A relação da mulher com a agricultura remonta à Antiguidade, acompanhando o surgimento das primeiras práticas agrícolas. Desde cedo, as mulheres tiveram um papel fundamental no desenvolvimento e aperfeiçoamento das técnicas de cultivo, no aproveitamento dos recursos naturais e na transmissão de conhecimentos ligados aos ciclos da natureza.

Esta ligação profunda entre mulher, terra e fertilidade encontra reflexo em diversas mitologias antigas, como Deméter e Perséfone na tradição greco-romana ou Ísis no Egito, figuras que simbolizam a produção agrícola, a renovação da vida e a segurança alimentar.

DA MITOLOGIA À REALIDADE RURAL: A PRESENÇA HISTÓRICA DAS MULHERES NA AGRICULTURA

Em Portugal, a presença feminina na agricultura é antiga e estruturante. No meio rural, desde pelo menos o século XVI, as mulheres participaram ativamente nas lavouras, na moagem dos cereais, na produção e transformação do linho, bem como na venda de produtos agrícolas. Apesar de indispensável, este trabalho foi, durante séculos, pouco valorizado, mal remunerado e realizado sem acesso adequado à educação ou à formação técnica.

Ao longo do século XX, o contributo das mulheres manteve-se essencial, sendo reforçado pela emigração masculina e pela guerra, que levaram muitas mulheres a assumir a gestão das explorações agrícolas. Perante esta realidade, surgiram iniciativas de formação específicas, como secções femininas nas escolas agrícolas e a Colónia Agrícola Feminina de Alcobaça, destinadas à modernização das práticas agrícolas. Ainda assim, as desigualdades sociais e salariais persistiram.


A ação da mulher entre 1950 e 1974

Entre 1950 e 1974, as mulheres rurais tiveram um papel ativo nas lutas laborais e sociais, denunciando salários injustos e defendendo a terra, a água e os recursos comunitários. Após a Revolução de Abril, a sua participação intensificou-se nas cooperativas, greves e na vida cívica, conquistando maior visibilidade e intervenção pública, embora a igualdade plena no setor agrícola continue por alcançar.


2026: ANO INTERNACIONAL DA MULHER NA AGRICULTURA

A proclamação de 2026 como Ano Internacional da Mulher na Agricultura pela Organização das Nações Unidas (ONU) constitui um reconhecimento político e simbólico do contributo decisivo das mulheres para a segurança alimentar, o desenvolvimento rural, a sustentabilidade ambiental e a inovação agrícola. Neste contexto, refletir sobre o papel da mulher na agricultura é não só oportuno, mas necessário, pois, apesar de sempre presentes e essenciais, as mulheres continuam a enfrentar desafios no reconhecimento e valorização do seu trabalho.

A PRESENÇA FEMININA NA AGRICULTURA: REALIDADE E CONTRIBUTO ESTRUTURAL

À escala global, segundo a FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura), cerca de 41 % da força de trabalho agrícola é composta por mulheres, desempenhando funções relevantes na produção alimentar e na gestão de recursos naturais, muitas vezes em condições de desigualdade no acesso a crédito, terra e tecnologia. Este dado evidencia o peso feminino no setor, reforçando a sua importância na segurança alimentar global.

Na União Europeia, aproximadamente 30 % das explorações agrícolas são geridas por mulheres, e a força de trabalho feminina no setor da agricultura, silvicultura e pesca ronda valores semelhantes. Estes números demonstram uma presença relevante das mulheres na economia rural europeia, embora persista a sub-representação em cargos de decisão e na posse de recursos estruturais (…).

Leia este e outros artigos na Revista Voz do Campo (edição de março 2026)

Autoria: Vanda Batista, diretora da Unidade de Desenvolvimento Rural e Agroalimentar, da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Centro, I. P.