Produzir mais madeira ou mais resina num pinhal-bravo não começa no terreno — começa muito antes, na genética da semente. Hoje, o melhoramento genético é uma das ferramentas mais eficazes para aumentar o rendimento florestal, permitindo ao proprietário obter mais valor por hectare. O melhoramento genético não substitui a gestão, mas define o potencial produtivo da floresta desde o primeiro dia.

OPINIÃO DA EQUIPA CENTRO PINUS MARÍLIA MOURA, MARGARIDA MENDES SILVA, SUSANA CARNEIRO E PEDRO TEIXEIRA
O programa de melhoramento genético do pinheiro-bravo para produção de madeira tem várias décadas de desenvolvimento e resultados concretos.
Atualmente, a semente proveniente de pomares melhorados permite obter ganhos de 21% em volume, já disponíveis no mercado, com impacto direto na produção florestal.
Este ganho traduz-se em rendimento: simulações indicam que a utilização de plantas melhoradas pode representar um acréscimo de cerca de +1 400 €/ha no corte final, mantendo as restantes condições constantes.
UM NOVO DESAFIO: MELHORAR TAMBÉM A PRODUÇÃO DE RESINA
Paralelamente, teve início mais recentemente um programa de melhoramento genético especificamente orientado para a produção de resina.
Os programas de melhoramento são distintos — um focado em madeira, outro em resina.
Embora algumas árvores selecionadas para crescimento em volume possam vir a revelar boa produtividade de resina, essa relação ainda não é conhecida nem pode ser assumida.
Ao contrário do crescimento em volume, a seleção de árvores para produção de resina não pode ser avaliada por observação direta.
Por essa razão, foram identificadas centenas de árvores em todo o país, que estão agora a ser avaliadas num ensaio para quantificar o seu desempenho e determinar o respetivo ganho genético.
ENXERTIA: COPIAR AS MELHORES ÁRVORES
A multiplicação das árvores superiores selecionadas pelos programas de melhoramento atualmente é feita por enxertia, permitindo criar cópias genéticas (clones) que dão origem a pomares produtores de semente melhorada.
Nos últimos três anos, foram realizadas campanhas de enxertia em vários locais do país. No âmbito do melhoramento para a produção de resina, está em instalação um ensaio clonal no Perímetro Florestal de Alva de Pataias, onde foram clonadas mais de 400 árvores selecionadas em todo o país, com o objetivo de avaliar o seu desempenho e quantificar o ganho genético.
Adicionalmente, têm vindo a ser desenvolvidas campanhas de enxertia para instalação de três novos pomares, dois sob gestão do ICNF, no Perímetro Florestal de Alva de Pataias e na Mata Nacional das Dunas de Vagos, e o terceiro pomar encontra-se a ser instalado na PINUSLAND, a área florestal de demonstração gerida pelo Centro PINUS localizada no concelho de Coimbra. Este conjunto de locais assegura não só a produção futura de planta mais produtiva, como também a base experimental necessária para sustentar o desenvolvimento de novas gerações de pinheiro-bravo.
O PROCESSO DE ENXERTIA DE PINHEIRO-BRAVO REVELOU DESAFIOS IMPORTANTES:
Mas nos últimos três anos também ocorreu uma aprendizagem relevante. A experiência acumulada permitiu melhorar técnicas de enxertia, corrigir abordagens e adaptar operações a uma realidade mais exigente do que inicialmente previsto.
Um resultado particularmente positivo é que algumas das primeiras árvores enxertadas há 3 anos já entraram em produção de pinha, ou seja, já estão a produzir semente — um sinal claro de progresso num processo tradicionalmente longo.
Financiamento do PRR permite grande avanço
A ambição é triplicar a capacidade nacional de produção de semente com melhoramento genético, passando de cerca de 2 000 para 6 000 hectares/ano de (re)arborização com plantas com ganho genético.

O QUE JÁ É POSSÍVEL — E O QUE AINDA É FUTURO
Hoje, o setor já dispõe de plantas melhoradas para produção de madeira, com ganhos comprovados. As sementes são comercializadas pelo Centro Nacional de Sementes Florestais (CENASEF), com a categoria “Qualificada”. As plantas provenientes destas sementes são comercializadas também com esta categoria por vários viveiros.
No caso da resina, o processo está ainda no início. O ensaio que se encontra em instalação irá permitir identificar os melhores clones e validar o seu desempenho, sendo expectável que as primeiras plantas cheguem ao terreno na próxima década.
Mais plantas melhoradas: Uma meta nacional
O reforço da disponibilidade de planta melhorada é hoje uma prioridade estratégica do país. O Plano de Intervenção para a Floresta estabelece como meta o “aumento da produção nacional de plantas melhoradas”, reconhecendo o papel central do melhoramento genético no aumento da produtividade e do rendimento dos proprietários.
Este objetivo responde a um desafio concreto: a escassez de semente e planta melhorada, num contexto em que a procura para arborização e rearborização tem vindo a aumentar.
Mais do que genética: Uma construção coletiva
O desenvolvimento destes programas de melhoramento resulta de uma parceria entre várias entidades do setor, com coordenação do Centro PINUS e liderança científica do INIAV, envolvendo ainda o ICNF e outros parceiros com competências complementares.
Mais do que árvores melhoradas, este é um trabalho feito de pessoas: investigadores, técnicos, gestores e proprietários que, em conjunto, estão a construir o futuro do pinhal-bravo!
Artigo publicado na edição de Maio de 2026, da Revista Voz do Campo
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