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Zero stocks de azeite em Portugal. Será que Trás-os-Montes deixou de contar?

Artigo de opinião de Francisco António Vilela Ribeiro

  • Médico Veterinário, especialista em segurança alimentar e apaixonado pelo mundo do azeite. Presidente da Cooperativa Agrícola dos Olivicultores de Murça (CAOM) e administrador da FENAZEITES, tem sido uma figura-chave na valorização do Azeite de Trás-os-Montes.  

Há números que parecem tão perfeitos que quase nos dão vontade de acreditar neles sem fazer perguntas.

Portugal vai terminar a campanha 2025/26 com zero toneladas de azeite em stock.
Zero.

Não é um número inventado. É o que consta da tabela da Comissão Europeia relativa ao mercado do azeite, baseada nas notificações dos Estados-Membros. Para Portugal, a Comissão regista 179.060 toneladas de produção comunicada, estima um consumo de 64.395 toneladas e aponta para zero toneladas de stock final em 30 de setembro de 2026. Espanha aparece com 259.600 toneladas e Itália com 125.000. [Agriculture and rural development]

Como se chega a zero?*
Sobretudo quando olhamos para o que acontece no terreno.
O próprio Sistema de Informação de Mercados Agrícolas, do GPP, registou durante a campanha 2025/26 situações em que as existências provenientes da campanha anterior condicionavam o escoamento e, em Trás-os-Montes, períodos em que as quantidades de azeite a granel transacionadas eram muito reduzidas. 
Não é uma opinião.
É informação oficial portuguesa. E é aqui que começa a verdadeira questão.
Portugal dispõe de sistemas de informação sobre o setor oleícola. O GPP possui o SIAZ — Sistema de Informação do Azeite e Azeitona de Mesa — e, historicamente, publicou informação sobre existências de azeite recolhida junto dos lagares.

Portugal está também sujeito às regras europeias que obrigam os Estados-Membros produtores de mais de 20 mil toneladas a comunicar informação sobre as existências do setor.

Ou seja: a informação existe.
O que não temos, pelo menos com a mesma clareza e regularidade que encontramos noutros países produtores, é uma fotografia pública, atualizada e facilmente compreensível que permita responder:
Quanto azeite temos?
Onde está?
Quanto está a granel?
Quanto já foi vendido?
Quanto permanece nas cooperativas e lagares?
E a que velocidade está a ser escoado?

Basta olhar para Espanha.

O Ministério da Agricultura espanhol publica regularmente dados sobre produção, movimentos, comercialização e existências. E o mercado de origem é acompanhado quase semanalmente.

A AEMO tem alertado para a queda dos preços e para a perda de rentabilidade do olival. O seu estudo de custos de 2026 conclui que os custos médios de produção aumentaram cerca de 57% nos últimos seis anos. Os custos variam atualmente entre 3,08 €/kg nos sistemas mais eficientes e 5,31 €/kg no olival tradicional não mecanizável de sequeiro. Com preços médios em origem na ordem dos 3,26 €/kg, uma parte maioritária do olival espanhol está a produzir abaixo dos seus custos. 

Há ainda um número da AEMO que deveria fazer-nos pensar.
Se há dez anos 3 euros por quilograma podiam ser considerados um bom preço, hoje, considerando a evolução dos custos, seriam necessários cerca de 5 euros por quilograma para representar o mesmo valor económico. 

Três euros hoje não são os três euros de ontem.
E é precisamente por isso que podemos estar perante um paradoxo perigoso: preços em origem que começam a aproximar-se, em termos nominais, de valores que nos fazem recordar há duas décadas, mas com uma estrutura de custos completamente diferente.
A mão de obra não custa o mesmo.
A energia não custa o mesmo.
Os fertilizantes não custam o mesmo.
A maquinaria não custa o mesmo.

E, para o olival tradicional e de montanha, produzir continua a ser incomparavelmente mais difícil do que num modelo intensivo altamente mecanizado.

Em Itália, a transparência é ainda mais evidente.

O Ministério da Agricultura, através do sistema Frantoio Itália, publica regularmente as existências registadas pelos operadores. Em junho de 2026 estavam registadas cerca de 258 mil toneladas de azeites em stock - menos 6,7% do que no mês anterior, mas ainda 46,4% acima do nível de junho de 2025, permitindo conhecer também a composição dessas existências.

Ninguém precisa de perguntar se existe azeite.
Sabe-se quanto existe. E discute-se publicamente o problema. Discute-se a velocidade de venda, a procura, os preços, as importações e a capacidade de escoamento.

Em Portugal, pelo contrário, parece que conseguimos chegar ao curioso paradoxo de termos informação suficiente para comunicar a Bruxelas que o stock final estimado será zero, mas não informação pública suficiente para o produtor português conhecer, de forma simples, a fotografia atual do seu próprio mercado.

E Trás-os-Montes?
Será que também deixou de contar?
Esta pergunta é estrutural. Portugal não é um território agrícola homogéneo. Não produz azeite da mesma forma em todo o país. Não tem os mesmos custos, as mesmas variedades, a mesma dimensão das explorações, a mesma mecanização, a mesma disponibilidade de água ou a mesma capacidade de armazenamento.

Temos um Alentejo onde os sistemas intensivos e superintensivos assumem uma dimensão crescente.

E temos um Trás-os-Montes onde o olival tradicional, muitas vezes de pequena dimensão, de sequeiro, implantado em terrenos difíceis e com uma enorme importância económica, ambiental e social, continua a representar uma realidade completamente diferente.
Podemos somar tudo numa estatística nacional. Mas não podemos fingir que a realidade económica é a mesma.

Um litro de azeite armazenado durante meses numa cooperativa transmontana não deixa de existir porque uma folha de cálculo nacional não o evidencia da mesma forma.
E um produtor que ainda não conseguiu vender o seu azeite não vive numa realidade económica igual à de quem produz em sistemas de grande escala, com outra estrutura de custos, produtividade e capacidade comercial.

É por isso que o “zero” merece ser explicado.
Não para acusar Bruxelas. Não para acusar o GPP. E muito menos para inventar stocks que não conseguimos quantificar.

Mas para fazer uma pergunta simples:
Se a realidade no terreno é diferente, o que está exatamente a medir esse zero?
Porque o problema não é apenas saber quantas toneladas existem.

É saber quem tem essa informação. É saber quem a utiliza. É saber porque não é divulgada de forma transparente ao setor português. E é saber se estamos a construir políticas agrícolas nacionais com uma fotografia suficientemente próxima da realidade dos produtores.
Enquanto isso, em Espanha e Itália, os stocks são tema de debate público. Fala-se da falta de compradores. Fala-se da menor atividade no mercado de origem. Fala-se da pressão sobre os preços. Fala-se do azeite que continua nos armazéns. Fala-se do que poderá acontecer quando chegar a nova campanha.

Em Portugal, parece que preferimos o silêncio.
Talvez porque seja mais confortável.

Mas uma coisa é certa: a nova campanha não começa com uma folha de cálculo em branco.

Começa com aquilo que ainda está nos depósitos. Começa com aquilo que ainda não foi vendido. Começa com a capacidade — ou incapacidade — de escoar a produção anterior. E começa com a pergunta que ninguém parece querer fazer: Quanto azeite temos realmente em Portugal?

Porque se a resposta oficial é “zero” enquanto previsão de stock final de campanha, talvez seja tempo de explicar aos produtores o que esse zero significa.

E, sobretudo, garantir que, quando falamos de Portugal, Trás-os-Montes continua a contar.

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