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Biodiversidade ganha espaço no centro da estratégia agroalimentar

No âmbito das comemorações do Dia Internacional da Biodiversidade, o Clube de Produtores Continente (CPC) promoveu, no passado dia 22 de maio em Torres Vedras, uma iniciativa dedicada à reflexão sobre o papel estratégico da biodiversidade na agricultura, alimentação, aquicultura e cadeias agroalimentares.

Integrado na Declaração para a Sustentabilidade do CPC, o encontro juntou produtores, empresas, investigadores e especialistas para discutir um tema cada vez mais central para o futuro da produção alimentar. Face aos desafios ambientais e à pressão sobre os recursos naturais, a biodiversidade foi apresentada como uma ferramenta essencial para aumentar a resiliência dos sistemas produtivos e promover uma agricultura mais sustentável e competitiva. Foi precisamente em torno destas questões que, ao longo da manhã, os participantes debateram temas ligados às políticas europeias para a biodiversidade, aos créditos de natureza, ao papel da biodiversidade na agricultura portuguesa e à forma como esta pode ser integrada nas estratégias de produção. Já durante a tarde, as sessões paralelas permitiram aprofundar questões relacionadas com os sistemas agrícolas e agroflorestais, a biodiversidade do solo, a produção animal, a transformação agroalimentar, as pescas e a aquicultura, bem como os desafios da integração da biodiversidade nas estratégias empresariais.


Ondina Afonso
, presidente do Clube de Produtores Continente, no uso da palavra

 
DA REFLEXÃO À AÇÃO

Nas palavras de Ondina Afonso, presidente do Clube de Produtores Continente, a organização deste tipo de iniciativas está diretamente ligada à missão do CPC de transformar conhecimento em práticas concretas no terreno. “Quando o Clube de Produtores organiza uma conferência como esta, nomeadamente no tema da biodiversidade, nós estamos sem pre a pensar como vamos da teoria para a prática. E, portanto, é isto que é o nosso modo de estar”, afirma.

Mais do que promover o debate, o objetivo passa por criar condições para que os produtores possam avançar nos seus processos de transição para modelos mais sustentáveis e regenerativos. “É promover um espaço para troca de conhe cimento e também um espaço de motivação para aqueles produtores que estão a começar agora a fazer este caminho de transição e de transformação mais verde, regenerativa e depois a seguir passarmos à prática, passarmos à ação”, sublinha Ondina Afonso.

Segundo a presidente do Clube de Produtores Continente, esta aposta está alinhada com a visão do Continente para a produção agrícola e alimentar dos próximos anos. “No final do dia, o que nós queremos enquanto Continente é obvia mente, mais do que ter uma oferta de excelência é termos produtos mais sustentáveis e mais positivos para a natureza”, sustenta.

Quatro anos a celebrar a biodiversidade


Marta Barradas
, Category Specialist do Clube de Produtores Continente


A iniciativa assinalou a quarta edição consecutiva desta celebração promovida pelo Clube de Produtores Continente, uma aposta que tem vindo a consolidar-se como espaço de encontro entre os diferentes elos da cadeia agroalimentar. “Este dia já se realiza no Clube de Produtores pelo quarto ano consecutivo. Portanto, já é a quarta vez que no Dia Internacional da Biodiversidade nós celebramos desta forma, através de partilha, de ciência, de conhecimento”, destaca Marta Barradas, Category Specialist do Clube de Produtores Continente.


A responsável considera que uma das principais mais-valias do evento passa precisamente por juntar diferentes perspetivas em torno de um objetivo comum. “Neste Dia da Biodiversidade dedicamo-nos a isso mesmo, a trazer para a mesma conversa o retalho, a produção, a indústria, mas também a investigação e a ciência”, refere. O desafio, acrescenta ainda, passa por aproximar a biodiversidade da realidade quotidiana das empresas e dos produtores.

Mais do que uma data comemorativa, Marta Barradas acredita que o encontro representa uma oportunidade para acelerar mudanças no setor: “Esse foi aqui o grande objetivo. É uma forma de celebrar, de partilhar, e estamos seguros que é uma forma de acelerar esta componente estratégica que a biodiversidade pode ser para qualquer empresa do setor agroalimentar nacional”.


O QUE DISSERAM OS PARTICIPANTES SOBRE A INICIATIVA:


Humberto Delgado Rosa
, Perito em ambiente e ex-diretor para a Biodiversidade da Comissão Europeia

 
“É precisamente ver que há um grupo de produtores que entende que a biodiversidade não é só uma palavra simpática, mas um fator de negócio, de produção e de resiliência, de capacidade para aguentar e resistir melhor aos choques. É isso que sinto neste encontro. Já existe a perceção de que trabalhar com soluções baseadas na natureza, aliadas à tecnologia, para melhorar a produção, reduzir custos e oferecer produtos de maior qualidade ao consumidor, é uma via de futuro. Há uma transição que pode dar trabalho, mas vale a pena empreendê-la”.



Carla Brites
, INIAV

 
“Eu penso que a promoção destes dias acaba por incentivar sinergias entre todos os atores que podem intervir num processo de transição agroecológica que, de alguma forma, possa inverter este declínio da biodiversidade. Estas iniciativas são importantes porque podem sensibilizar todos os atores das fileiras, desde o produtor no campo até à indústria de transformação agroalimentar, passando pelas organizações de certificação e de consumo, para que todos estejam envolvidos num processo de transição agroecológica que desejamos que possa acontecer no futuro”.



Nuno Oliveira
, NBI

 
“Para compreendermos como é que a biodiversidade une todos estes pontos, temos de compreender exatamente o que é a biodiversidade. Não é nada mais, nada menos do que a vida a funcionar, ou seja, a forma como tudo se interliga. Às vezes parece uma coisa abstrata ou muito técnica, mas não é mais do que perceber como o solo suporta as plantas, como acontece a polinização, como as culturas crescem e como nós próprios, enquanto elementos do ecossistema, nos relacionamos com a paisagem e com a cultura. Este Dia da Biodiversidade promovido pelo Clube de Produtores é exatamente isso: um dia de integração, de criação de valor acrescentado e de crescimento de uma rede que pretende expandir o conceito de economia, através daquilo que sabemos fazer muito bem, que é produzir alimentos”.



Raquel Xavier
, BIOPOLIS – CIBIO


“Eu achei muito interessante e aprendi imenso. Sou da área académica e hoje foi um dia muito realizador. Respondeu e até superou as minhas expectativas. Conheci projetos espetaculares e, apesar de trabalharmos em áreas diferentes, encontramos muitos pontos em comum. Entre os oradores e a audiência conseguimos estabelecer uma boa conversa e trocar muitas ideias. Acho que é uma iniciativa excelente e espero que tenha muito sucesso também no futuro”.


Regiane Borsato, LIFE Institute


“Estamos aqui no Clube de Produtores Continente para partilhar e celebrar a importância da biodiversidade para a manu tenção do setor agrícola, pecuário e florestal. A biodiversidade é essencial para a manutenção de todos os recursos que impulsionam estes setores. Existe uma relação de troca entre a natureza e a produção agrícola, e foi precisamente isso que viemos partilhar: o trabalho que está a ser desenvolvido ao nível das métricas para comprovar o impacto positivo que o setor tem e pode ter, bem como as oportunidades associadas aos créditos de biodiversidade, que já podem ser colocados no mercado”.



Tiago Luís
, WWF


“Por um lado, este tipo de iniciativas dá a conhecer o tema da biodiversidade a vários atores da cadeia alimentar que, muitas vezes, não estão tão familiarizados com esta questão. Fala-se muito mais de alterações climáticas e os seus efeitos são hoje visíveis no terreno e sentidos pelos agricultores. Já o papel da biodiversidade nem sempre é tão percetível. Por isso, criar espaço para partilhar conhecimento sobre a sua importância, não só para produzir alimentos, mas também para fomentar o negócio, é extremamente importante”.



Gonçalo Pereira Miguel
, The Land Group


“Eu acho que foi importante trazer, para dentro da cadeia agroalimentar e fazer entender como é que, desde o produtor ao consumidor, aquilo que é feito no campo e as práticas que são aplicadas têm impacto na biodiversidade e, no final, também no consumidor, seja ao nível dos serviços dos ecossistemas, seja ao nível da saúde do alimento que está a consumir.

Um dos desafios que temos enfrentado tem sido mostrar aos produtores que, na pecuária, este tipo de práticas, que já sabíamos serem bastante mais favoráveis do ponto de vista ambiental, também são mais favoráveis do ponto de vista financeiro. Portanto, há aqui uma ligação na pecuária: a biodiversidade reforça, no fundo, o desempenho económico.

A biodiversidade é, sem dúvida, um ponto-chave para nós. Não há propriamente grande produção sem biodiversidade e, portanto, a diversidade é tanto um mecanismo para reduzirmos custos e sermos mais rentáveis como uma forma de reduzirmos o risco, porque somos mais resilientes quando temos mais diversidade”.

  

Artigo publicado na edição de julho de 2026, da Revista Voz do Campo

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