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Alterações climáticas e stress hídrico: a qualidade da planta e a rega no sucesso do castanheiro

Portugal integra o grupo dos dez maiores produtores mundiais de castanha e está entre os principais produtores europeus, com uma produção anual que, nas últimas décadas, tem variado entre 25 e 35 mil toneladas, concentrada sobretudo em Trás-os-Montes[1].

Trata-se de um património económico, social e cultural construído ao longo de gerações, mas que atualmente enfrenta uma pressão sem precedentes. Os episódios de seca prolongada e de temperaturas extremas não só limitam o desenvolvimento do castanheiro, como também favorecem a incidência e a propagação de pragas e doenças graves. Neste contexto, a fase mais crítica do ciclo de vida de uma árvore não corresponde à colheita, mas sim ao período  imediatamente após a plantação, quando o sucesso da instalação do souto é determinado. Esse sucesso não depende do formato em que a planta chega ao campo, mas depende de três fatores concretos - a qualidade e o desenvolvimento do sistema radicular, o estado fisiológico da planta e as práticas adotadas na plantação e na rega.

A RefCast ilustrou-o recentemente de forma exemplar. Sob temperatura ambiente de 34 °C, um castanheiro bem hidratado mantém uma taxa de transpiração de 4 mmol H₂O·m⁻²·s⁻¹ e dissipa 98 W·m⁻² sob a forma de calor latente. Em condições de  stress hídrico, a transpiração reduz-se para 1,5 mmol e a dissipação para 36,8 W·m⁻²[2]. As consequências são imediatas e facilmente mensuráveis: enquanto uma folha de uma árvore bem regada se mantém a cerca de 26 °C, uma folha sujeita a stress hídrico  atinge os 32 °C. Este aumento da temperatura foliar implica uma redução de cerca de 50% da taxa fotossintética Assim, como sintetiza a RefCast, regar é investir na saúde da árvore e na qualidade da produção.

Esta é, aliás, uma das lacunas mais persistentes do setor. O Manual Técnico do Castanheiro, editado pelo CNCFS, sublinha que é indispensável regar durante os primeiros quatro a cinco anos após plantação período em que o sistema radicular ainda se encontra pouco desenvolvido, estimando as necessidades hídricas da cultura em cerca de 700 mm anuais[3]. Contudo, apenas cerca de 20% das áreas instaladas com castanheiro dispõem de um sistema de rega, um valor que  os autores consideram manifestamente insuficiente. Com episódios de calor extremo, como o que atravessámos, esta diferença é determinante para a o estabelecimento e a sobrevivência de um souto jovem.

A rega, porém, não é apenas uma questão de quantidade, mas também de gestão. O manual referido anteriormente alerta que a água acumulada a menos de 50 cm de profundidade provoca asfixia radicular e favorece o desenvolvimento de fungos dos géneros Phytophthora e Armillaria. Assim, tão importante como regar é saber fazê-lo corretamente: regar em profundidade e com regularidade é essencial; encharcar o solo de forma permanente é prejudicial. A regra prática é simples: regar em profundidade, humedecendo toda a zona radicular , permitir a drenagem do solo e repetir o processo com a frequência adequada.

Se a rega assegura a disponibilidade de  água, é o sistema radicular que determina a capacidade da planta para a  captar - e é precisamente aqui que a micorrização faz a diferença. A simbiose entre fungos ectomicorrízicos e as raízes do castanheiro aumenta a superfície de contacto com o solo, reforçando a absorção de água e de nutrientes[3]. A investigação desenvolvida no âmbito do projeto CC&NUTS demonstra que o castanheiro é mais sensível ao défice hídrico do que às temperaturas elevadas e que, quando ambos ocorrem em simultâneo, o calor intensifica os efeitos da escassez de água[4]. Nessas condições, a presença de fungos ectomicorrízicos aumentou a tolerância das plantas ao stress, melhorando as relações hídricas, a atividade fotossintética e os mecanismos de defesa antioxidante[5]. O benefício é particularmente relevante em sequeiro - precisamente onde a limitação hídrica compromete a transpiração e a fotossíntese. Na prática, raízes eficazmente micorrizadas traduzem-se numa maior taxa de sobrevivência após a plantação, em menores necessidades de rega e de fertilização e numa entrada mais rápida em produção[6].

A qualidade da planta, contudo, começa muito antes da instalação em campo. A micropropagação in vitro permite obter material geneticamente uniforme, fiel à planta-mãe e isento de patógenos, a partir de plantas selecionadas, com redução da fase juvenil e do tempo de entrada em produção - vantagens que o Manual Técnico reconhece à propagação vegetativa[3]. Quando a esse material se associa a micorrização, o produtor recebe uma planta que chega ao terreno com o sistema radicular intacto e já colonizado pelos fungos ectomocorrizicos benéficos, pronta a explorar o solo desde o primeiro dia e com menor stress de transplante[6]. Não por acaso, o mesmo manual já antecipava que a micropropagação viesse a afirmar-se, no futuro, como o principal processo de produção de porta-enxertos de castanheiro.

Boas práticas de plantação e rega

  • Preparar bem a cova - cerca de 1,5 m de largura e 0,8 m de profundidade na mobilização localizada - em solo bem drenado.
  • Molhar bem o torrão antes de plantar: um torrão seco torna-se difícil de reidratar depois de enterrado.
  • Colocar o topo do torrão ao nível do solo, formar uma bacia à volta do pé e dar uma rega de instalação abundante.
  • Regar devagar e em profundidade, no pé da planta, durante os primeiros anos - e com mais frequência nas vagas de calor. Evitar, porém, o encharcamento permanente.
  • Regar de manhã cedo ou ao entardecer, nunca nas horas de maior calor.
  • Cobrir o pé com palha ou material orgânico e manter a linha sem ervas, que competem pela água.
  • Em locais de forte insolação, pintar o tronco e os ramos das árvores jovens com cal, protegendo-os dos golpes de calor.

Utilizando a biotecnologia ao serviço da agricultura, a Deifil integra estas soluções no seu processo produtivo, disponibilizando plantas de castanheiro micropropagadas e micorrizadas, de elevada qualidade fisiológica e radicular.

Mas nenhuma planta, por melhor que seja a sua origem, dispensa uma plantação bem feita e uma rega atenta nos primeiros anos. É dessa combinação - planta de qualidade e prática correta - que nascem os soutos capazes de resistir ao clima que aí vem.

Mais informação em: https://www.deifil.pt

Leia este e outros artigos publicados na edição de agosto/setembro da Revista Voz do Campo.

Referências:

[1] FAOSTAT; Instituto Nacional de Estatística. Estatísticas de produção de castanha (Portugal).

[2] Gomes-Laranjo, J., Pires, A., Pinto, J. Â., Marques, D., Martins, A. & Carneiro, R. (2022). ClimCast - Os novos desafios para o souto no contexto das alterações climáticas. RefCast - Associação Portuguesa da Castanha.

[3] Henriques, C. & Borges, A. (2017). Castanheiro - Manual Técnico (coord. científica J. Gomes-Laranjo). Centro Nacional de Competências dos Frutos Secos (CNCFS). https://cncfs.pt (rega e drenagem; micorrização: Portela et al., 1998; propagação vegetativa).

[4] Mateus, P., Sousa, F., Martins, M., Sousa, B., Afonso, A., Oliveira, F., Moutinho-Pereira, J., Fidalgo, F., & Soares, C. (2024). The ectomycorrhizal fungus Paxillus involutus positively modulates Castanea sativa Miller (var. Marsol) responses to heat and drought co-exposure. Plant Physiology and Biochemistry, 215. https://doi.org/10.1016/j.plaphy.2024.108999

[5] Sousa, F., Mateus, P., Martins, M., Sousa, B., Moutinho-Pereira, J., Soares, C. & Fidalgo, F. (2024). Impacto das alterações climáticas em castanheiro - a micorrização como estratégia mitigadora. Revista Voz do Campo, edição de junho. https://vozdocampo.pt/arquivo/26022

[6] Ribeiro, A.C., Silva, A., Piairo, P., Vieira, F., Rodrigues, P., Martins, A., Soares, C., Heleno, S., Fidalgo, F. & Afonso, A. (2026). Fungos micorrízicos: inovação biotecnológica para a resiliência da cultura do castanheiro. Projeto MicroHealthChest (Compete 2030 / Portugal 2030 / União Europeia), n.º 21721, COMPETE2030-FEDER-02304200.

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