Esta é uma questão atual que dificilmente admite respostas absolutas. Durante décadas, fertilizantes, pesticidas, herbicidas e reguladores de crescimento foram instrumentos decisivos para garantir produtividade, estabilidade de colheitas e segurança alimentar. Num contexto global em que a população continua a crescer, aumentar a produção agrícola constitui uma prioridade incontornável. No entanto, produzir mais já não é suficiente: exige-se produzir melhor, com qualidade, segurança e responsabilidade ambiental.
PAULO GOMES DIRETOR VOZ DO CAMPO
O debate atual desenvolve-se, a partir do “usar ou não usar” passando pelo “como usar” até, cada vez mais, “como reduzir”. A pressão social e política para diminuir a dependência de soluções fitofarmacêuticas é clara, refletindo preocupações legítimas com a saúde humana, a contaminação dos solos e da água, a perda de biodiversidade e o desenvolvimento de resistências em pragas e doenças.
A retirada progressiva de substâncias ativas, particularmente evidente na União Europeia, é um sinal inequívoco dessa mudança de paradigma. Contudo, esta transição não está isenta de desafios. Estudos recentes apontam para impactos económicos e produtivos relevantes em culturas estratégicas, levantando questões sobre a competitividade do setor agrícola e a viabilidade de determinadas explorações. A redução de matérias ativas disponíveis no mercado, obriga a repensar sistemas produtivos e práticas culturais.
É precisamente aqui que reside a oportunidade. A agricultura do futuro será, inevitavelmente, mais integrada e baseada no conhecimento. A adoção de soluções biológicas, o recurso a tecnologias de precisão e a implementação de práticas culturais preventivas, enquadradas nos princípios da Proteção Integrada, permitem mitigar riscos e otimizar recursos. Estratégias como a rotação de culturas, o uso de inimigos naturais e a monitorização inteligente das explorações, deixam de ser alternativas para passar a ser pilares centrais.
Importa também reconhecer que o desafio alimentar global não se resolve exclusivamente ao nível da produção. O mundo já gera calorias suficientes para alimentar a sua população, mas continua a falhar na redução de perdas e na equidade de distribuição. Assim, eficiência produtiva, sustentabilidade ambiental e justiça alimentar devem caminhar lado a lado.
Em Portugal, os sinais de mudança são encorajadores. A redução significativa na utilização de produtos fitofarmacêuticos por superfície agrícola, aliada à melhoria das práticas de manuseamento e à evolução das condições de trabalho no setor, demonstra que é possível conciliar produtividade com
responsabilidade. Ainda assim, a transição exige investimento em inovação, em formação e em adaptação logística, e não pode ser dissociada do apoio técnico e político aos agricultores.
O futuro da agricultura não será livre de químicos, mas será, certamente, menos dependente deles. Mais do que eliminar, o objetivo será integrar: usar apenas quando necessário, de forma criteriosa e sustentada por conhecimento técnico. O caminho não é fácil, mas tem inevitavelmente de fazer-se entre a urgência de alimentar o mundo e a responsabilidade de preservar os recursos naturais.
Artigo publicado na edição de Abril de 2026, da Revista Voz do Campo