A primeira edição da AGRINORDESTE em Macedo de Cavaleiros, confirmou, este sábado, 9 de maio de 2026, a capacidade mobilizadora do setor agrícola na região transmontana, reunindo dezenas de participantes, especialistas, dirigentes associativos e responsáveis institucionais num debate alargado sobre o futuro da Política Agrícola Comum (PAC) e os desafios específicos dos territórios de baixa densidade.
Integrado no programa oficial do certame, o seminário “Os Desafios da PAC na Região Transmontana”, moderado pela Revista Voz do Campo, decorreu durante a tarde e colocou no centro da discussão a adequação da atual PAC às necessidades reais dos agricultores de Trás-os-Montes e Alto Douro.
O painel reuniu Sérgio Borges, presidente da Câmara Municipal de Macedo de Cavaleiros; Paulo Ramalho, vice-presidente da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Norte (CCDR-Norte) ; Orlando Rodrigues, presidente do Instituto Politécnico de Bragança; Álvaro Mendonça e Moura, presidente da CAP – Confederação dos Agricultores de Portugal; Albano Álvares, membro do Conselho de Administração da CONFAGRI – Confederação Nacional das Cooperativas Agrícolas e do Crédito Agrícola de Portugal, CCRL; Vítor Rodrigues, dirigente da CNA – Confederação Nacional da Agricultura; e Firmino Cordeiro, diretor-geral da AJAP – Associação dos Jovens Agricultores de Portugal.
Limitações significativas da PAC nos territórios de baixa densidade populacional
Ao longo de várias intervenções, ficou evidente um consenso transversal: a atual arquitetura da PAC continua a apresentar limitações significativas quando aplicada a regiões de montanha, baixa densidade populacional e forte fragmentação fundiária, como é o caso de Trás-os-Montes.
Entre os principais temas debatidos esteve a necessidade de maior territorialização das políticas agrícolas europeias. Vários intervenientes questionaram se a PAC responde efetivamente às necessidades locais ou se, pelo contrário, continua excessivamente centrada numa lógica setorial e distributiva, pouco sensível às assimetrias regionais.
A discussão incidiu também sobre a distribuição dos apoios, com críticas ao modelo assente predominantemente na área, frequentemente apontado como favorecendo explorações de maior dimensão em detrimento da pequena e média agricultura. Foi defendido o reforço de mecanismos redistributivos mais robustos, capazes de apoiar pequenas explorações, agricultura familiar e territórios vulneráveis, bem como proteger produções diferenciadas e de qualidade perante a crescente concorrência internacional.
Organização económica e coesão territorial
Outro eixo central do seminário foi o papel das cooperativas agrícolas enquanto instrumentos de organização económica e coesão territorial. Representantes do setor defenderam maior reconhecimento estratégico das cooperativas no desenho das futuras medidas da PAC, sublinhando o seu contributo para fixação de população, valorização da produção e combate à desertificação económica e humana.
Inovação, transferência de conhecimento e a investigação aplicada
A inovação, a transferência de conhecimento e a investigação aplicada surgiram igualmente como prioridades. O Instituto Politécnico de Bragança destacou o potencial da investigação desenvolvida pela Escola Superior Agrária para apoiar uma agricultura mais competitiva, resiliente e adaptada às especificidades do território, embora tenha sido reconhecida a necessidade de melhorar os mecanismos de transferência de conhecimento científico para agricultores e cooperativas.
Jovens com difícil acesso à terra
A renovação geracional constituiu outro dos grandes temas em debate. Apesar dos instrumentos existentes, vários participantes consideraram insuficientes os resultados alcançados no rejuvenescimento do setor agrícola, sobretudo em regiões despovoadas. Entre os principais obstáculos identificados destacam-se o difícil acesso à terra, a baixa rentabilidade das explorações e a insuficiência de serviços e condições de atratividade territorial para jovens agricultores.
Neste contexto, foi discutida a possibilidade de criação de mecanismos públicos ou incentivos fiscais que facilitem a mobilização de terras abandonadas e promovam o acesso à terra por novos agricultores.
A agricultura familiar e os pequenos produtores mereceram igualmente atenção especial. Os participantes alertaram para o risco de desaparecimento progressivo da pequena agricultura caso não sejam introduzidas mudanças estruturais na PAC, defendendo maior apoio à comercialização local, circuitos curtos, mercados de proximidade e reforço do poder negocial dos produtores face à grande distribuição.
Mensagem clara para a próxima revisão da PAC
O seminário terminou com uma mensagem clara: a próxima revisão da Política Agrícola Comum deverá incorporar uma abordagem mais territorial, diferenciada e adaptada às regiões desfavorecidas, reconhecendo o papel estratégico da agricultura enquanto motor económico, social e ambiental de territórios como Trás-os-Montes. O seminário encerrou com balanço positivo, afirmando-se como uma boa plataforma de debate, promoção e valorização do setor agroalimentar do Norte interior.
Mais desenvolvimento em breve na Revista Voz do Campo.
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