Agrociência

Sabugueiro (Sambucus nigra L.) Virtudes e uso medicinal

Figura 1. O Sambucus nigra L.

O Sabugueiro é uma planta com muitos atributos terapêuticos e medicinais, o que a torna bastante considerada na prática clínica, em terapêuticas não convencionais, como a Fitoterapia e a Naturopatia, fazendo parte da composição, em fórmulas, ou isoladamente.

Praticamente todas as partes da planta (folhas, flores, frutos e casca) são utilizadas, com exceção da raiz. É encontrado facilmente, pela via de indústrias como a da suplementação, farmacêutica, cosmética, alimentação, na forma de produtos, através da comercialização ao público.

No mercado, podemos obter as flores secas, extratos líquidos e secos, sprays, rebuçados, bebidas à base dos frutos ou bagas, compotas, entre outros produtos. Na gastronomia as flores e as bagas têm imensas aplicações, podendo entrar em variadíssimas receitas: tartes, geleias, bolos, gelados, marmelada, iogurtes, refogados, bebidas, como corante alimentar natural de tonalidade vermelha (a cor resulta das antocianinas presentes nas bagas), elemento decorativo. É necessária uma ressalva, os frutos devem ser ingeridos, apenas maduros e após sofrerem cozedura, porque quando estão verdes podem ser tóxicos.

Em cosmética, a infusão de sabugueiro é usada para aclarar e suavizar a pele, em cremes contra rugas, loções tónicas e loções para os olhos. A madeira por ser macia e oca, entra como fonte de matéria-prima na construção e fabrico de alguns instrumentos musicais.

No seu estado natural conseguimos apreciá-lo ao longo do ano, em diferentes fases do ciclo da planta, no seu estado livre, onde frequentemente o vemos a ladear terrenos, servindo de sebes, ou junto a zonas com água. Na primavera, quando floresce, embeleza a paisagem e permite-nos usufruir de um aroma agradável, fresco e frutado e, no final do verão, ou início do outono, as flores originam os frutos, que ao amadurecerem, escurecem e atraem algumas espécies de aves.

O Sabugueiro, em muitas regiões portuguesas, é apreciado e visto como uma cultura de potencial relevante, pela sua capacidade adaptativa e rentabilidade na produção.

Na nomenclatura científica esta variedade é conhecida por Sambucus nigra L. (figura 1) e popularmente, pelos nomes comuns, canineiro, galacrista, rosa-de-bem-fazer, sabugo, sabugueiro-negro, sabugueiro-preto. A família botânica é a das Caprifoláceas, está identificada como uma planta arbustiva ou árvore de pequeno porte, com altura entre os 3 e os 7 metros; caule com casca verrugosa, de cor cinzento-acastanhada, de medula branca e macia; ramos ocos e quebradiços; raiz frágil.

As folhas (figura 2) são opostas, pecioladas, imparipinuladas, com cinco a sete folíolos de cor verde sombria, bordos regularmente dentados, terminando em ponta, com cerca de 12 centímetros de comprimento. As flores (figura 2) são hermafroditas, apresentam cor branca ou ligeiramente amarelada, com diâmetro de cerca 7 mm, densamente agrupadas, em inflorescências, bastante aromáticas, com um perfume suave e doce. O fruto é constituído por pequenas bagas ou drupas, com 5 a 6 milímetros de diâmetro, pretas e esféricas, de cheiro intenso e sabor acídulo.

Nativo da Europa, Ásia Ocidental e Central, Norte de África

Em Portugal, vemos esta planta em florestas, margens dos campos e cursos de água, em forma de sebes, e também como ornamental. Gosta de terrenos húmidos, bem drenados, soltos, um pouco argilosos e azotados, resiste facilmente a baixas temperaturas e à poluição atmosférica, tolera alguma salinidade, adaptando-se tando a solos ácidos como alcalinos. Resiste bem a podas (preferencialmente realizadas na época do inverno), com boa capacidade de regeneração. Em culturas, a densidade da plantação pode chegar às 500 plantas/ha até cerca de 650 plantas/ha, com uma produtividade média de 8 a 12 quilogramas de bagas, por pé. A rentabilidade da exploração começa progressivamente, no terceiro ano com uma produtividade média de 20%, no quarto ano de 60% e no quinto ano com os 100%. Neste tipo de produções o tempo de vida útil da planta está previsto em 20 anos. Para serem atingidos pontos de frutificação ideais, as condições climáticas favoráveis enquadram-se nos invernos rigorosos e verões quentes. Esta planta é pouco vulnerável a pragas e doenças. Todavia, pode ser atacada por aranhiços, afídios, Hyphodontia sambuci.

A multiplicação vegetativa é mais favorável nos meses de outubro a novembro, através das técnicas de mergulhia e estacaria.

O Sabugueiro pode servir de um bom repelente para pulgões e lagartas dos vegetais hortícolas, aplicando nos mesmos a água proveniente da cozedura das suas folhas.

A colheita das folhas e caules acontece ao longo do ano; a floração ocorre entre abril e agosto, durante a primavera e o final do verão, quando dão origem ao fruto. No verão as flores devem ser colhidas logo pela manhã; e no final do verão, início do outono, por volta dos meses de agosto a outubro, as bagas devem ser colhidas, apenas quando maduras, em plena maturação.

Nas folhas, encontram-se princípios ativos como o glicósido samburigina-amigdalina e emulsina. As flores contêm flavonoides (isoquercitrina, quercetrina e seus heterósidos, rutina, hiperósido), ácidos fenólicos (cafeico, clorogénico, p-cumárico), óleo essencial, mucilagens, antocianinas, ácidos triterpénicos (ursólico, oleanólico), fitosteróis, sais potássicos. A casca tem uma resina e o fruto vitaminas do complexo B, tirosinas, ricas em vitaminas A, D, C, sais minerais, ácidos málico, tartárico, valeriânico, tânico, óleo essencial, simburigrina-amigdalina, solina, resinas, hidratos de carbono, glicose e um pouco de albumina. A casca tem propriedades terapêuticas, sendo diurética, adstringente, hemostática e cicatrizante, podendo ser recomendada nos casos de oligúria e litíase renal. As folhas são utilizadas, via externa, em situações de herpes, úlceras, espasmos oculares (cataplasmas), amigdalites e ulcerações faríngeas (gargarejos), hemorroidal, problemas de pele, vaginites (lavagens), hematomas e entorses (pomada). As flores possuem propriedades sudoríferas, antipiréticas, expectorantes, anti-inflamatórias e galactogénicas, frequentemente utilizadas em perturbações do foro inflamatório, como gripes, tosse, bronquite, sinusite, rinite alérgica, amigdalites, faringites, estomatites, abcessos, sarampo, afeções da bexiga, hemorroidal, fragilidade capilar, dores e edemas articulares, arteriosclerose e desintoxicação do organismo. Topicamente, em feridas e queimaduras. Os frutos têm ação diurética, diaforética, sudorífera, laxativa e purgativa. Quando ingeridos, ajudam na eliminação de toxinas, promovendo a desintoxicação do sangue, o que lhe confere caraterísticas hemostáticas. Os frutos secos ajudam na diarreia. Externamente, são indicados, nas mialgias, edemas e no reumatismo.

Os frutos ainda verdes, ou até mesmo pouco maduros, são tóxicos, podendo causar diarreias. As cascas e folhas recentes, devido à presença de heterósidos cianogénicos, podem igualmente originar intoxicações, pelo que o seu uso é principalmente recomendado via externa, sob a forma de pomadas, infusões e cataplasmas.

No uso interno estão essencialmente indicadas as flores e as bagas bem maduras, numa dose média de 10 a 15 gramas por dia. Infusão: 3 a 4 g por chávena, 2 a 3 vezes ao dia. Tintura (1:5): 50 a 100 gotas, 1 a 2 vezes por dia, Sumo dos frutos: 30 g como laxativo. No uso externo são utilizadas as diferentes partes da planta. Infusão: 50 a 80 g/l. Cataplasma: folhas frescas pisadas ou em sumo.

Leia o artigo completo na edição de junho 2021.

Autoria: Ana Lorena 1 & Ana Isabel Cordeiro2

  • 1 Naturopata. Direção Clínica Espaço ANEROL.
  • 2 Departamento de Ciências Agrárias e Veterinárias, Instituto Politécnico de Portalegre.
  • ana_cordeiro@ipportalegre.pt

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