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“O Futuro da Agricultura Portuguesa não se decide apenas em Bruxelas”

Estamos a aproximar-nos cada vez mais do final de mais um quadro comunitário de apoio à agricultura e, com ele, regressa uma das maiores interrogações do setor, o que vem a seguir?

João Rodrigues, Engenheiro Agrónomo

Entre a expectativa de um eventual prolongamento do atual enquadramento e a incerteza quanto ao momento em que entrará plenamente em vigor o próximo quadro comunitário, agricultores e organizações do setor enfrentam novamente um período de indefinição.

E esta incerteza não é um detalhe.

Para quem investe numa exploração agrícola, toma decisões de longo prazo, planta uma cultura permanente, instala um sistema de regadio, moderniza equipamentos ou decide avançar com um novo projeto, saber quais serão as regras e os apoios disponíveis nos próximos anos é fundamental.

Mais uma vez, os olhos estão virados para Bruxelas.

A Política Agrícola Comum, as novas regras ambientais, os apoios, a burocracia, as importações, os mercados e as decisões das instituições europeias ocupam grande parte do debate. E, naturalmente, muitas destas matérias têm um impacto direto e determinante na vida de quem trabalha no campo.

Mas existe uma pergunta que talvez devêssemos fazer com maior frequência:

O futuro da agricultura portuguesa depende apenas das decisões que são tomadas em Bruxelas?

A resposta, na minha opinião, é claramente não.

Bruxelas define uma parte importante das regras do jogo. Mas Portugal também tem responsabilidades. E essas responsabilidades começam nos próprios agricultores, passam pelas suas organizações, pelos técnicos, pelas empresas e terminam, naturalmente, nos decisores políticos nacionais.

Durante demasiado tempo habituámo-nos a olhar para fora sempre que procuramos explicar as dificuldades da nossa agricultura. É mais fácil atribuir responsabilidades a uma decisão europeia do que discutir aquilo que podemos e devemos fazer internamente.

Não se trata de desvalorizar a importância da Política Agrícola Comum ou de ignorar os problemas que algumas políticas europeias colocam à agricultura mediterrânica. Trata-se, simplesmente, de reconhecer que nem todos os problemas da agricultura portuguesa têm uma solução europeia.

O primeiro desafio está dentro das próprias explorações.

A agricultura moderna exige cada vez mais conhecimento, capacidade de gestão e capacidade de adaptação. Já não basta produzir. É necessário saber quanto custa produzir, conhecer o mercado, avaliar investimentos, escolher culturas e variedades, gerir eficientemente a água, reduzir desperdícios e procurar acrescentar valor ao produto.

O agricultor do futuro terá de ser cada vez mais agricultor, mas também gestor e empresário.

Esta transformação não significa abandonar o conhecimento tradicional. Pelo contrário, a experiência acumulada ao longo de gerações continua a ser fundamental, mas essa experiência tem de caminhar lado a lado com a ciência, a tecnologia e a capacidade de interpretar uma realidade que está a mudar rapidamente.

As alterações climáticas, a escassez de água, o aumento dos custos dos fatores de produção e a volatilidade dos mercados obrigam a tomar decisões diferentes das que eram tomadas há algumas décadas.

E aqui surge uma questão fundamental, estamos preparados para mudar?

Também as organizações agrícolas têm um papel determinante neste processo, a defesa dos agricultores continuará a ser uma das suas principais missões, é legítimo e necessário reivindicar melhores condições, combater burocracias desnecessárias e exigir políticas públicas adequadas, mas a representação do setor não pode esgotar-se na reivindicação.

É necessário reforçar a capacidade de organização da produção, melhorar a comercialização, aproximar produtores dos mercados, promover a inovação e criar verdadeiras estratégias de valorização dos produtos agrícolas portugueses.

Uma agricultura constituída por milhares de produtores isolados terá, inevitavelmente, menor capacidade de negociação do que uma agricultura organizada e capaz de concentrar oferta, conhecimento e capacidade comercial. Produzir bem é fundamental, saber vender bem aquilo que se produz é igualmente importante.

Também os técnicos e engenheiros agrónomos têm uma responsabilidade acrescida. A agricultura não precisa de técnicos apenas para preencher formulários, tratar candidaturas ou garantir o cumprimento das obrigações administrativas, necessita de técnicos que estejam no terreno, que conheçam as explorações e que tenham capacidade para ajudar o agricultor a tomar decisões.

Num momento em que se fala tanto de inteligência artificial, agricultura de precisão, sensores, drones e novas tecnologias, não podemos esquecer uma coisa simples, a tecnologia só será verdadeiramente útil quando for colocada ao serviço de boas decisões agronómicas e económicas.

Também as empresas que trabalham com o setor têm responsabilidades. É fundamental que a relação entre agricultores, fornecedores, indústria e distribuição deixe de ser encarada apenas como uma relação comercial de curto prazo. Precisamos de cadeias de valor mais equilibradas, nas quais o produtor tenha capacidade para capturar uma parte justa do valor que cria. Não podemos continuar a aceitar como inevitável que o elo mais exposto ao risco seja, muitas vezes, aquele que tem menor capacidade para definir o preço do seu próprio produto.

Mas há uma responsabilidade que não podemos deixar de colocar no Estado português. Portugal precisa de uma estratégia para a agricultura que ultrapasse os ciclos políticos e os sucessivos quadros comunitários. Precisamos de saber que agricultura queremos daqui a dez ou vinte anos. Portugal tem de ter capacidade para definir prioridades, porque a agricultura não é apenas uma atividade económica, é também território, paisagem, emprego, segurança alimentar, ambiente e coesão social. Por isso, talvez seja altura de mudar um pouco a forma como discutimos o futuro do setor.

Podemos e devemos exigir mais de Bruxelas, mas também temos de exigir mais de nós próprios, dos agricultores, das organizações, dos técnicos, das empresas e, sobretudo, de quem tem responsabilidades na definição das políticas públicas.

Bruxelas pode definir muitas das regras do jogo. Mas Portugal decide, em grande medida, como joga esse jogo.

O futuro da agricultura portuguesa não será construído apenas através de mais apoios, será construído através de conhecimento, investimento, organização, inovação, capacidade empresarial e visão estratégica.

Será construído por agricultores que estejam preparados para mudar, por técnicos capazes de acompanhar essa mudança, por organizações que consigam unir o setor, por empresas que valorizem verdadeiramente a produção nacional e por decisores que tenham coragem de pensar para além do próximo quadro comunitário.

Não podemos continuar a esperar que cada dificuldade tenha uma resposta europeia.

Há problemas que exigem decisões portuguesas.

E talvez esta seja uma das principais responsabilidades que temos perante a próxima geração de agricultores, não lhes deixar apenas uma agricultura apoiada, mas uma agricultura capaz de ser competitiva, sustentável e economicamente viável.

O futuro da agricultura portuguesa não se decide apenas em Bruxelas, decide-se igualmente em Portugal e começa nas decisões que tomamos hoje.

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