João Sequeira - Engenheiro Zootécnico
A nível mundial: O Índice de Preços da Carne da FAO atingiu um novo máximo histórico em agosto, situando-se nos 128,0 pontos, mais 0,6% do que em julho e quase 5% acima do valor registado há um ano (FAO, 2026). A subida foi impulsionada pela contínua valorização da carne de bovino e de ovino, que superou a estabilidade da carne suína e a descida da carne de aves (FAO, 2026).
Os preços internacionais da carne de bovino alcançaram mesmo um novo recorde, sustentados pela grande procura nos Estados Unidos, que beneficiou as cotações australianas, e pela procura crescente da China, que manteve os preços de exportação brasileiros elevados apesar da redução das vendas aos Estados Unidos na sequência de novas tarifas (FAO, 2026).
Em Portugal, as cotações acompanham esta tendência internacional, embora com oscilações semanais próprias dos mercados de bolsa (Observatório Agroalimentar, 2026). Os boletins do Observatório Agroalimentar têm registado, ao longo de 2026, uma tendência de subida sustentada nos produtos da fileira pecuária (Observatório Agroalimentar, 2026). As cotações de bovino divulgadas semanalmente pela CONFAGRI e pelo Agroportal, através da Bolsa do Bovino e das praças de referência como Montijo, mostram um mercado atento à oferta de animais e à evolução dos custos de produção (CONFAGRI, 2026).
É certo que os valores negociados nas últimas semanas estão abaixo dos valores em período homólogo do ano passado, contudo é expectável o aumento partir do mês de outubro.
Os Açores são um dos três polos nacionais de maior expressão do setor, a par do Norte e do Alentejo (Gabinete de Planeamento, Políticas e Administração Geral, 2022). Os produtores açorianos estão, por esta razão, diretamente expostos às oscilações do mercado nacional e europeu, com a agravante do transporte marítimo.
Neste sentido a produção dever-se-á basear na melhoria da oferta. Como? Tendo uma produção com bovinos de maior rentabilidade de carcaça, valorização do produto pela fileira, investimento na extensificação e agricultura regenerativa, entre os fatores.
Na União Europeia, a produção de carne de bovino deverá continuar a diminuir em 2026 e 2027, em consequência do declínio estrutural do efetivo de vacas, com uma quebra estimada em 2,2% este ano, podendo agravar-se em 2027 (Comissão Europeia, 2026). A produção de carne de bovino deverá cair 2% face a 2025, para um total de 6,25 milhões de toneladas, uma redução ligeiramente superior à prevista no início do ano (AHDB, 2026). Os preços haviam baixado no início do ano, no entanto, deverão manter-se elevados devido às persistentes restrições de oferta (Comissão Europeia, 2026).
Nos Estados Unidos, um grande consumidor de a nível mundial, o USDA tem sucessivamente revisto em baixa as suas previsões de produção de carne de bovino para 2026, situação associada a um ritmo de abate mais lento e a um efetivo em contração (USDA-ERS, 2026).
No Brasil, o indicador do boi gordo Cepea/Esalq fechou o primeiro semestre de 2026 em alta, com valores 4,6% superiores ao registado em janeiro (Portal do Agronegócio, 2026). O pico do semestre foi alcançado em abril (Portal do Agronegócio, 2026). Para a segunda metade do ano, fatores como o consumo interno, os custos de produção, as condições das pastagens na estação seca e a continuidade da procura chinesa serão determinantes na formação dos preços (Portal do Agronegócio, 2026). O mercado mostra-se otimista, existindo uma valorização crescente até ao final do ano, com todos os indicadores a apontar para subida e prevendo-se em dezembro os valores máximos anuais. (Farmnews, 2026).
A procura chinesa continua a ser decisiva para o equilíbrio do mercado mundial, embora com sinais de abrandamento face ao ritmo recorde do primeiro semestre, à medida que as cotas de importação sem tarifa adicional se vão preenchendo. O esperado aumento das necessidades de importação dos Estados Unidos deverá levar exportadores como a Austrália a redirecionar parte do seu produto para o mercado norte-americano, alterando os equilíbrios habituais de abastecimento a outros destinos.
Riscos a acompanhar
Persistem fatores de incerteza para o segundo semestre, entre os quais as condições climatéricas e o estado das pastagens em várias regiões produtoras, que condicionam as decisões de retenção de efetivos. A resposta do consumidor final constitui também um fator de incerteza, uma vez que já se observam sinais de ajuste face à subida dos preços, através da procura de cortes mais económicos ou da substituição por outras proteínas.
Tudo aponta para um segundo semestre de 2026 marcado pela continuidade de uma oferta baixa e de preços que poderão ser elevados, num equilíbrio que continuará a depender, em larga medida, do comportamento da procura chinesa e da evolução das condições de produção nos principais países exportadores.
A nível nacional esta tendência também será vinculativa, com a necessidade cada vez mais acentuada de matéria-prima por parte dos industriais e a diminuição das importações de mercados fora da Europa.
Referências bibliográficas: Agricultural and Horticultural Development Board (2026). EU Red Meat Short Term Outlook: Mid-Year Update 2026. Kenilworth: AHDB. Comissão Europeia, Direção-Geral da Agricultura e do Desenvolvimento Rural (2026). Short-Term Outlook for EU Agricultural Markets, julho de 2026. Bruxelas: Comissão Europeia. CONFAGRI – Confederação Nacional das Cooperativas Agrícolas e do Crédito Agrícola de Portugal (2026). Bolsa do Bovino. Direção Regional do Ambiente e Ação Climática dos Açores (2026). Agricultura e Recursos Florestais: Produção Pecuária. In Relatório do Estado do Ambiente dos Açores. Farmnews (2026). Preço do boi gordo: maior alta diária de 2026 em julho (20), julho de 2026. Food and Agriculture Organization of the United Nations (2026). FAO Meat Price Index. Roma: FAO. Gabinete de Planeamento, Políticas e Administração Geral (2022). Análise Setorial: Carne de Bovino. Lisboa: GPP, Ministério da Agricultura. Observatório Agroalimentar de Portos e Mercados Agroalimentares (2026). Boletim Resumo: Evolução de Preços por Setor e Fase da Cadeia, períodos 3 e 4 de 2026. Portal do Agronegócio (2026). Preço do boi gordo encerra primeiro semestre de 2026 em alta, impulsionado por oferta restrita e exportações aquecidas, 2 de julho de 2026. United States Department of Agriculture, Economic Research Service (2026). Livestock, Dairy, and Poultry Outlook, vários números de 2026. Washington, D.C.: USDA-ERS.