Por: Eng.ª Cátia Mesquita, Cooperativa Agrícola de Vila do Conde
O stress térmico faz com que as vacas diminuam a ingestão de matéria seca, para diminuir o calor gerado pela fermentação no rúmen (digestão). Em simultâneo, os animais despendem mais energia para manter a temperatura corporal estável (homeostasia), o que se traduz numa diminuição da produção de leite. As forragens (como silagem de milho ou de erva), quando a temperatura ambiente sobe, perdem a estabilidade aeróbia e deterioram-se, perdendo valor nutricional. Esta perda da estabilidade e da qualidade nutricional das forragens, combinada com a menor capacidade de termorregulação da vaca, resulta numa quebra na produção de leite e na perda de componentes do leite, como a gordura.
A instabilidade aeróbia das forragens acelera a proliferação de microrganismos indesejáveis: leveduras e fungos. O oxigénio penetra na frente dos silos e, com as temperaturas elevadas, as leveduras multiplicam-se. Esta instabilidade irá reduzir os conteúdos em ácidos orgânicos, açúcares solúveis e compostos nitrogenados solúveis, resultando no aumento do conteúdo de frações fibrosas, perda de nutrientes digestíveis e energia.
Efeitos da instabilidade aeróbia nas silagens provocada pelo calor:
• Perda de Palatabilidade: A alteração do odor e do sabor do alimento. Vacas em stress térmico, que já têm o apetite reduzido, rejeitam mais facilmente uma silagem instável e com fungos.
• A silagem quando “aquece” perde grande parte do seu valor nutricional. A vaca baixa a ingestão e o pouco que come tem menos nutrientes.
• Se a silagem tiver menos fibra digestível ou apresentar micotoxinas, o ambiente ruminal destabiliza-se. A menor ruminação reduz a produção de saliva (o tampão natural), aumentando o risco de acidose.
• Queda na Gordura do Leite: A digestão da fibra da silagem pelas bactérias ruminais produz acetato, o precursor da gordura do leite. Com a fermentação ruminal prejudicada pela má qualidade da silagem e pelo calor, a síntese de gordura cai.
Estratégias de Maneio e Conservação para mitigar estes efeitos:
• Colheita no ponto ideal de maturação: silagem de milho com 30 a 35% de matéria seca (intervalo que oferece o melhor equilíbrio entre densidade, fermentação e estabilidade). Silagens muito secas são mais difíceis de compactar e retêm mais oxigénio.
• Compactação correta: garantir uma alta densidade de compactação no momento da ensilagem, por forma a expulsar o oxigénio residual.
• Vedação hermética: Utilizar lonas de alta qualidade ou filmes de barreira contra oxigénio.
• Avanço rápido da frente do silo: é crucial remover pelo menos 30 a 40 centímetros diários da frente do silo para evitar que o oxigénio inicie a deterioração aeróbia.
• Uso de inoculantes e aditivos: que inibem o crescimento de leveduras e mantém a silagem estável por mais tempo após a sua abertura.
• Frequência de distribuição do unifeed: deve-se optar por distribuir a alimentação duas vezes ao dia, preferencialmente ao início da manhã e ao final do dia, quando as temperaturas estão mais baixas e as vacas têm maior apetite.
• Controlo Ambiental: investir em sistemas de ventilação (ventiladores) e resfriamento (aspersores) para manter o conforto térmico dos animais.
• Qualidade da Água: garantir água fresca, limpa e abundante, uma vez que o consumo pode aumentar em até 50% durante dias quentes.
Se conseguirmos preservar o valor nutricional, a frescura e a estabilidade das forragens, estaremos a reduzir o impacto negativo do calor na produção de leite, contribuindo para que a quantidade de leite no tanque se mantenha mais estável durante os meses de maior risco de stress térmico.
Fonte: APROLEP