PÓLO DE INOVAÇÃO DE MIRANDELA
Living lab da bioeconomia mediterrânica
O Open Day VALMEDALM, realizado em Mirandela no passado dia 18 de maio, foi simultaneamente, um momento de encerramento e uma demonstração pública do que foi construído no terreno, ao serviço da agricultura mediterrânica, da valorização do conhecimento e da resposta concreta aos desafios que hoje se colocam aos sistemas agrícolas em contexto de alterações climáticas, escassez de recursos e exigência crescente de competitividade.
A iniciativa juntou investigadores, técnicos, agricultores, empresas e entidades parceiras num espaço de partilha onde a ciência saiu do laboratório para se afirmar em ambiente real, com demonstração, discussão e observação direta dos resultados obtidos. No centro deste percurso está o VALMEDALM, um projeto Europeu coordenado pelo MORE – Laboratório Colaborativo Montanhas de Investigação (MORE CoLAB), financiado por entidades de Portugal, Itália, Croácia, Israel e Marrocos, o qual procurou demonstrar que o amendoal pode integrar sistemas mais resilientes e eficientes através de modelos de produção sustentável, como o intercropping, e outras práticas agroecológicas que reforcem a saúde do solo, a diversificação produtiva e a sustentabilidade económica das explorações.
DA INVESTIGAÇÃO À APLICAÇÃO PRÁTICA
A sessão da manhã permitiu apresentar experiências e resultados de vários projetos complementares, mas também sublinhar uma ideia essencial: a inovação agrícola não se esgota na produção de conhecimento; ganha valor quando é testada, ajustada e apropriada por quem trabalha a terra e transforma a produção em valor económico e territorial.
A tarde reforçou essa lógica através de uma sessão demonstradora no Pólo de Inovação Agrícola de Mirandela, onde diferentes tecnologias e práticas agroecológicas foram observadas no terreno. Esta componente prática foi decisiva para dar corpo ao conceito de “living lab” — Laboratório Vivo –, um espaço de cocriação e experimentação em que investigadores, agricultores, associações e empresas trabalham em conjunto. O território deixa de ser mero destino da transferência de resultados para se tornar lugar de validação, aprendizagem e construção de novas respostas.
O papel estratégico do Pólo de Inovação de Mirandela
É precisamente nesse contexto que o Pólo de Inovação de Mirandela, através da estrutura promovida pela Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Norte (CCDR-N) e da articulação com o MORE CoLAB e o Instituto Politécnico de Bragança (IPB), assume relevância estratégica, sendo que a sua função vai muito além da simples instalação de ensaios. O que aqui se consolidou foi uma rede de demonstração experimental que integra projetos de investigação e inovação com tradução direta em produtos, processos e serviços com potencial de aplicação real.
BioLivingLABS e a criação de uma rede nacional de experimentação
É neste enquadramento que surge também o BioLivingLABS, projeto nacional financiado pelo COMPETE 2030, coordenado pelo MORE CoLAB, que está a estruturar uma rede de “living labs” em Mirandela, Ervedosa do Douro, Covilhã e Elvas, aproveitando as infraestruturas dos polos de inovação agrícola aí instalados, com o objetivo de valorizar economicamente os resultados de investigação e desenvolvimento, reforçar a transferência de conhecimento e acelerar a demonstração e aplicação de soluções inovadoras nos territórios de baixa densidade.
NESTE ECOSSISTEMA, O MORE COLAB É UM PILAR CENTRAL
A sua atuação tem permitido articular parceiros locais, regionais, nacionais e internacionais em torno de desafios concretos, promovendo soluções orientadas para a sustentabilidade, a eficiência no uso dos recursos e a valorização das cadeias de valor mediterrânicas. Esta capacidade de coordenação é particularmente relevante num território onde a agricultura depende cada vez mais de abordagens adaptadas às condições edafoclimáticas e fenómenos meteorológicos extremos, à necessidade de melhor gerir os recursos hídricos e fatores de produção, assegurando a rentabilidade da produção sem comprometer a biodiversidade e a sustentabilidade ambiental.
O valor deste modelo está também na diversidade dos temas que nele convergem
No mesmo espaço convivem soluções de proteção de culturas e melhoramento, práticas agroecológicas inovadoras para a sustentabilidade e plataformas digitais ao serviço da agricultura de precisão e da monitorização. Essa diversidade mostra que a bioeconomia regional não depende de uma única resposta, mas da capacidade de integrar diferentes níveis de inovação — da produção à transformação, englobando toda a cadeia de valor. O Open Day evidenciou precisamente essa maturidade: um ecossistema em que vários projetos se cruzam, se complementam e se reforçam mutuamente.
Cooperação internacional e redes de inovação
A presença de iniciativas enquadradas em programas PRIMA, HORIZON EUROPA, INTERREG-SUDOE, Portugal2030 e La Caixa confirma que o Pólo de Inovação de Mirandela não é apenas um ponto de convergência de conhecimento e inovação regional, mas um nó ativo de uma rede mais ampla de cooperação científica e tecnológica além-fronteiras. Os projetos VALMEDALM, FORECAST, PROSPER, SIAMESE, entre outros, ilustram bem esta convergência entre objetivos distintos e uma mesma ambição: encontrar soluções sustentáveis para sistemas agrícolas mediterrânicos, com especial atenção à adaptação às alterações climáticas, ao reforço da biodiversidade funcional e à melhoria da eficiência dos sistemas produtivos.
UM LABORATÓRIO VIVO PARA O FUTURO DO INTERIOR
O Open Day VALMEDALM deixou, por isso, uma mensagem clara: o interior pode ser um laboratório vivo de inovação agrícola, desde que exista visão estratégica, cooperação institucional e capacidade de trabalho em rede. Em Mirandela, essa condição está hoje mais sólida. O que se construiu aqui não foi apenas um conjunto de ensaios demonstradores; foi uma base operacional para continuar a testar soluções, envolver novos parceiros e responder a problemas reais com conheci- mento aplicado. O Living Lab com sede no Pólo de Inovação de Mirandela é uma resposta concreta a esse contexto: ciência, território e setor produtivo a trabalhar sobre os mesmos problemas, ao mesmo tempo.
O evento final do VALMEDALM encerrou uma etapa, mas abriu caminho para o futuro da sustentabilidade. A partir daqui o trabalho é aprofundar esta dinâmica, ampliar a cooperação e continuar a desenvolver soluções com impacto real para as culturas mediterrânicas.
→ Leia este e outros artigos, na Revista Voz do Campo – edição de junho 2026, disponível no formato impresso e digital.
Autoria: Ermelinda Silva; Susana Araújo; João Moutinho; Albino Bento; Alexandre Gonçalves
MORE – Laboratório Colaborativo Montanhas de Investigação, Edifício do Brigantia Ecopark, Ava Cidade de 7 Leon, 5300-358 Bragança, Portugal
Os projetos VALMEDALM e FORECAST integram o Programa PRIMA, apoiado e financiado pela União Europeia – Programa-Quadro de Investigação e Inovação (2021-2027), ao abrigo dos códigos PRIMA/0013/2021 e PRIMA/0008/2024 e pela sua entidade nacional portuguesa FCT (Fundação para a Ciência e a Tecnologia). O projeto PROSPER recebeu financiamento do programa Horizonte Europa da União Europeia, ao abrigo do acordo n.o 101181400, financiado pela União Europeia. Os projetos BioLivingLABS (COMPETE2030-FEDER-01458900) e SIAMESE (NORTE2030-FEDER-01465500) são financiados pelo COMPETE2030 e NORTE2030, respetivamente, e cofinanciados pelo Fundo Europeu de Desenvolvimento Regional (FEDER).

