Portugal afirma-se hoje como um país oleícola incontornável. Somos o 6.º maior produtor mundial de azeite e o 4.º maior exportador, mas mais relevante do que qualquer posição em rankings internacionais, Portugal é líder na produção de azeites de qualidade com cerca de 95 a 98% do azeite nacional classificado como virgem ou virgem extra. Estes números refletem um setor moderno, tecnicamente evoluído e profundamente ligado ao território, sendo resultado do investimento, inovação e profissionalização do setor olivícola português.

Por outro lado, os azeites portugueses têm vindo a ganhar relevância nos grandes concursos internacionais.  

Mas esta realidade coloca também um desafio claro: como promover esta excelência e a diversidade do azeite nacional junto do consumidor final? Parte essencial da resposta está à mesa. Literalmente!

A diversidade do azeite português

Portugal é um país produtor com uma enorme riqueza de variedades autóctones, diferentes sistemas de produção e uma ampla diversidade de regiões oleícolas, que se traduzem numa paleta única de azeites, com perfis aromáticos e sensoriais muito distintos. Esta diversidade permite criar experiências gastronómicas diferenciadoras, capazes de surpreender tanto o consumidor nacional como quem nos visita.

A esta riqueza junta-se ainda um fator muitas vezes subestimado: as variedades estrangeiras cultivadas em Portugal, que, quando produzidas em território nacional, não perdem identidade, ganham-na! É o terroir português: o solo, o clima, a água, a exposição solar e o saber dos produtores, que lhes imprime carácter, fazendo com que transportem aromas, sabores e atributos que são portugueses. Assim, mesmo variedades de origem internacional contribuem para aumentar a diversidade dos azeites nacionais, reforçando a nossa capacidade de oferecer produtos diferentes, complexos e adaptados à gastronomia atual.

Este equilíbrio entre tradição e inovação, entre variedades nacionais e estrangeiras adaptadas ao território, é hoje uma das grandes forças do azeite português.

Restaurantes: o palco natural do azeite

Os restaurantes portugueses há muito que são promotores da nossa gastronomia. Quando Portugal bate recordes de visitantes todos os anos, a restauração tem evoluído de forma notável em qualidade, criatividade e ambição, com uma preocupação crescente em proporcionar experiências completas, onde o produto, a história e a emoção caminham lado a lado.

Tal como aconteceu com o vinho, a restauração tem uma capacidade única de comunicar com o consumidor através da experiência, de forma acolhedora e sensorial, criando memórias. Os pratos bem pensados e harmonizados com diferentes azeites permitem explicar, sem discursos técnicos e complexos, a diferença entre um azeite verde e um azeite maduro, entre um monovarietal e um blend, entre variedades distintas ou entre azeites de regiões diferentes.

Do vinho ao azeite: um caminho já testado

O setor vitivinícola demonstrou que este modelo funciona. Hoje é amplamente reconhecido o papel da restauração na promoção das castas e das regiões vitivinícolas. Segundo a APENO – Associação Portuguesa de Enoturismo, a atividade turística ligada ao vinho já representa 20,6% da faturação global do setor vitivinícola em Portugal: (https://www.publico.pt/2025/11/05/terroir/noticia/enoturismojarepresenta6080negocioprodutoresvinhonacionais2153534). Este sucesso passa muito pelos restaurantes e pela sua capacidade de passar informação e histórias sobre o vinho, sugerir harmonizações e criar ligação emocional com o consumidor.

O azeite reúne todas as condições para seguir esse mesmo caminho.

Azeite em Ação: restaurantes como embaixadores

É precisamente com esta visão que a Olivum – Associação de Olivicultores e Lagares de Portugal, desenvolveu o projeto “Azeite em Ação: Restaurantes como Embaixadores do Azeite Português”, reconhecendo o papel estratégico da restauração e dos seus profissionais, com o objetivo de promovê-los como embaixadores do azeite nacional.Este projeto, desenvolvido em parceria com a AHRESP – Associação da Hotelaria, Restauração e Similares de Portugal e com o apoio do Conselho Oleícola Internacional (COI), apostou na formação e capacitação de gestores, profissionais e futuros profissionais da restauração, através de ações presenciais, provas orientadas, materiais pedagógicos e comunicação direta ao consumidor (https://www.youtube.com/watch?v=G0JhTMKJJf0). A experiência demonstrou que os restaurantes são um ponto de contacto privilegiado para aumentar a literacia sobre azeite e valorizar a sua origem, qualidade e diversidade. As provas comentadas contaram com a orientação de especialistas como Edgardo Pacheco, jornalista do Público, e Teresa Zacarias, assessora técnica e formadora da Casa do Azeite.

Em todas as iniciativas notou-se muito interesse dos alunos e dos professores pela diferenciação sensorial dos azeites, algo que estes mesmos alunos e professores descobriram pela primeiro vez, pelo que se torna urgente continuar a manter na agenda iniciativas como esta. Convenhamos que, em Portugal, é um tanto ou quanto irracional formar-se um chefe sem um módulo de análise sensorial em azeite em todo o curso.

Mais do que formar técnicos, o projeto reforçou uma ideia essencial: cada profissional de restauração pode ser um comunicador ativo do azeite português, influenciando escolhas, criando curiosidade e promovendo consumo informado.

Experiências que criam valor (e memória)

A introdução de cartas de azeites, sugestões de harmonização com pratos, pequenas provas comentadas à mesa ou até menus temáticos são ferramentas simples, mas poderosas. Não se trata de elitizar o azeite, mas sim de valorizá-lo. Explicar porque dois azeites são diferentes, porque um combina melhor com peixe grelhado e outro com carne ou legumes, assim como a variedade, a maturação da azeitona ou a região influenciam o perfil final.

Esta abordagem cria momentos gastronómicos únicos, reforça a identidade da cozinha portuguesa e contribui para uma conclusão: o azeite não é apenas um ingrediente que melhora um prato ou um bem alimentar o que já são excelentes por si, é um elemento cultural e sensorial.

Mais, quando a restauração – na generalidade dos casos – vai pela vida fora a oferecer aos seus clientes sempre o mesmo azeite (jamais fariam isso com vinho), os empresários que tiverem a coragem de, ao longo de um ano, apresentar seis azeites diferentes passarão a distinguir-se face aos seus concorrentes, aumentando a sua notoriedade perante os seus clientes habituais.  

O serviço de azeite pode e deve ser um facto distintivo na imagem de um restaurante.

Um convite ao setor

O setor oleícola português fez o seu trabalho: investiu, modernizou-se, tornou-se mais sustentável e competitivo, atingindo níveis históricos de produção e exportação.

O próximo passo será a aproximação do azeite ao consumidor, e os restaurantes são parceiros naturais nesta missão.

Acreditamos que, tal como aconteceu com o vinho, os restaurantes portugueses podem liderar uma nova fase de valorização do azeite, tornando-se os seus principais embaixadores junto de portugueses e visitantes. Ganham os produtores, ganham os chefs, ganham os consumidores e ganha Portugal, ao afirmar-se não só como um grande produtor, mas como um país que sabe contar e servir a sua própria excelência.

Autores:

  • Gonçalo Moreira | OLIVUM – Associação de Olivicultores e Lagares de Portugal
  • Edgardo Pacheco | Jornalista