Últimas
--°C Min/Max: --°C / --°C
A carregar...

O azeite cooperativo já tinha qualidade. Faltava-lhe uma montra à sua altura

Artigo de opinião de Francisco António Vilela Ribeiro

  • Médico Veterinário, especialista em segurança alimentar e apaixonado pelo mundo do azeite. Presidente da Cooperativa Agrícola dos Olivicultores de Murça (CAOM) e administrador da FENAZEITES

Há iniciativas que nascem para distinguir produtos. Outras surgem porque um setor sente necessidade de se afirmar. O primeiro Concurso Nacional de Azeites Cooperativos, promovido pela FENAZEITES, pertence às duas categorias.

Foi apresentado esta semana na AgroSemana, no Espaço AGROS, em Argivai, Póvoa de Varzim, um dos grandes encontros nacionais do mundo agrícola e cooperativo. A escolha não podia ser mais simbólica: o concurso é lançado no Norte, mas o desafio que coloca é dirigido a todo o país.

À primeira vista, poderíamos pensar que se trata apenas de mais um concurso de azeites. Não é. É uma iniciativa que procura dar visibilidade a uma realidade que, apesar de representar uma parte fundamental da olivicultura portuguesa, nem sempre é reconhecida na dimensão que merece: a produção de azeite pelas cooperativas.

O regulamento é claro quanto aos seus objetivos: promover a excelência dos azeites cooperativos portugueses, valorizar a produção olivícola e o trabalho das cooperativas, incentivar a melhoria contínua da qualidade e reforçar a notoriedade do setor cooperativo. Há ainda uma particularidade que merece ser destacada: podem participar não apenas as cooperativas associadas da FENAZEITES, mas também todas as que, não sendo associadas, cumpram as regras estabelecidas.

Não estamos, portanto, perante um concurso fechado. A FENAZEITES assume a organização, mas o palco é de todo o setor cooperativo nacional.

Também a dimensão geográfica merece ser sublinhada. O concurso contempla diferentes territórios — de Trás-os-Montes à Beira Interior, do Norte Alentejano ao Alentejo Sul e Algarve, passando pelo Ribatejo — e inclui ainda categorias para azeite biológico e melhor embalagem. É uma forma de reconhecer aquilo que o nosso país tem de particular: não existe um único azeite português. Existem territórios, variedades, sistemas de produção, culturas e identidades diferentes, que podem encontrar na cooperação uma plataforma comum de valorização.

A iniciativa ganha ainda maior significado quando olhamos para além-fronteiras. Espanha atribui anualmente o Prémio Alimentos de España aos melhores AOVE, mas o concurso está aberto às almazaras espanholas e não é reservado às cooperativas. Em Itália, o prestigiado Ercole Olivario reúne olivicultores, lagares cooperativos e organizações de produtores num mesmo concurso. Na Grécia, competições como o ATHENA distinguem azeites por país, região, cultivar e modo de produção, mas não estão estruturadas exclusivamente em torno do universo cooperativo.

Da pesquisa realizada resulta, assim, uma conclusão particularmente interessante: não encontramos, nos principais países produtores europeus, um concurso nacional com o mesmo conceito do agora criado em Portugal — exclusivamente dedicado aos azeites produzidos por cooperativas e promovido pela própria estrutura nacional representativa do setor.

Isto não significa, naturalmente, que as cooperativas desses países não produzam grandes azeites. Pelo contrário. Na edição 2025/26 dos Prémios Alimentos de España, todas as almazaras distinguidas eram cooperativas, com a Picualia, de Bailén, a conquistar o prémio especial para o melhor AOVE.

Portugal não é diferente. Basta olhar para a realidade de algumas das nossas cooperativas para perceber que a excelência não é uma promessa, mas uma realidade reconhecida internacionalmente. A Cooperativa Agrícola dos Olivicultores de Murça é disso um exemplo particularmente expressivo: só em 2026, os seus azeites já ultrapassaram as 130 distinções em concursos internacionais, com classificações de destaque em competições como a ESAO, a AOVE World Cup, a EVOIOOC ou a Berlin GOOA. Uma realidade que demonstra que o azeite cooperativo português tem qualidade, capacidade para se afirmar nos mais exigentes palcos internacionais e, sobretudo, argumentos para ser muito mais valorizado e reconhecido.

Mas talvez seja precisamente aqui que esteja uma das principais razões de ser deste concurso. Há cooperativas portuguesas com enorme reconhecimento internacional e outras cuja qualidade continua praticamente desconhecida para lá do seu território. O setor precisa, por isso, não apenas de produzir qualidade, mas também de a comunicar, promover e transformar em valor.

E há uma dimensão que não podemos esquecer. Quando falamos de azeite cooperativo, falamos de um produto que nasce do trabalho de muitos agricultores. A própria FENAZEITES associa o modelo cooperativo à produção dos seus associados e à criação de melhores condições para que uma maior parte do valor gerado permaneça junto do olivicultor.

Valorizar esse azeite é, por isso, valorizar muito mais do que uma garrafa. É contribuir para a sustentabilidade económica das explorações, para a permanência de atividade nos territórios rurais e para a criação de valor onde a oliveira está plantada. Existe aqui uma dimensão económica, mas também social e territorial que dificilmente pode ser medida apenas em números.

O concurso estabelece, além disso, critérios que reforçam a sua credibilidade. Os azeites terão de provir de lotes homogéneos de, pelo menos, 1.000 litros, estar comercialmente disponíveis e possuir referência comercial identificável. A avaliação será realizada em prova cega, de acordo com as normas aplicáveis do Conselho Oleícola Internacional.

Não se pretende, portanto, premiar apenas uma amostra excecional. Pretende-se distinguir qualidade que existe no mercado, que pode chegar ao consumidor e que representa uma produção real da cooperativa.

Talvez seja essa a verdadeira importância desta iniciativa. Num setor em que tantas vezes somos obrigados a discutir preço, custos e competitividade, é fundamental criar também instrumentos para discutir valor. Quando o mercado nos empurra para competir pelo preço, precisamos de reforçar a capacidade de competir pela qualidade, pela diferenciação e pela confiança.

O primeiro Concurso Nacional de Azeites Cooperativos nasce agora, no início de uma nova campanha. Começa no Norte, mas dirige-se a Portugal inteiro. E poderá vir a ser muito mais do que uma competição por medalhas: poderá constituir uma plataforma de afirmação de um setor que produz qualidade, gera emprego, mantém território e representa milhares de agricultores.

Porque uma medalha distingue um azeite.

Uma iniciativa destas pode ajudar a distinguir um setor.

Subscreva a Revista Voz do Campo

Apoie o nosso trabalho e o crescimento da Voz do Campo. Assine a nossa publicação mensal e ajude-nos a continuar a levar até si mais informação, conhecimento e conteúdos especializados sobre o setor AGRO.

Subscreva a Revista Voz do Campo
Partilhar: