Autoria: Rita Fragoso
Professora Auxiliar | Assistant Professor. LEAF | Linking Landscape, Environment, Agriculture and Food Research Unit. ritafragoso@isa.ulisboa.pt. Instituto Superior de Agronomia – Universidade de Lisboa. School of Agriculture – University of Lisbon. Tapada da Ajuda, 1349-017 Lisboa, Portugal

Os resíduos das explorações agropecuárias — como chorumes, restos de culturas e produtos agrícolas não conformes — são frequentemente vistos como um problema devido aos custos de gestão, à complexidade operacional e aos riscos ambientais. No entanto, a agricultura portuguesa está a evoluir para uma nova fase, na qual esses resíduos podem ser convertidos em energia, fertilizante e novas fontes de receita.

O PROJETO RE-FEED E A TRANSIÇÃO AGROENERGÉTICA

O projeto RE FEEDRenewable Energy Production at Farm Level for Energy Efficiency and Defossilization — procurou demonstrar esse novo paradigma. Financiado pelo PRR no âmbito da Agenda de Inovação para a Agricultura 2020-2030, integra a Iniciativa Emblemática 11 – Transição Agroenergética e focou-se na valorização da biomassa agrícola.

Parcerias e objetivos do projeto

Liderado pelo Instituto Superior de Agronomia, o projeto envolveu o Instituto Nacional de Investigação Agrária e Veterinária, o Instituto Politécnico de Portalegre, empresas agropecuárias, florícola e de consultoria energética, e a Federação Portuguesa de Associações de Suinicultores. O objetivo foi demonstrar, em contexto real, soluções tecnológicas que permitam produzir energia renovável e fertilizante orgânico a partir de resíduos, reforçando a autonomia e competitividade das explorações.

DIGESTÃO ANAERÓBIA COMO TECNOLOGIA CENTRAL

A tecnologia central do RE-FEED é a digestão anaeróbia: um processo biológico em que microrganismos degradam matéria orgânica na ausência de oxigénio, produzindo biogás — rico em metano — e um subproduto denominado digerido. Apesar de se tratar de uma tecnologia madura, a sua relevân cia tem vindo a reforçar-se no contexto atual, marcado pelo aumento dos custos energéticos, pela volatilidade dos preços dos fertilizantes e por exigências ambientais crescentes.

Na prática, o chorume produzido na exploração é misturado com outros resíduos agrícolas ou agroindustriais e introduzido num reator anaeróbio em condições controladas, num processo de co-digestão. Esta abordagem equilibra a relação carbono/azoto, melhora o pH e minimiza potenciais efeitos inibitórios, aumentando a eficiência do processo. No laboratório do Instituto Superior de Agronomia, a equipa avaliou diferentes misturas de substratos e determinou o respetivo potencial metanogénico, selecionando a mais eficiente para aplicação à escala piloto.

O biogás gerado pode ser convertido em eletrici dade através de um motor de combustão interna, contribuindo para suprir parte das necessidades energéticas da exploração

Em alguns casos, pode optar-se pela purificação para biometano, com possibilidade de injeção na rede de gás ou uso como combustível. O processo produz também um digerido que, após caracterização e higienização — no RE-FEED pro põe-se a pasteurização com recurso a energia solar — pode ser aplicado como fertilizante orgânico seguro, reduzindo a dependência de fertilizantes minerais e os custos associados (…).

→ Leia este e outros artigos completos na Revista Voz do Campo, edição de junho 2026.