A Galp é a conhecida utility portuguesa do setor petrolífero, empresa cotada em que a Amorim Energia (55% família de Américo Amorim e 45% da Sonangol) detém 33% do capital e o Estado Português detém 8% das ações.
A Moeve é um operador espanhol também na área petrolífera, não cotada em bolsa, detido em 67% pela Mubadala Investment Company e em 33% pelo private-equity norte-americano Carlyle Grupo. O fundo soberano de Abu Dhabi, o IPIC-International Petroleum Investment Company fundiu-se com a Mubadala Development Company, resultando na Mubadala Investment Company (muitas vezes referida simplesmente como Mubadala) que controla a Moeve.
Na distribuição, a Galp detém 640 estações de serviço em Portugal e 600 em Espanha, enquanto a Moeve detém 1750 postos em Espanha e 250 em Portugal. Na distribuição à escala ibérica Galp+Moeve controlam 3240 postos, enquanto a Repsol detém 3500 postos.
No que toca ao negócio da refinação, a Galp na sua refinaria de Sines tem uma capacidade de processamento de 226 mil barris por dia (mbd), enquanto a Moeve nas suas refinarias de Huelva(190) e Cadiz (250) processa 440 mbd. A refinaria de Cadiz é ligeiramente maior do que a da Galp em Sines e a de Huelva é menor do que a de Sines. A de Huelva está ligada a um complexo petroquímico. Na refinaria de Sines estão em curso significativos investimentos no hidrogénio verde, no HVO (combustível vegetal hidrotratado), nos SAF para a aviação e nos biocombustíveis de segunda geração feitos através dos resíduos alimentares e agrícolas de acordo com os conceitos da economia circular. A refinaria de Sines avança assim na transição energética para ser também uma biorefinaria. Estima-se que o conjunto Galp+Moeve processará então 666 mbd, enquanto a Repsol processará 700 mbd. A Moeve tem ainda um acordo com a Repsol na refinaria desta em Tarragona. Aí a Repsol detém 100% da propriedade do negócio da refinação e existe uma joint-venture RepsolMoeve 50/50 para fabricar asfaltos.
Face a estes números, os dois novos operadores a criar na distribuição e na refinação permitiriam a esses novos operadores aproximarem-se em dimensão da Repsol.
Segundo notícias públicas, a Galp estará a negociar um acordo com a Mubadala (que é, na realidade, um dos fundos soberanos do Abu Dhabi, como atrás foi explicado), que inclui a cedência a esse fundo do controle da refinaria de Sines. Concretamente, Sines ficará integrada numa nova empresa, sediada em Espanha, que será detida em até 80% por um consórcio de duas gestoras de private equities - Mubadala (70%) e Carlyle (30%), ficando a GALP com um máximo de 20% deste novo operador. Levanta-se aqui uma primeira dúvida, na medida em que as capacidades de refinação das GALP e da MOEVE atrás referidas justificariam uma percentagem de 33,9% (226/666).
De fora deste negócio, ficam na Galp a produção de hidrocarbonetos, a venda de eletricidade e gás, o trading e as energias renováveis. Neste contexto, a Galp deixará de ser a clássica utility petrolífera, com integração vertical entre o upstream (produção) e downstream (refinação, marketing e distribuição de combustíveis), evoluindo para uma SGPS que detém negócios em vários segmentos da cadeia de valor da energia.
No que toca à distribuição de combustíveis, a nova empresa irá operar em Portugal com a marca Galp e em Espanha com a marca Moeve. Desaparecem, assim, a marca Moeve em Portugal e a marca Galp em Espanha. Desaparece, na verdade, uma das poucas marcas portuguesas com relevância no estrangeiro, movimento este começado no 11º governo constitucional com a entrada da então Petrogal em Espanha no negócio da distribuição.
Informação disponibilizada pelos Observatórios da Indústria, Inovação e Energia e de Políticas Económicas e Financeiras da SEDES – Associação para o Desenvolvimento Económico e Social, que reúne um conjunto de preocupações e recomendações que a respetiva Associação considera fundamentais para a defesa e salvaguarda do interesse público.