Num momento em que a agricultura portuguesa enfrenta inúmeros desafios a ANPROMIS – Associação Nacional de Produtores de Milho e Sorgo – vai levar a cabo o seu XIV Congresso Nacional do Milho, marcado para os dias 15 e 16 de fevereiro, no CNEMA, em Santarém. 2023 é também o ano em que a Associação comemora o seu 35.º aniversário, mais um excelente mote para uma Entrevista com o seu presidente, Jorge Neves.

Jorge Neves – Presidente da Anpromis

Depois de um ano marcado pela Guerra, Depois de um ano marcado pela Guerra, altas temperaturas e falta de água (…), altas temperaturas e falta de água (…), qual é o atual estado da cultura do milho em Portugal?

O setor do milho é bastante resiliente pois é composto por agricultores que já passaram por muitas situações difíceis, como a baixa de preços que ocorreu desde 2014 até 2020/ 2021, altura em os produtores de milho não ganharam dinheiro. A própria globalização de alguma forma também veio provocar esta situação de preços mais baixos e Portugal, sendo um país extremamente dependente de importações, ficou completamente exposto àquilo que é a competição de preços a nível mundial.

Surgiu igualmente um conjunto de players que tinham pouca atividade ao nível da exportação e que neste momento são grandes exportadores mundiais, como é o caso do Brasil, da Argentina e da Ucrânia (mesmo apesar da Guerra). Neste momento a previsibilidade já não existe e estamos expostos àquilo que são normalmente os excedentes da produção. Ou seja, aquilo que o país produtor produz para além do seu consumo é o que entra no mercado mundial. No fundo, estes países especializaram-se na exportação, conseguindo colocar a produção a preços muito competitivos.

São estes os grandes constrangimentos que o setor enfrenta?

Numa perspetiva global, no meu entender, o que referi há pouco sim, uma vez que tecnologicamente os agricultores europeus estão mais capacitados do que os da América do Sul. É óbvio que existe o problema da dimensão, mas a grande questão passa pelas imposições em termos sanitários e de segurança alimentar a que os agricultores europeus são obrigados e os outros não. A Europa facilmente podia estabelecer regras para que as trocas comerciais fossem mais justas, mas não quer.

E a próxima campanha? Qual a previsão?

Quando os preços estão altos é mais fácil ganhar dinheiro e estes dois últimos anos, apesar de serem anos de extrema instabilidade, quer na campanha de 21 quer na de 22 os produtores conseguiram ter uma rentabilidade mais interessante do que em anos anteriores. Em 2021 porque houve quem conseguisse adquirir os fatores de produção a preços da campanha anterior e em 2022, apesar do incremento dos preços dos fatores de produção que existiu ao nível dos fertilizantes e da energia, os preços acompanharam e nalgumas circunstâncias até superaram aquilo que foi o acréscimo dos custos.

A Europa, com todas as restrições que vive em termos ambientais e de segurança alimentar, está numa situação de perda de competitividade face a estes países onde não são aplicadas as mesmas regras. A Europa não quer criar barreiras sanitárias por outras razões (interesses/negócios paralelos) e entrar em confronto comercial com estes países e enquanto assim for os agricultores europeus vão estar numa situação de inferioridade face aos que são os seus concorrentes mais diretos.

O risco da atividade é muito superior neste momento, porque estamos a falar numa conta de cultura em que aumentou em mais de 50%. E é a céu aberto.

O que está a acontecer a nível mundial neste momento ainda é uma situação que decorre não tanto da Guerra, mas dos primórdios da inflação que já vinham detrás do pós-covid, daquilo que foi a completa disrupção nas cadeias de abastecimento quer marítimo quer do transporte rodoviário. Muito daquilo que são os preços dos cereais hoje em dia decorre não tanto da formação do preço direto dos cereais, mas muito dos constrangimentos de transporte que têm acontecido no mundo a seguir à pandemia.

Do ponto de vista político, a atribuição de um prémio ligado já para este ano (200eur./ha para o milho grão e 120 eur./ ha para o milho silagem) vem trazer alguma “margem de manobra” aos produtores? É um bom indicador para a próxima campanha?

Neste momento esta atribuição é o indicador fundamental para que o agricultor não perca rendimento. O governo português tomou uma decisão de estabelecer uma convergência durante este próximo quadro comunitário para que os direitos se nivelem num valor um pouco superior a 80 euros por hectare para todos os agricultores. Isto é, quem não tinha nada passa a receber 80 e poucos euros, quem tinha 300/400 euros vai baixar para os 80 euros. Isto vai traduzir-se numa perda de rendimento para muitos agricultores e essa ajuda vem no sentido de a mitigar. Uma das formas de o poder mitigar foi através da atribuição de uma ajuda ligada ao setor dos cereais que no início do ciclo até podemos considerar interessante no final do ciclo podemos não considerar tão interessante.

Em conjunto com as autoridades e em sede de reprogramação futura do PEPAC, que vai ter que existir uma vez que este PEPAC não é exatamente aquilo que nós desejaríamos, vamos ter de rever esta situação, porque caso contrário vamos ter uma quebra efetiva de rendimento da parte dos produtores.

Isto não é de forma nenhuma compaginável com aquilo que é o desígnio da Estratégia Nacional para a Promoção da Produção dos Cereais. Primeiro que tudo, temos de colocar a seguinte questão: Portugal, os portugueses e o Estado português querem ou não uma atividade agrícola sustentável? Nos últimos anos não tenho visto que haja uma verdadeira aposta política na agricultura. Infelizmente o papel da agricultura em Portugal não é reconhecido como em outros países.

Temos de considerar a média etária dos agricultores e infelizmente não tem havido a renovação geracional necessária, também fruto do desincentivo pela atividade.

Jorge Neves – Presidente da Anpromis

Em termos de área o que está previsto para a próxima campanha?

A situação da seca no ano passado foi extremamente preocupante e impactou algumas áreas tradicionais de produção, mas este ano a situação está um pouco diferente.Tirando a situação do Sudoeste Alentejano, hoje as barragens têm conforto suficiente para aguentar mais do que uma campanha de rega, por isso o ânimo dos agricultores é outro, aliado ainda a uma perspetiva de preços que se mantém interessante (…).

Leia a entrevista exclusiva na íntegra adquirindo a edição de fevereiro de 2023 da Revista Voz do Campo.


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