Na campanha de tosquia promovida pela ACOS – Associação de Agricultores do Sul – há uma ideia que atravessa todo o processo: a valorização da lã começa muito antes da sua chegada à indústria têxtil. Desde a organização das equipas no terreno até ao armazenamento e comercialização final, o trabalho é feito de forma integrada, envolvendo produtores, técnicos e tosquiadores especializados.

A campanha decorre entre março e junho, acompanhando o ritmo da atividade no terreno e garantindo uma resposta articulada em todas as fases do processo.

UM SERVIÇO EM CRESCIMENTO DESDE 2014

Criado em 2014, o serviço disponibilizado pela associação aos seus associados tem vindo a crescer de forma contínua, tanto no número de aderentes como no volume de animais tosquiados. A lógica é simples.  Concentrar a lã, separá-la por qualidade e comercializá-la em conjunto, permitindo alcançar preços mais competitivos no mercado. Foi na Sociedade Agrícola Central da Amendoeira do Campo, no concelho de Mértola, que acompanhámos uma das equipas de tosquia da ACOS em plena campanha. No interior da exploração, o trabalho decorre de forma ritmada. Miguel Madeira, médico-veterinário responsável pela sanidade, tosquia e lãs da ACOS e também vice-presidente da Associação, explica que a tosquia é uma necessidade anual incontornável para os efetivos ovinos. “A operação da tosquia é uma operação que é necessária todos os anos, portanto o ciclo da lã repete-se todos os anos e nesta época do ano, a partir de meados de março até junho, aqui nesta nossa região do Alentejo, fazemos a tosquia dos efetivos ovinos”, conta.

Miguel Madeira, médico-veterinário responsável pela Sanidade, Tosquia e Lãs da ACOS e também vice-presidente da Associação

Mais do que uma questão produtiva, trata-se também de uma operação fundamental para o bem-estar animal

“Se nós não tosquiarmos anualmente os animais ficam com uma quantidade de lã de tal ordem que em termos de conforto térmico começam a ter alguns problemas e isto tem influência obviamente no seu bem-estar animal e no desempenho produtivo, e até pode desencadear algumas doenças”, refere. “A tosquia é uma operação essencial para o bem-estar e para o desempenho produtivo dos animais”, fundamenta.

FALTA DE MÃO DE OBRA LEVA À CONTRATAÇÃO INTERNACIONAL

A crescente dificuldade em encontrar mão de obra especializada em Portugal levou a ACOS a procurar soluções no estrangeiro. Atualmente, grande parte das equipas de tosquiadores vem da América do Sul, sobretudo do Uruguai e da Argentina.

“Nós confrontamo-nos com alguma dificuldade de mão de obra, nomeadamente tosquiadores em Portugal”, admite Miguel Madeira. “O que a ACOS fez foi procurar uma solução para esta escassez e conseguiu encontrar equipas de tosquiadores na América do Sul. São estes tosquiadores que, contratados por nós, vêm cá fazer estas campanhas de tosquia”, esclarece ainda.
Segundo Miguel Madeira, apesar das tentativas de formação interna, a adesão continua reduzida: “Fazemos algum esforço para formar internamente tosquiadores, mas não tem havido muita procura nestes cursos de formação”.

AS EQUIPAS TRABALHAM ACOMPANHADAS POR TÉCNICOS DA ASSOCIAÇÃO, QUE ASSEGURAM NÃO APENAS O BEM-ESTAR DOS ANIMAIS, MAS TAMBÉM A QUALIDADE DA LÃ OBTIDA

“Uma ovelha com uma excelente lã, se for mal tosquiada, a lã perde o valor total de mercado. Isso tem muita importância também na qualidade da lã”, sublinha Miguel Madeira.  A assistência técnica prolonga-se muito para além do momento da tosquia. A forma como a lã é acondicionada e armazenada pode comprometer todo o processo industrial. “Temos que acautelar sacaria apropriada. Estes são sacos de nylon, não são de ráfia”, mostra-nos Miguel Madeira, enquanto explica que “quer os sacos de ráfia, quer as cordas que atam os fardos, são dois grandes inimigos da lã porque interferem no processo industrial da lã e estragam a maquinaria toda quando se misturam com a lã”.

Miguel Madeira, em conversa com a Voz do Campo, durante a tosquia na exploração da Sociedade Agrícola Central da Amendoeira do Campo

DA EXPLORAÇÃO AO ARMAZÉM: O CAMINHO DA LÃ

Depois de recolhida, a lã segue para o armazém da ACOS, em Beja, onde é separada e loteada conforme o tipo e a qualidade da fibra. Só depois entra no circuito comercial. “Se cada produtor vender a lã isoladamente, não consegue seguramente preços de mercado que a ACOS consegue vender de forma agrupada”, afirma o responsável. Assim, para o médico-veterinário “consegue-se obter um valor final de mercado muito mais interessante”.  Apesar do esforço de valorização, o setor atravessa um momento difícil devido à crise da indústria têxtil europeia. “A lã baixou muito o seu preço, mas esperemos que venham melhores tempos”, diz Miguel Madeira.

EQUIPAS ALTAMENTE ESPECIALIZADAS NO TERRENO

No terreno, o ritmo de trabalho impressiona. Uma equipa de seis tosquiadores consegue regularmente tosquiar entre 800 e 1000 animais por dia. “Há dias em que fazem 1200, 1300 animais. São tosquiadores profissionais, que trabalham com uma cadência regular, não andam com grandes velocidades, porque tem que se acautelar a questão do bem-estar animal durante a tosquia, mas como são muito regulares ao longo do trabalho, têm um desempenho no final do dia muito bom”, refere Miguel Madeira. A preocupação com a qualidade da lã obriga também a corrigir práticas frequentes nas explorações. “Há produtores que querem que a ovelha fique completamente regular em termos de lã (…). Isso é um erro técnico, porque isso é chamado repasse, e a lã que se obtém dessa segunda passagem é uma lã que não tem qualquer interesse do ponto de vista industrial”, considera ainda Miguel Madeira. Segundo o veterinário, esses pequenos tufos que permanecem no animal não têm qualquer impacto negativo: “Apesar de esteticamente a ovelha ficar ali com um tufo de lã, isso não tem qualquer importância”.

Cerca de 20 a 22 tosquiadores distribuídos por diferentes grupos, consoante a dimensão das explorações

Entre explorações, horários e equipas espalhadas pelo território, a logística da campanha é coordenada diariamente por Nuno Penetra, responsável pela gestão das equipas de tosquiadores da ACOS, que acompanhou a nossa reportagem no terreno. “Os produtores têm que ser sócios para tosquiarem connosco. Elaboramos uma listagem dos sócios todos que inscrevem as ovelhas na ACOS, e a partir daí organizo o trabalho diariamente para as várias equipas”, partilha.

Nuno Penetra, responsável pela gestão das equipas de tosquiadores da ACOS

Ao todo, trabalham cerca de 20 a 22 tosquiadores, distribuídos por diferentes grupos, conforme a dimensão das explorações. “Cada grupo faz o seu levantamento todos os dias. Eu mando a localização à noite para os tosquiadores e depois organizo o trabalho da melhor forma”, refere Nuno Penetra. A campanha decorre entre março e junho e, terminada a tosquia, inicia-se uma nova fase igualmente exigente, analisa Nuno Penetra. “Depois vem a recolha da lã, que representa mais três meses de trabalho intenso”, acrescenta.

(Re)veja a vídeo-reportagem da VOZ DO CAMPO.