Redator: Miguel Vicente

O cânhamo industrial já teve lugar nos campos portugueses. Durante séculos, serviu para fazer cordas, velas, tecidos e outros materiais ligados à economia rural e marítima. Depois, quase desapareceu, metido no mesmo saco da cannabis psicoactiva e tratado mais como problema do que como cultura agrícola. A confusão ainda existe. Mas a agricultura, quando é levada a sério, não vive de preconceitos: vive de regras claras, mercado, escala e margem.Nos últimos anos, a cultura voltou a mexer. Dados divulgados com base em informação da DGAV apontam para uma subida da área autorizada de 68 hectares em 2023 para 286 hectares em 2024, chegando a cerca de 480 hectares em 2025. Continua a ser pouco, se comparado com outras culturas. Ainda assim, o salto merece atenção, sobretudo num país onde muitos empresários agrícolas procuram alternativas a fileiras saturadas, custos de produção elevados e preços pouco previsíveis.

Mais do que fibra: uma planta com vários destinos

O interesse está na versatilidade. Do caule sai fibra para têxteis, papel, isolamento e materiais de construção. Das sementes vêm óleo, farinha e ingredientes alimentares com espaço em nichos de maior valor. Há ainda o universo dos extractos, incluindo o CBD, embora esta frente continue limitada em Portugal por um enquadramento que privilegia sobretudo fibra e semente.

É aqui que surge uma das contradições mais evidentes. Enquanto o consumidor português adquire óleo CBD online sem grande dificuldade, o produtor nacional continua condicionado por regras que não permitem valorizar a planta de forma tão ampla como noutros mercados europeus. Para quem olha para o cânhamo com mentalidade empresarial, esta distância entre procura e capacidade produtiva interna não é um pormenor jurídico; é valor económico que fica por capturar.

A construção talvez seja, neste momento, uma das vias mais promissoras para Portugal. O betão de cânhamo, produzido a partir da fibra e de cal, encaixa bem na procura por materiais com bom desempenho térmico e menor pegada carbónica. Já há projectos nacionais a trabalhar esta aplicação, e o Alentejo, pela escala das explorações e pelo espaço disponível para transformação local, surge como território natural para testar modelos industriais.

O entrave está menos na planta do que na fileira

Do ponto de vista agronómico, o cânhamo tem argumentos: crescimento rápido, utilidade em rotação, menor pressão de infestantes e uma relação interessante com a melhoria da matéria orgânica do solo. Mas nenhuma cultura se afirma apenas por parecer simpática ao ambiente. Precisa de compradores, máquinas, contratos, logística e conhecimento técnico.

É aqui que Portugal ainda patina. Faltam unidades de descorticação, operadores industriais, centros de compra e escala comercial. Sem transformação local, o agricultor fica muitas vezes preso à venda de matéria-prima, com pouco controlo sobre preço e calendário. Produzir cânhamo sem saber para quem se vende é meio caminho para transformar uma boa ideia numa dor de cabeça.

Também pesa a burocracia. Licenças anuais, sementes certificadas, limites de área e restrições de uso tornam a decisão menos atractiva, em particular para pequenos e médios produtores. Quem investe em testes de campo, máquinas e contratos precisa de previsibilidade.

Pode ganhar espaço? Pode, mas não por romantismo

O cânhamo não vai salvar a agricultura portuguesa. Nenhuma cultura o fará sozinha. Mas pode ocupar um lugar inteligente em explorações que queiram diversificar receita, entrar em mercados industriais verdes e reduzir dependência de produções com margens apertadas e concorrência indiferenciada.

Para isso, tem de ser tratado como cultura agrícola e industrial, não como curiosidade botânica. O caminho passa por regras proporcionadas, processamento local, cooperação entre produtores e compradores, e uma visão empresarial menos hesitante. Há solo, há clima e há procura. Falta montar a engrenagem.

Portugal já cultivou cânhamo quando dele precisava. A pergunta, agora, é se consegue voltar a cultivá-lo com inteligência económica.