Foi apresentado esta semana na AgroSemana, no Espaço AGROS, em Argivai, Póvoa de Varzim, um dos grandes encontros nacionais do mundo agrícola e cooperativo. A escolha não podia ser mais simbólica: o concurso é lançado no Norte, mas o desafio que coloca é dirigido a todo o país.
À primeira vista, poderíamos pensar que se trata apenas de mais um concurso de azeites. Não é. É uma iniciativa que procura dar visibilidade a uma realidade que, apesar de representar uma parte fundamental da olivicultura portuguesa, nem sempre é reconhecida na dimensão que merece: a produção de azeite pelas cooperativas.
O regulamento é claro quanto aos seus objetivos: promover a excelência dos azeites cooperativos portugueses, valorizar a produção olivícola e o trabalho das cooperativas, incentivar a melhoria contínua da qualidade e reforçar a notoriedade do setor cooperativo. Há ainda uma particularidade que merece ser destacada: podem participar não apenas as cooperativas associadas da FENAZEITES, mas também todas as que, não sendo associadas, cumpram as regras estabelecidas.
Não estamos, portanto, perante um concurso fechado. A FENAZEITES assume a organização, mas o palco é de todo o setor cooperativo nacional.
Também a dimensão geográfica merece ser sublinhada. O concurso contempla diferentes territórios — de Trás-os-Montes à Beira Interior, do Norte Alentejano ao Alentejo Sul e Algarve, passando pelo Ribatejo — e inclui ainda categorias para azeite biológico e melhor embalagem. É uma forma de reconhecer aquilo que o nosso país tem de particular: não existe um único azeite português. Existem territórios, variedades, sistemas de produção, culturas e identidades diferentes, que podem encontrar na cooperação uma plataforma comum de valorização.
A iniciativa ganha ainda maior significado quando olhamos para além-fronteiras. Espanha atribui anualmente o Prémio Alimentos de España aos melhores AOVE, mas o concurso está aberto às almazaras espanholas e não é reservado às cooperativas. Em Itália, o prestigiado Ercole Olivario reúne olivicultores, lagares cooperativos e organizações de produtores num mesmo concurso. Na Grécia, competições como o ATHENA distinguem azeites por país, região, cultivar e modo de produção, mas não estão estruturadas exclusivamente em torno do universo cooperativo.
Da pesquisa realizada resulta, assim, uma conclusão particularmente interessante: não encontramos, nos principais países produtores europeus, um concurso nacional com o mesmo conceito do agora criado em Portugal — exclusivamente dedicado aos azeites produzidos por cooperativas e promovido pela própria estrutura nacional representativa do setor.
Isto não significa, naturalmente, que as cooperativas desses países não produzam grandes azeites. Pelo contrário. Na edição 2025/26 dos Prémios Alimentos de España, todas as almazaras distinguidas eram cooperativas, com a Picualia, de Bailén, a conquistar o prémio especial para o melhor AOVE.
Portugal não é diferente. Basta olhar para a realidade de algumas das nossas cooperativas para perceber que a excelência não é uma promessa, mas uma realidade reconhecida internacionalmente. A Cooperativa Agrícola dos Olivicultores de Murça é disso um exemplo particularmente expressivo: só em 2026, os seus azeites já ultrapassaram as 130 distinções em concursos internacionais, com classificações de destaque em competições como a ESAO, a AOVE World Cup, a EVOIOOC ou a Berlin GOOA. Uma realidade que demonstra que o azeite cooperativo português tem qualidade, capacidade para se afirmar nos mais exigentes palcos internacionais e, sobretudo, argumentos para ser muito mais valorizado e reconhecido.
Mas talvez seja precisamente aqui que esteja uma das principais razões de ser deste concurso. Há cooperativas portuguesas com enorme reconhecimento internacional e outras cuja qualidade continua praticamente desconhecida para lá do seu território. O setor precisa, por isso, não apenas de produzir qualidade, mas também de a comunicar, promover e transformar em valor.
E há uma dimensão que não podemos esquecer. Quando falamos de azeite cooperativo, falamos de um produto que nasce do trabalho de muitos agricultores. A própria FENAZEITES associa o modelo cooperativo à produção dos seus associados e à criação de melhores condições para que uma maior parte do valor gerado permaneça junto do olivicultor.
Valorizar esse azeite é, por isso, valorizar muito mais do que uma garrafa. É contribuir para a sustentabilidade económica das explorações, para a permanência de atividade nos territórios rurais e para a criação de valor onde a oliveira está plantada. Existe aqui uma dimensão económica, mas também social e territorial que dificilmente pode ser medida apenas em números.
O concurso estabelece, além disso, critérios que reforçam a sua credibilidade. Os azeites terão de provir de lotes homogéneos de, pelo menos, 1.000 litros, estar comercialmente disponíveis e possuir referência comercial identificável. A avaliação será realizada em prova cega, de acordo com as normas aplicáveis do Conselho Oleícola Internacional.
Não se pretende, portanto, premiar apenas uma amostra excecional. Pretende-se distinguir qualidade que existe no mercado, que pode chegar ao consumidor e que representa uma produção real da cooperativa.
Talvez seja essa a verdadeira importância desta iniciativa. Num setor em que tantas vezes somos obrigados a discutir preço, custos e competitividade, é fundamental criar também instrumentos para discutir valor. Quando o mercado nos empurra para competir pelo preço, precisamos de reforçar a capacidade de competir pela qualidade, pela diferenciação e pela confiança.
O primeiro Concurso Nacional de Azeites Cooperativos nasce agora, no início de uma nova campanha. Começa no Norte, mas dirige-se a Portugal inteiro. E poderá vir a ser muito mais do que uma competição por medalhas: poderá constituir uma plataforma de afirmação de um setor que produz qualidade, gera emprego, mantém território e representa milhares de agricultores.
Porque uma medalha distingue um azeite.
Uma iniciativa destas pode ajudar a distinguir um setor.
Apoie o nosso trabalho e o crescimento da Voz do Campo. Assine a nossa publicação mensal e ajude-nos a continuar a levar até si mais informação, conhecimento e conteúdos especializados sobre o setor AGRO.
Subscreva a Revista Voz do Campo