Sistemas agroflorestais resilientes às alterações climáticas: um novo paradigma para a sustentabilidade agrícola
Os sistemas agroflorestais têm uma presença relevante na paisagem rural portuguesa, destacando-se o montado como o exemplo mais emblemático e extenso. A sua distribuição é heterogénea, refletindo as diferentes condições edafoclimáticas do território, que influenciam a estrutura da paisagem e as práticas de gestão. Estes sistemas desempenham um papel fundamental na resposta aos desafios do desenvolvimento rural e das alterações climáticas, fornecendo diversos serviços de ecossistema de elevada relevância para a sociedade, como a conservação da biodiversidade, a regulação climática, a manutenção do balanço hídrico, a retenção de nutrientes e a proteção dos solos (GPP, 2021).
A transição para sistemas agroflorestais mais sustentáveis passa, entre outros aspetos, pela introdução de germoplasma vegetal inovador, com elevada qualidade fitossanitária e selecionado pela sua resiliência às alterações climáticas, de modo a reduzir a vulnerabilidade dos sistemas agrícolas. Esta abordagem é particularmente relevante nos sistemas agroflorestais mediterrânicos, caracterizados por elevada diversidade estrutural e funcional e pela integração de espécies como o sobreiro, o pinheiro, a oliveira, o castanheiro e a amendoeira. Neste contexto, são essenciais estratégias integradas que articulem a investigação fundamental e aplicada, promovam a conservação da biodiversidade e apoiem a transição verde, tendo em conta as especificidades de cada território.
Entre os elementos-chave desta transição destacam-se várias leguminosas, incluindo as denominadas leguminosas negligenciadas, subutilizadas ou “órfãs”. Embora muitas destas espécies ou variedades apresentem cadeias de valor pouco desenvolvidas ou sejam ainda pouco estudadas, organizações internacionais reconhecidas consideram-nas importantes para a segurança alimentar e a adaptação às alterações climáticas (Padulosi et al., 2013). Constituem frequentemente uma fonte relevante de proteína vegetal para a alimentação humana e animal em áreas rurais carenciadas. A sua capacidade de estabelecer simbioses com bactérias fixadoras de azoto e fungos micorrízicos contribui para melhorar a fertilidade e a saúde do solo, reduzindo a dependência de produtos de síntese química. Muitas vezes adaptadas a condições adversas, estas leguminosas são componentes importantes de práticas agrícolas e agroecológicas sustentáveis, como a rotação de culturas, os cobertos vegetais e o cultivo consociado, contribuindo para a preservação da biodiversidade e o controlo de pragas e doenças.
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Implementação do ensaio piloto pelo MORE CoLAB e Deifil no BioLivingLABs no sistema agroflorestal/leguminosa- olival/tremoceiro (Lupinus albus L.).
O FORECAST é uma iniciativa de cooperação entre países mediterrânicos que visa desenvolver soluções inovadoras para revitalizar os sistemas agroflorestais locais (https://www.forecast-project.eu). A parceria reúne nove entidades de investigação e inovação de Itália, França, Portugal, Tunísia e Argélia e é financiada pela Parceria para a Investigação e Inovação na Região Mediterrânica (PRIMA), com o apoio da União Europeia e de entidades financiadoras nacionais dos países participantes. O projeto assenta na introdução de leguminosas negligenciadas, adaptadas às condições edafoclimáticas locais, em sistemas agroflorestais existentes, com o objetivo de desenvolver soluções ajustadas à diversidade de contextos da região mediterrânica. Inclui ainda a aplicação de ferramentas de agricultura de precisão, apoio à decisão e gestão de recursos, envolvendo diferentes atores das cadeias de valor. Paralelamente, promove a valorização destas espécies através do desenvolvimento ou reforço de cadeias de valor e de aplicações alimentares e não alimentares, como formulações de inóculos micorrízicos e soluções para o revestimento e a revigorização de sementes. Além de contribuir para a viabilidade económica e a sustentabilidade dos territórios rurais, o FORECAST integra uma abordagem transversal de inclusão e igualdade de género, promovendo um setor agroflorestal mais inclusivo e equilibrado.
O sistema agroflorestal/leguminosa ˗ olival de sequeiro/tremoceiro: O caso de estudo dos parceiros MORE CoLAB/DEIFIL
Beneficiando da infraestrutura criada no âmbito do projeto BioLivingLABs, financiado pelo COMPETE2030, no Polo de Inovação de Mirandela, e em resposta aos desafios impostos pelo FORECAST, o MORE CoLAB e a DEIFIL uniram-se para implementar um ensaio-piloto destinado a estudar os efeitos da introdução do tremoceiro-branco (Lupinus albus L.) como coberto vegetal numa parcela de olival de sequeiro integrado quando comparado com uma parcela não intervencionada (controlo). No primeiro ano, destaca-se a implementação e operacionalização do demosite, concebido como uma plataforma para atividades experimentais e de demonstração ao longo do projeto. Antes da sementeira, realizaram-se testes de germinação para comparar o desempenho de sementes portuguesas da variedade comercial ‘Misak’ com o de uma variedade local, bem como análises físico-químicas do solo para caracterizar as condições iniciais do local experimental. Ao longo do ciclo da cultura, foram avaliados diversos parâmetros agronómicos, nomeadamente a densidade e altura das plantas, o teor de clorofila, a fenologia e a cobertura do solo, assim como indicadores ecológicos e funcionais, incluindo percentagem de infestantes, a ocorrência doenças, aliada à monitorização da biodiversidade de artrópodes. Na primeira campanha, verificou-se o estabelecimento bem-sucedido de Lupinus albus em condições mediterrânicas de sequeiro, estando em análise o rendimento em sementes após a colheita. Paralelamente, a DEIFIL realizou ensaios laboratoriais e de viveiro para selecionar e avaliar microrganismos promotores do crescimento da oliveira, com vista à identificação de combinações compatíveis para futuras formulações bioestimulantes adaptadas ao olival. As iniciativas em curso permitirão avaliar o desempenho produtivo e ambiental do olival e do sistema em estudo, desenvolvendo soluções para reforçar a sua resiliência e sustentabilidade.
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Crescimento de Lupinus albus no ensaio piloto implementado no BioLivingLABs, no Pólo de Inovação de Mirandela.
Os Living Labs têm vindo a afirmar-se como ferramentas estratégicas para promover a inovação aberta, especialmente em contextos onde a sustentabilidade e a adaptação às alterações climáticas são prioridades. No projeto FORECAST, esta abordagem materializa-se numa rede de Living Labs distribuída por vários países, centrada no co-design, teste e validação de sistemas agroflorestais, visando reforçar a sustentabilidade ambiental, a resiliência climática e a viabilidade socioeconómica. As atividades a implementar incluem ensaios de demonstração, workshops participativos e processos iterativos de validação, aproximando o conhecimento científico das necessidades práticas do território.
Reforçar a ligação entre ciência, práticas agrícolas e políticas públicas
Através do FORECAST, procura-se construir uma visão comum entre os diferentes Living Labs da rede de parceiros, seguindo uma abordagem multiatores baseada na identificação e participação ativa de utilizadores finais, incluindo instituições de investigação, associações de agricultores, PME, organizações sem fins lucrativos, municípios e consórcios temáticos. Esta abordagem assegura uma participação inclusiva e representativa. Em conjunto, os Living Labs, e em particular o BioLivingLABs, promovem a implementação colaborativa de soluções sustentáveis, ancoradas no território e apoiadas no conhecimento coletivo, para responder aos desafios da agricultura contemporânea.

O FORECAST procura desenvolver soluções concretas para responder aos desafios locais, através de um conjunto integrado de recursos genéticos, soluções biológicas, práticas agronómicas e ferramentas de apoio à decisão. Estes resultados contribuirão para a adoção de sistemas agroflorestais mais eficientes, resilientes e sustentáveis na região mediterrânica.
Referências bibliográficas: Gabinete de Planeamento, Políticas e Administração Geral (GPP). (2021). CULTIVAR – Cadernos de Análise e Prospetiva: Sistemas Agroflorestais, n.º 21, dezembro de 2020. (consultar publicação)
Padulosi, S., Thompson, J., & Rudebjer, P. (2013). Fighting poverty, hunger and malnutrition with neglected and underutilized species (NUS): Needs, challenges and the way forward. Bioversity International, Rome.
Agradecimentos: O projeto FORECAST é financiado pelo programa PRIMA financiado pela União Europeia e pela Fundação para a Ciência e Tecnologia com a referência PRIMA/0008/2024 (DOI: 10.54499/PRIMA/0008/2024). O projeto BioLivingLABs (COMPETE2030-FEDER-01458900) recebeu financiamento do PT2030, através do COMPETE2030, sendo cofinanciado pelo Fundo Europeu de Desenvolvimento Regional (FEDER). Os autores agradecem à CCDRN pela colaboração na instalação do ensaio piloto na Quinta do Valongo.
Rose Marie Sousa1; Andreia Afonso1; Ana Catarina Ribeiro1; Mikael Moura2; Susana Araújo2
1 Deifil Technology Lda., Rua do Talho 80 – Serzedelo, 4830-704 Póvoa de Lanhoso, Portugal.
2 Laboratório Colaborativo Montanhas de Investigação (MORE), Edifício do Brigantia Ecopark, Avenida Cidade de Léon 506, 5300-358, Bragança, Portugal.