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O futuro da agricultura também se cultiva no feminino

OPINIÃO DE FILIPA VELEZ
SOCIÓLOGA

Durante muito tempo, o trabalho das mulheres fez crescer a agricultura portuguesa. Hoje, é também a sua visão, a sua competência e a sua liderança que ajudam a construir o futuro do setor.

Há mudanças que acontecem de forma silenciosa. Não fazem manchetes nem se impõem pela força. Acontecem devagar, como quem prepara a terra antes da sementeira ou espera pelo tempo certo da colheita. A liderança das mulheres na agricultura portuguesa é uma das mudanças mais significativas e promissoras do nosso tempo.

As mulheres não chegaram agora ao setor Agrícola. Sempre estiveram presentes. Trabalharam a terra, geriram explorações familiares, preservaram tradições, transmitiram conhecimento e garantiram a continuidade de muitas comunidades rurais.

Portugal é um país profundamente marcado pela agricultura. Dos olivais do Alentejo às vinhas do Douro, dos soutos de Trás-os-Montes aos pomares da Beira Interior - a agricultura molda a nossa paisagem, a economia e a identidade coletiva. Em cada uma destas regiões encontramos gerações e gerações de mulheres que, com presença, dedicação e resiliência, deixaram a sua marca.

À medida que o setor se tornou mais tecnológico, mais qualificado, mais competitivo internacionalmente e mais inovador, abriu espaço a novas competências, novos perfis e novas formas de liderar. A participação das mulheres nos processos de decisão deixou de ser apenas uma questão de igualdade para se afirmar como uma vantagem competitiva. Ainda assim, persistem barreiras que impedem uma representação mais equilibrada nos espaços de liderança.

Ao longo do meu percurso profissional tenho tido o privilégio de conhecer investigadoras, empresárias, agricultoras, dirigentes associativas, técnicas e jovens empreendedoras. Em contextos muito diferentes, encontrei um traço comum: uma liderança serena, competente, exigente e profundamente comprometida com aquilo que fazem.

Nunca senti que procurassem demonstrar ser melhores do que os homens. Procuravam apenas o seu espaço e fazer bem o seu trabalho. Construíram projetos, abriram mercados, valorizaram produtos e contribuíram para uma agricultura mais preparada.

De acordo com a Comissão Europeia, as mulheres gerem cerca de 32% das explorações agrícolas da União Europeia, permanecendo sub-representadas nos cargos de decisão e liderança. Em Portugal, embora representem cerca de 39% da força de trabalho agrícola e desempenhem um papel determinante nas explorações familiares, o seu contributo nem sempre se reflete na visibilidade e no reconhecimento que merecem.

Os desafios persistem.

As mulheres continuam, em média, a gerir explorações de menor dimensão económica e enfrentam maiores dificuldades no acesso à terra, ao investimento e ao financiamento. Não é por acaso que a Comissão Europeia tem vindo a reforçar a atenção dedicada a esta realidade, através de iniciativas como a Women in Farming Platform, criada para dar maior visibilidade ao trabalho das mulheres no setor, incentivar a partilha de conhecimento e reforçar redes de apoio e de capacitação.

Acredito que o caminho para ultrapassar estes desafios não passa por criar divisões entre homens e mulheres, nem por estabelecer comparações que em nada contribuem para o futuro da agricultura. Passa, acima de tudo, por garantir que cada pessoa encontra as mesmas oportunidades para desenvolver o seu potencial, independentemente do género.

Quando o foco deixa de estar no género e passa a estar na competência, percebemos que o setor está a evoluir. E essa evolução beneficia todos: homens e mulheres, produtores e consumidores, empresas e territórios.

Uma agricultura que desperdiça talento é uma agricultura menos preparada para enfrentar os desafios do futuro.

E o futuro da agricultura portuguesa constrói-se, igualmente, com a visão, a competência e a liderança das mulheres.

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