Agrociência

Alecrim: Planta aromática e medicinal

O alecrim é uma aromática que marca presença, nem que seja apenas na memória cultural, quando ouvimo-la referenciada na literatura, música tradicional portuguesa, nos hábitos e costumes gastronómicos, medicina popular…

Ao esfregarmos as folhas entre os dedos, detetamos facilmente a libertação de óleos voláteis que transportam um aroma forte, agradável e, quando levada à boca estimula o paladar com um sabor ligeiramente ácido.

São estas caraterísticas organoléticas que a definem, tornando-a apetecível para a confeção de receitas culinárias, desde entradas a sobremesas, e até mesmo preparados, como óleos, vinagres e molhos aromatizados; na perfumaria, cosmética, como fragrância; na aromatização de espaços, sob a forma de incenso, óleo essencial, arranjos florais, almofadas e sacos perfumados, úteis em gavetas e roupeiros, pela sua ação repelente de muitas espécies de lepidópteros, o que a coloca, também, no quadro das plantas auxiliares, relevantes nas fases de planeamento e manuseamento de algumas culturas, tanto como companheira, como inserida em formulações, utilizadas em práticas de agricultura biológica doméstica, e servindo de coletor, atraindo polinizadores, nomeadamente abelhas, que apreciam muito as suas flores, imprimindo notas especiais ao mel.

Pelas suas propriedades antisséticas podemos encontrá-la noutros ramos das indústrias alimentar e cosmética, no controlo e preservação de produtos, como conservante, constituinte de fórmulas. Dentro das possibilidades, trazidas da viagem experimental com esta planta, optamos por debruçarmo-nos sobre o estudo das propriedades terapêuticas e medicinais, unificando ramos do conhecimento, através de fontes académicas e culturais, confluentes e essenciais para o encontro e aproximação com esta variedade.

Na descrição científica esta espécie é conhecida por Rosmarinus officinalis L. (figura 1) e em linguagem comum por alecrim, alecrinzeiro, alicrizeiro, entre outras designações. Pertence à família botânica das Lamiáceas. É um arbusto perene resistente, com altura média de 50 a 150 cm, constituído por multicaules lenhosos (figura 2).

As folhas (figura 2) são estreitas, pequenas (até 3cm de comprimento), aciculares, lanceoladas, opostas, com bordos lisos enrolados para baixo, de cor verde ao longo de todo o ano (verde acinzentado na parte inferior, verde vivo na parte superior). Quando esmagadas libertam um aroma fresco, com notas de menta e madeira, de sabor forte e acre. Tem flores (figura 2) com corola de cor lilás e esbranquiçada, em forma labiada, agrupam-se, duas ou três, nas axilas foliares, localizadas no centro e partes superiores da planta. O fruto apresenta as caraterística de um aquênio.

É uma espécie que se adapta facilmente a terrenos secos e pobres

Originária da região Mediterrânica, da Europa Central. Encontra-se comumente em charnecas e pinhais no Centro do Sul de Portugal Continental, endémica da serra da Arrábida, sendo igualmente cultivada por todo o país. É uma espécie que se adapta facilmente a terrenos secos, pobres, principalmente de origem calcária, desde que bem drenados. Caraterísticas que a colocam como uma das preferências para ornamento de jardins, a par das suas propriedades aromáticas e medicinais

Tem grande resistência a pragas e patologias. Na horta pode atuar como planta companheira do repolho, couve, nabo, cenoura, sálvia, feijões; e antagonista do alho, cebola e cebolinho. Serve igualmente como repelente da borboleta branca do repolho, do besouro do feijão e da mosca da cenoura. A multiplicação vegetativa do alecrim pode ser realizada através de estacas, provindas da planta mãe (ramos novos com cerca de 10 a 15 cm, nos quais retiramos algumas folhas da base, para plantá-los diretamente no solo), sementes (desenvolvimento muito lento) e mergulhia. A plantação deve ocorrer na Primavera (depois das geadas) ou no Verão (plantação e mergulhia), com hidratação controlada (humidade ligeira). É uma planta que prefere a luz direta do sol na fase de crescimento (temperaturas superiores a 10º C). No exterior, os intervalos entre indivíduos devem ter de 30 a 90 cm.

A colheita das folhas e caules ocorre durante todo o ano. As flores florescem em quase todas as épocas.

Os principais princípios ativos desta planta são: óleo essencial (á-pineno, cânfora e o eucaliptol), flavonoides (luteolina, apigenina diosmetina, hesperidina e outros), ácidos polifenólicos e derivados do ácido cafeico (ácido rosmarínico), taninos, constituintes amargos do tipo lactonas diterpénicas (carnosol, rosmanol, etc.), ácidos triterpénicos (ácido ursólico e betulínico), álcoois triterpénicos (á-amirina, â-amirina e betulina).

Os efeitos terapêuticos resultam das suas propriedades colerética, colagoga, carminativa, antiespasmódica, hepatoprotetora (flavonoides e outros constituintes polifenólicos). Os compostos amargos estimulam as secreções gástricas. O óleo essencial tem uma ação antissética e, devido à cânfora, ação estimulante sobre a circulação e o sistema nervoso. Aumenta a sudação pela capacidade de adstringência e diaforética. Externamente, atua como tónico da circulação periférica, anti-inflamatório e antissético, o que torna-a um bom coadjuvante no tratamento de reumatismos musculares, articulares, mialgias, nevralgias, inflamações osteoarticulares, afeções do couro cabeludo. Está contraindicada na gravidez, amamentação, em crianças com idade inferior a seis anos, quando há fenómenos de hipersensibilidade e histórico de convulsões, na gastroenterite, gastrite, duodenite, úlcera péptica, síndroma do cólon irritável, patologias inflamatórias intestinais, patologias neurológicas, onde são manifestos tremores. A sobredosagem pode causar nefrite e distúrbios gastrointestinais. Não se deve usar o óleo essencial puro, por via interna, porque pode produzir cefaleias, convulsões, espasmos, gastroenterites, lesão renal. O contato tópico do óleo essencial pode criar irritações cutâneas.

Quando administrada, por via interna e externa, tanto na profilaxia, como na manifestação direta de sinais e sintomas devemos considerar as formas galénicas e respetiva posologia, procurando as mais adequadas.

Para uso interno a dose média diária é de 4 a 6 g da planta. Poderemos recorrer a infusões (10 minutos, ½ a 1 colher de chá, equivalente a 2 g por chávena, 2 a 3 vezes ao dia), extratos fluidos (1:1, em etanol a 45%, 20 a 30 gotas, 1 a 3 vezes ao dia, preferencialmente antes das refeições), óleo essencial (1 a 2 gotas, 1 a 3 vezes por dia, sobre um torrão de açúcar, ou em cápsulas a 50 mg, 2 ou 3 por dia, antes das refeições), extratos secos (5:1, 0,3 g por cápsula, 1 a 3 por dia, antes das refeições).

Para uso externo poderemos fazer decocções (30 a 40 g/l) ou utilizar o óleo essencial, diluído a 3%, em solução alcoólica ou oleosa para as fricções.

Autoria: Ana Lorena 1 & Ana Isabel Cordeiro2

1 Naturopata. Direção Clínica Espaço ANEROL.

2 Departamento de Ciências Agrárias e Veterinárias,

Instituto Politécnico de Portalegre.

ana_cordeiro@ipportalegre.pt