O 2.º Encontro Ibérico de Compostagem Descentralizada, realizado em Évora no início de maio, contou com mais de uma centena de participantes entre municípios, comunidades intermunicipais, sistemas de gestão de resíduos, técnicos portugueses e espanhóis, e representantes de empresas do setor. Organizado pela ZERO – Associação Sistema Terrestre Sustentável e pela Composta en Red, ao longo de dois dias, o Encontro serviu para partilhar experiências práticas, discutir obstáculos legais e operacionais e, sobretudo, mostrar que a compostagem descentralizada está a afirmar-se como uma ferramenta estratégica para reduzir resíduos, regenerar solos e aproximar as comunidades da economia circular.
“A COMPOSTAGEM É UM TEMA QUE ESTÁ EM CIMA DA MESA”
Para Ismael Casotti, da Associação ZERO, o principal objetivo do encontro foi aproximar a compostagem das entidades públicas ligadas à gestão de resíduos. “Trouxemos participantes de câmaras municipais, quer do lado técnico, quer do lado executivo, para mostrar que este caminho é possível e para que possam ganhar conhecimentos e capacitação”, começa por explicar à nossa reportagem.
Para a organização a adesão superou as expetativas
“Temos a casa cheia, mais de 100 pessoas, principalmente entidades públicas portuguesas, mas também alguns participantes espanhóis. É muito importante ver tantas pessoas interessadas. Isso mostra que a compostagem é um tema que está em cima da mesa”, sublinha Ismael Casotti.
O representante da ZERO sublinha também a importância da troca de perspetivas entre Portugal e Espanha. “Portugal é um país mais burocrático, temos mais medo de avançar sem enquadramento legal. Já a perspetiva espanhola é muitas vezes começar por um piloto, implementar primeiro e ajustar depois”, diz. Esta junção, considera, é importante porque demonstra que “também podemos inovar”.

Apesar da simplicidade do processo, o responsável lembra que o verdadeiro desafio está na gestão
“A compostagem, como processo, é simples. O problema é gerir o compostor. Não é apenas abrir e colocar resíduos. É preciso criar equipas, capacitar pessoas, tratar dados, cumprir legislação”. Esse trabalho de bastidores, argumenta Ismael Casotti, “talvez assuste mais numa fase inicial”.
RESÍDUOS ALIMENTARES CONTINUAM A IR PARA ATERRO
Num momento em que Portugal continua longe das metas de valorização de biorresíduos, questionamos Ismael Casotti sobre os principais entraves à compostagem e ao aproveitamento da matéria orgânica produzida diariamente.
“É preocupante que países como Portugal e Espanha, com solos áridos e elevado risco de erosão, estejam ao mesmo tempo a colocar em aterro enormes quantidades de resíduos alimentares com potencial para serem transformados em fertilizantes”, afirma o representante da ZERO.
Segundo o mesmo, o problema resulta de várias falhas acumuladas ao longo dos anos
“Há falhas nos sistemas de recolha, indecisão sobre os modelos mais eficientes, pouca infraestrutura e financiamento insuficiente”. Tudo isso, argumenta ainda, faz com que muitos biorresíduos continuem a seguir para aterro, de forma ilegal ao infringir a Diretiva Aterros, que impede a sua colocação direta em aterro.
Ainda assim, Ismael Casotti mantém uma visão otimista para o futuro: “Gostava de imaginar que, em 2040, a com postagem esteja presente em todos os municípios, tanto nas zonas urbanas como nas rurais”. O objetivo, acrescenta, passa por manter os resíduos próximos da fonte e criar valor para as comunidades.

Participantes das diferentes mesas de debate do 2º Encontro Ibérico de Compostagem Descentralizada
O ALENTEJO COMO TERRITÓRIO IDEAL PARA FECHAR O CICLO
A realidade do território alentejano foi apresentada por Gilda Matos Serrano, da GESAMB – Gestão Ambiental e de Resíduos. “Para nós, a compostagem descentralizada é fundamental”, afirma. “Temos um território com 6.400 km² e uma densidade populacional muito baixa. Faz todo o sentido tratar os resíduos na origem”, considera Gilda Matos Serrano.
A responsável sublinha as vantagens ambientais e económicas do modelo. “Evita custos de transporte e emissões associadas ao transporte de resíduos. E permite produzir um composto de alta qualidade que pode ser aplicado nos solos do território”.
Num distrito marcado por solos pobres e carentes de matéria orgânica, a compostagem surge como uma oportunidade estratégica
“Estamos no Alentejo e precisamos muito desta matéria orgânica. Compostar localmente e aplicar o composto nos nossos solos é fechar o ciclo e concretizar a economia circular”, defende.
A responsável destaca ainda o impacto da compostagem na educação ambiental. “Quando uma pessoa aprende a separar biorresíduos, também ganha sensibilidade para separar plás tico, papel, vidro e metais”. Ou seja, sustenta, “não estamos apenas a trabalhar os biorresíduos, mas uma mudança mais ampla de comportamento” (…).
→ Leia este e outros artigos completos na Revista Voz do Campo, edição de junho 2026.



