se apresenta predominantemente sob a forma aguda, frequentemente com envolvimento hepático, associada à proximidade a ruminantes ou a ambientes rurais
Portugal pode ser considerado uma região de endemicidade moderada-alta no contexto europeu. A elevada seroprevalência observada em veterinários sublinha a necessidade de protocolos rigorosos de proteção individual. Dado que C. burnetii circula em efetivos pecuários e em fauna silvestre, a erradicação é improvável; assim, a estratégia nacional deverá centrar-se na vacinação estratégica de rebanhos, no controlo reprodutivo, no reforço da biossegurança e no fortalecimento do diagnóstico precoce em humanos, de forma a prevenir a progressão para formas crónicas, como a endocardite (Cruz et al., 2019, Rahaman et al., 2019).
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Bibliografia: https://qr1.me-qr.com/pt/text/nx6ulefj



