Leia o artigo completo na edição de outubro 2026 da Revista Voz do Campo. Subscreva e receba todos os meses conteúdos exclusivos.
O projeto SIAMESE - Soluções Inovadoras para um AMEndoal mais SustentávEl é promovido pelo consórcio DEIFIL/IPB/MORE CoLAB/CNCFS e pretende responder à necessidade “de produzir mais com menos”. Através de cinco linhas de investigação e desenvolvimento interligadas, o projeto pretende gerar soluções inovadoras especificamente desenhadas para o amendoal português, incluindo a produção de plantas micropropagadas de elevada qualidade de variedades autóctones, o desenvolvimento de um novo híbrido, a obtenção de plantas microenxertadas e a criação de um bioestimulante adaptado a esta cultura.
O setor da amêndoa tem registado um crescimento expressivo em Portugal. Em 2024, o país ocupava o segundo lugar na Europa em área de cultivo (73 774 ha) e volume de produção (cerca de 91 kt amêndoa com casca), posicionando-se entre os três principais produtores europeus, juntamente com Espanha (1º) e Itália (3º) (INE, 2025; FAOSTAT, 2024). As regiões do Norte e do Alentejo concentram a maior parte da produção nacional, representando, em conjunto, 82,4% da área total de amendoal (INE, 2025).
Erosão da diversidade varietal no amendoal português
Apesar desta dinâmica, a estrutura varietal do amendoal português tem sido fortemente dominada por variedades comerciais de origem estrangeira, sobretudo provenientes de programas de melhoramento estrangeiros (p.e., Antoñeta, Bellona, Guara, Soleta, Vairo, Lauranne) (Martins et al., 2022). Esta tendência tem contribuído para o declínio das variedades tradicionais portuguesas, frequentemente associadas a menor produtividade, mas detentoras de diversidade genética e de características adaptativas relevantes, tais como a maior tolerância à seca e a resistência a pragas e doenças.
Potencial produtivo desconhecido
As variedades tradicionais portuguesas permanecem insuficientemente caracterizadas ao nível morfológico, agronómico e molecular, desconhecendo-se o seu potencial produtivo. Num contexto de alterações climáticas e de crescente pressão sobre os recursos naturais, a preservação e valorização destas variedades são fundamentais.
Projeto pretende criar várias inovações para o amendoal
É neste enquadramento que o projeto SIAMESE, um projeto I&D em copromoção, cofinanciado pelo NORTE 2030 e liderado pela DEIFIL (https://www.deifil.pt/projeto/siamese), propõe um conjunto integrado de atividades que visam criar várias inovações para o amendoal nacional, com enfoque em material de elite adaptado às condições edafoclimáticas locais, com o objetivo de acrescentar valor às variedades tradicionais portuguesas e promover uma adaptação para sistemas produtivos mais resilientes.
A seleção de genótipos elite baseada na caracterização molecular, fenológica e organolética dos frutos
Uma das principais linhas de trabalho incide na seleção, caracterização e valorização de variedades tradicionais, com vista à identificação de genótipos de elevado interesse agronómico. Para tal, o consórcio beneficia do acesso a recursos únicos, reunidos na coleção de germoplasma instalada na Quinta do Valongo em Mirandela, que acolhe 49 variedades de amendoeira, incluindo 21 variedades tradicionais portuguesas. A caracterização sistemática que está em curso permitirá colmatar lacunas de conhecimento ainda existentes ao nível da morfologia, comportamento agronómico, perfis genéticos e potencial produtivo destas variedades. Paralelamente, decorre o estudo do desenvolvimento do fruto e a avaliação das suas características organoléticas, reconhecendo que tanto o genótipo como as condições edafoclimáticas influenciam a qualidade final da amêndoa (Cordeiro & Monteiro, 2001). Esta análise integrada constitui um passo importante para compreender como as variedades tradicionais poderão responder a cenários climáticos futuros, sendo indispensável para selecionar materiais com qualidade diferenciada mais adaptados e com melhor desempenho.
Micropropagação e conservação in vitro
Outra componente central do projeto é a micropropagação de variedades tradicionais portuguesas de amendoeira para responder à limitada disponibilidade de plantas no mercado, iniciativa coordenada DEIFIL, líder da operação. A cultura in vitro surge como uma solução estratégica para garantir a multiplicação rápida, a uniformidade e a qualidade fitossanitária do material vegetal. Esta ganha especial relevância e impacto quando é aplicada para a conservação ativa da diversidade genética. Até ao momento, foram selecionados e georreferenciados acessos de várias variedades, incluindo ‘Bonita de São Brás’, ‘Casanova’, ‘Dona Virtude’, ‘Parada’ e ‘José Dias’. Atualmente, a DEIFIL desenvolve os trabalhos de estabelecimento e otimização da multiplicação in vitro, com o objetivo de desenvolver um sistema integrado que combine produção clonal em larga escala, microenxertia e micorrização para obtenção de plantas com características diferenciadas. Prevê-se a disponibilização dos primeiros lotes a partir de 2028.
Estabelecimento e otimização da multiplicação in vitro
Em paralelo, foi iniciado um programa de melhoramento genético, focado na introdução de características agronomicamente relevantes, como a floração tardia e a autocompatibilidade. Foram realizados trinta e sete cruzamentos intervarietais (total de 1248 flores polinizadas manualmente) entre seis variedades comerciais e cinco variedades tradicionais portuguesas, estas últimas selecionadas com base nas suas características agronómicas e na qualidade comercial do fruto. A avaliação do desenvolvimento dos frutos após o vingamento será determinante para identificar combinações promissoras no contexto do melhoramento do amendoal nacional.

.jpg)
Isolamento de microrganismos da rizosfera e raízes de amendoeiras
Um produto bioestimulante adaptado, inspirado no amendoal
O projeto contempla ainda o desenvolvimento de um bioestimulante específico para o amendoal, baseado no isolamento e identificação de microrganismos associados à rizosfera e às raízes de amendoeiras. Utilizando ferramentas de biologia molecular, o consórcio está a estudar, numa primeira fase, o microbioma de plantas-mãe selecionadas para identificar estirpes microbianas com potencial para promover o crescimento de porta-enxertos e plântulas das variedades tradicionais. Este estudo, coordenado pela DEIFIL, tem como finalidade desenvolver um produto bioestimulante adaptado ao amendoal que promova a resiliência das plantas, especialmente em condições de sequeiro, através do estabelecimento de relações simbióticas eficazes.
Polinização manual de flores de amendoeiras na Quinta do Valongo (Mirandela)
Apostas inovadoras com impacto
Ao integrar ferramentas de biotecnologia avançada com conhecimento agronómico, o projeto SIAMESE contribui, simultaneamente, para a valorização das variedades tradicionais portuguesas, com forte contributo na preservação da biodiversidade nacional, e para o desenvolvimento de soluções inovadoras para o amendoal português. As soluções desenvolvidas pretendem promover sistemas de produção mais sustentáveis e resilientes, mais orientados para os desafios climáticos e as exigências do mercado, podendo abrir igualmente caminho a novas formas de certificação que assegurem a autenticidade e qualidade do material vegetal.
Cordeiro, V. & Monteiro, A. (2001). Almond growing in Trás-os-Montes region (Portugal). In III International Symposium on Pistachios and Almonds, 591, 161-165. URL: https://doi.org/10.17660/ActaHortic.2002.591.22
FAOSTAT (2024) - Crops and livestock products.[cit. 2026.06.11] URL: https://www.fao.org/faostat/en/#data/QCL
INE (2025) - Estatísticas Agrícolas 2024. Instituto Nacional de Estatística, Lisboa. [cit. 2026.06.11] URL: https://www.ine.pt/xurl/pub/66302566. ISSN 0079-4139. ISBN 978-989-25-0716-3
Martins, R., Faustino, A., João, S., Jerónimo, E., & Marum, L. (2022) - Cultura da Amendoeira e suas variedades no Alentejo. Voz Do Campo. Edição dezembro de 2022.
Da autoria das entidades copromotoras do SIAMESE:
O projeto SIAMESE (NORTE2030-FEDER-01465500) é cofinanciado pelo programa regional NORTE 2030, do Portugal 2030, e por fundos da União Europeia. Os autores agradecem a colaboração da CCDRN na disponibilização do material genético de base da Coleção de Germoplasma da Quinta do Valongo (Mirandela) bem como ao Centro de Experimentação Agrária de Tavira (CEAT) pela cedência de material genético adicional para a realização de cruzamentos controlados.