A Associação Portuguesa dos Industriais de Alimentos Compostos para Animais (IACA) realizou, no dia 28 de abril em Lisboa, mais uma edição da Reunião Geral da Indústria, este ano dedicada ao tema “Desafios e Vulnerabilidades da Indústria em tempos de incerteza”.

Num contexto marcado pela instabilidade geopolítica, pelo aumento dos custos de produção, pelas novas exigências ambientais europeias e pela discussão do próximo Quadro Financeiro Plurianual da União Europeia, a reunião juntou representantes nacionais e europeus da cadeia agroalimentar para analisar os impactos no setor e debater estratégias de adaptação. Entre os temas centrais estiveram o orçamento da Política Agrícola Comum (PAC), os acordos comerciais, a implementação do Regulamento Europeu da Desflorestação (EUDR) e as propostas de simplificação regulatória conhecidas como “Omnibus”.

IACA REFORÇA APOIO ÀS EMPRESAS DA ALIMENTAÇÃO ANIMAL

Romão Braz, presidente da IACA

Sendo a Associação representativa da indústria de alimentação animal em Portugal, a IACA tem procurado reforçar o apoio às empresas do setor perante os atuais desafios económicos, regulatórios e geopolíticos. Romão Braz, presidente da IACA, à Voz do Campo sublinha o papel da associação no apoio às empresas da ali mentação animal, setor que considera “a base da produção da proteína animal”. “O papel da IACA é apoiar a indústria da alimentação animal, que está no início da produção da proteína animal que chega à mesa dos portugueses”, afirma. Segundo o presidente da IACA, a atuação da associação tem sido particularmente intensa ao nível regulatório, através do trabalho conjunto com autoridades nacionais e europeias e da articulação com a FEFAC – a Federação europeia do setor. “Procuramos ajudar a modelar o tipo de políticas que são implementadas e ajustá-las à realidade do setor, chamando a atenção para aquilo que faz sentido”, explica.

Romão Braz alerta para o impacto crescente da pressão regulatória europeia, sobretudo no âmbito das normas ambientais

“Temos uma pressão regulatória, nomeadamente com a norma da desflorestação (EUDR) e outras, que põem em causa o regular abastecimento de matérias-primas e que não foi feita uma correta avaliação de risco dessa implementação”, afirma.

A IACA procura responder a estes desafios através da apresentação de dados técnicos e da partilha da experiência das empresas do setor junto das instituições europeias. “Promovemos eventos deste tipo, onde se partilham conhecimentos técnicos e novidades tecnológicas, procurando ajudar as empresas a prepararem-se para os desafios que temos pela frente”, acrescenta.

CORTE NAS VERBAS AGRÍCOLAS PREOCUPA PORTUGAL

Um dos oradores convidados foi Eduardo Diniz, diretor-geral do Gabinete de Planeamento, Políticas e Administração Geral (GPP), que abordou o impacto do novo contexto geopolítico nas perspetivas financeiras da União Europeia e em Portugal. Eduardo Diniz, começou por alertar para a proposta da Comissão Europeia relativa ao próximo quadro financeiro plurianual, que prevê cortes significativos nas verbas destinadas à agricultura e à coesão. “Estamos num período em que a Comissão Europeia apresenta uma proposta para o próximo Quadro Financeiro Plurianual, em que as verbas destinadas à agricultura e também à coesão têm um corte importante ao nível de toda a União Europeia e para Portugal também”, sublinha.

Apesar disso, destaca que o processo negocial ainda decorre e que Portugal mantém reservas relativamente à proposta. “Há reservas por parte de Portugal sobre esta proposta, quer ao nível dos montantes, quer ao nível do próprio modelo proposto”, explica.

Eduardo Diniz, diretor-geral do GPP

“A alimentação está no centro dos setores impactados”

Para Eduardo Diniz, a atual conjuntura geopolítica reforça a importância estratégica da produção alimentar europeia. “A alimentação está no centro dos setores impactados e é um setor absolutamente essencial do ponto de vista da segurança alimentar”, afirma.

O diretor-geral do GPP lembra ainda os efeitos da instabilidade internacional sobre os custos de produção agrícola, nomeadamente devido ao aumento dos preços dos fertilizantes e da energia.

“Quando vemos crises como a do Médio Oriente, com os acréscimos dos fertilizantes e dos custos do petróleo para os agricultores, isso implica inflação agroalimentar”, alerta.

Para Eduardo Diniz, a redução da capacidade produtiva europeia pode ter consequências diretas para consumidores e produtores. “Um setor que não tenha capacidade produtiva séria, com estes acréscimos de custos e sem recursos para o seu desenvolvimento, corre riscos não só para os agricultores e para a indústria agroalimentar, mas principalmente para a população em geral”, frisa.

DEPENDÊNCIA EXTERNA PREOCUPA SETOR EUROPEU

Pedro Cordero, presidente da FEFAC

Também presente no encontro, o presidente da FEFAC, Pedro Cordero, aponta os principais desafios enfrentados pela indústria europeia da alimentação animal, desde a sustentabilidade até à dependência externa de matérias-primas estratégicas. “O maior desafio é sermos capazes de produzir a quantidade de comida que os cidadãos precisam diariamente”, argumenta.

O dirigente europeu salienta que o setor da alimentação animal alimenta “milhões de animais todos os dias” e que é necessário garantir uma produção simultaneamente eficiente, sustentável e economicamente viável para os agricultores, produtores e cidadãos.

Preocupações da pegada de carbono

A sustentabilidade da produção foi outro dos temas destacados por Pedro Cordero, que reconhece o peso ambiental do setor: “Somos responsáveis por grande parte da pegada de carbono do produto. Temos de trabalhar mais intensamente nesta parte, até porque as regulações europeias também o vão exigir”.

O presidente da FEFAC critica ainda algumas decisões regulatórias da União Europeia.

“Temos alguns problemas com certas regulações da União Euro peia, porque não são calculados os impactos económicos (…). Temos de falar com os reguladores para tentar reduzir os efeitos negativos dessas regulações. Este é um dos maiores desafios que temos”, afirma.

Entre as principais vulnerabilidades do setor, Pedro Cordero destaca a dependência de importações de soja e de matérias-primas produzidas sobretudo na China

“Temos uma grande dependência de produtos de alta proteína, principalmente soja, e isso não é fácil quando as situações geopolíticas se complicam (…), e uma dependência de vitaminas e aminoácidos, maioritariamente produzidos na China”, revela.

Em declarações à Voz do Campo, Pedro Cordero sublinha ainda o papel da FEFAC no apoio às associações nacionais, como a IACA. “O maior trabalho da FEFAC é apoiar as associações nacionais para que a voz dos países seja escutada em Bruxelas”, afirma, argumentando ao mesmo tempo que “a Comissão Europeia tem de conhecer o que acontece nos países e nós fazemos esse trabalho de transmitir essa informação para que sejam tomadas as melhores decisões possíveis”.

REGULAMENTO DA DESFLORESTAÇÃO TRAZ NOVOS CONSTRANGIMENTOS

José Manuel Costa, chefe de Divisão de Alimentação Animal da DGAV

A implementação do Regulamento Europeu da Desflorestação (EUDR) esteve igualmente em destaque na Reunião. José Manuel Costa, chefe de Divisão de Alimentação Animal da Direção-Geral de Alimentação e Veterinária (DGAV), explica que “este é um regulamento comunitário de cariz ambiental, que pretende impedir a entrada na União Europeia de produtos provenientes de zonas desmatadas ou desflorestadas”. Segundo José Manuel da Costa, a medida pretende contribuir para a redução das emissões de gases com efeito de estufa e para o combate à perda de biodiversidade. No entanto, reco nhece que a aplicação do regulamento poderá criar dificuldades ao setor agroalimentar. “Vai provocar constrangimentos no setor agroalimentar, independentemente dos seus objetivos ambientais”, afirma.

O chefe de Divisão da DGAV admite igualmente impactos a nível comercial, sobretudo na importação de matérias-primas utilizadas na alimentação animal: “Vai haver efeitos em tudo o que são produtos importados de países terceiros e que concorrem com ingredientes utilizados na alimentação animal”. Ainda assim, José Manuel Costa sublinha que foram introduzidas simplificações no regulamento europeu, que serão fundamentais para minimizar os impactos no setor.

“A UNIÃO EUROPEIA TEM SIDO SOLUÇÃO, MAS TEM FALHADO NA PALAVRA UNIÃO”

José Manuel Fernandes, Ministro da Agricultura, durante o seu discurso

O Ministro da Agricultura, José Manuel Fernandes, também presente, começou por agradecer o trabalho desenvolvido pela cadeia agroalimentar durante a pandemia, lembrando que nunca faltaram alimentos à população. “Mesmo com a Covid, tivemos a sabedoria e a competência para que não faltasse comida na mesa”, afirma.

José Manuel Fernandes considerou depois que a União Europeia continua a falhar em áreas estratégicas, defendendo uma maior integração entre os Estados-membros.

“A União Europeia tem sido solução, mas tem falhado na palavra união”, considera.

O ministro deu exemplos como a energia, os transportes ferroviários e a área digital. “Devíamos ter uma união da energia. Devíamos ter uma união ferroviária. Devíamos ter uma união digital. Não temos”, declara.

O governante alertou ainda para o risco de enfraquecimento da Política Agrícola Comum. “Corremos o risco de renacionalizar para depois percebermos que devemos voltar a ter não só uma política agrícola, mas que ela deve ser comum”, afirma.

Num cenário internacional marcado pela imprevisibi lidade, José Manuel Fernandes defende a importân cia de garantir parcerias estáveis e mercados exter nos para a produção europeia

“Num mundo de incerteza, a coisa mais certa neste momento é a imprevisibilidade”, refere.

O Ministro destacou ainda a importância dos acordos comerciais, como o Mercosul, embora defendendo regras de reciprocidade para os produtos importados.

“Não devemos ter medo, porque somos capazes, mas também não devemos ser ingénuos”, diz.

O governante defendeu também um maior investimento europeu na investigação aplicada à agricultura e à sanidade animal.

FIPA ACOMPANHA PREOCUPAÇÕES DA INDÚSTRIA AGROALIMENTAR

A FIPA marcou também presença na Reunião Geral da Indústria da IACA, através do seu presidente, Jorge Henriques, que salienta a importância do trabalho desenvolvido pela associação na defesa do setor. “A FIPA saúda esta iniciativa que a IACA vem realizando no sentido da defesa do interesse dos seus associados e do desenvolvimento da indústria”, afirma à Voz do Campo.

Jorge Henriques recorda ainda que a atual conjuntura internacional está a criar fortes constrangimentos às cadeias de abastecimento e aos custos de produção.

“Estamos a viver um momento extraordinariamente crítico”, afirma, apontando os impactos da pandemia, da guerra na Ucrânia e do conflito no Médio Oriente. “Tudo aquilo que afeta os combustíveis, os fertilizantes e, por consequência, a produção, tem impacto numa indústria tão importante como esta”, vinca.

“A ALIMENTAÇÃO NÃO É SÓ AGRICULTURA, É MUITO MAIS QUE ISSO, TAMBÉM É DEFESA, SOBERANIA E SEGURANÇA ALIMENTAR”

Jaime Piçarra, secretário-geral da IACA

Coube a Jaime Piçarra, secretário-geral da IACA traçar-nos o balanço final da Reunião Geral da Indústria, promovida pela Associação, sublinhando a forte participação e a relevância dos temas em discussão. “Hoje estivemos aqui a abordar os desafios e vulnerabilidades da indústria da alimentação animal. Tivemos a casa cheia”, afirma.

Ao longo do encontro foram debatidos temas como os acordos comerciais, o quadro financeiro plurianual europeu, o papel da alimentação animal nas cadeias de abastecimento e a importância da pecuária. “A pecuária é uma atividade muito importante. Não são só alimentos, é paisagem, é ambiente, é cultura, é biodiversidade”, destaca.

“Apesar das nossas vulnerabilidades, é possível, com cooperação e interligação de todos, sermos atores importantes”

O secretário-geral da IACA salientou ainda as fragilidades do setor, nomeadamente a dependência de matérias-primas e aditivos importados, defendendo uma resposta assente na cooperação e na inovação. “Apesar das nossas vulnerabilidades, é possível, com cooperação e interligação de todos, sermos atores importantes”, afirma.

Jaime Piçarra deixa ainda uma mensagem sobre a importância estratégica da alimentação no contexto atual: “A alimentação não é só agricultura, é muito mais que isso, também é defesa, soberania e segurança alimentar”. Jaime Piçarra, secretário-geral da IACA

A Voz do Campo foi media partner do evento.

→ Leia este e outros artigos completos na Revista Voz do Campo, edição de junho 2026.

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