A aquacultura é o setor da indústria alimentar que mais tem crescido nas últimas décadas. Para suportar a atual produção mundial de peixe, a aquacultura precisa anualmente de cerca de 53 milhões de toneladas de rações.
Estas fornecem os nutrientes (proteína, lípidos e hidratos de carbono) essenciais ao crescimento rápido e saudável, bem como vitaminas, minerais e outros compostos com propriedades anti-microbianas e anti-oxidantes que melhoram o sistema imunológico e o bem-estar generalizado dos peixes produzidos em aquacultura.
Uso dos co-produtos do processamento minímo de frutas e vegetais na aquacultura sustentável Tradicionalmente dependente de ingredientes de origem marinha, como a farinha e o óleo de peixe, a indústria das rações para aquacultura tem vindo a procurar ativamente alternativas com elevado valor nutricional e menores constrangimentos ambientais. Atualmente, uma parte substancial dos ingredientes utilizados nas rações provém de vegetais de origem terrestre que são transformados de forma a maximizar o conteúdo proteico, a qualidade e digestibilidade. Estes produtos são cuidadosamente processados para maximizar o teor proteico, a qualidade e a digestibilidade das rações. Porém, limitações nutricionais, como o baixo teor em alguns aminoácidos e ácidos gordos essenciais ómega-3, associadas aos elevados custos de produção e as questões de sustentabilidade ambiental, continuam ainda a limitar a incorporação destes produtos na formulação de rações para aquacultura.
Neste contexto, a adoção da economia circular como modelo produtivo e a introdução de novos ingredientes obtidos a partir de resíduos gerados no processamento mínimo de frutas e vegetais poderá ser uma estratégia importante para o crescimento sustentável da aquacultura.
A produção de azeite e vinho, para além do processamento de outras culturas como o tomate, batata, abóbora, peras, maçãs, banana e hortaliças brássicas, geram uma grande diversidade de resíduos, nos quais se incluem bagaços, folhas, caules, peças rejeitadas, cascas e sementes. Estes resíduos têm potencial de gerar co-produtos de grande qualidade nutricional cuja valorização e aproveitamento reduzem o impacto ambiental dos sectores agrícola e aquícola. No artigo publicado recentemente na revista científica Discover Food é feito um levantamento exaustivo dos requisitos nutricionais das espécies de peixes com maior relevância na produção aquícola mundial, acompanhado de uma análise das culturas vegetais com maior potencial de gerar co-produtos. Faz-se também uma revisão acerca do valor nutricional e funcional destes co-produtos, bem como das principais estratégias para o seu processamento e transformação.
Os co-produtos da produção de azeite e do vinho estão entre aqueles com maior potencial para substituir a farinha e o óleo de peixe. De facto, o bagaço de azeitona, para além de apresentar um elevado teor de ácidos gordos insaturados e de aminoácidos essenciais, é muito rico em vitamina E e outros antioxidantes naturais. Também o bagaço de uva é rico em nutrientes como o amido, proteínas e lípidos, e apresenta um elevado teor de aminoácidos essenciais e compostos antioxidantes. Por outro lado, vários estudos científicos referem benefícios da utilização de extratos de sementes e casca de várias frutas e vegetais como fontes de compostos funcionais para melhorar a resposta imune e o bem-estar dos peixes em aquacultura.
No entanto, a utilização destes co-produtos como ingredientes para rações aquícolas, requer um processamento ou transformação prévios. Este processo pode envolver diversos métodos que visam melhorar o valor nutricional, eliminar ou reduzir substâncias anti-nutricionais, garantir a segurança alimentar e otimizar a utilização dos recursos.
Técnicas como a trituração e moagem, secagem, extrusão, ou tratamentos químicos e enzimáticos oferecem vantagens específicas em termos de melhoria do valor nutricional e segurança alimentar dos co-produtos. Entre os processos de transformação dos co-produtos, é de destacar a fermentação, uma abordagem biotecnológica que permite melhorar o valor nutricional e os benefícios fisiológicos destes novos ingredientes. A fermentação realizada com bactérias lácticas, leveduras ou fungos selecionados melhora a digestibilidade da biomassa transformada, enriquecendo-a simultaneamente com vitaminas, prebióticos e probióticos. Além disso, a fermentação oferece vantagens importantes em termos de segurança alimentar ao reduzir significativamente o desenvolvimento de bactérias patogénicas e fungos contaminantes (…).
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Autoria: Sílvia Lourenço ¹, Marta Neves ¹, Elsa M. Gonçalves ²,4, Cristina Roseiro ²,4, Ana Pombo ¹, Délio Raimundo ³ e Joaquina Pinheiro ¹
¹ MARE – Centro de Ciências do Mar e Ambiente / ARNET – Rede de Investigação Aquática, Instituto Politécnico de Leiria
² INIAV – Instituto Nacional de Investigação Agrária e Veterinária, Unidade de Tecnologia e Inovação
³ Campotec S.A.
4 GeoBioTec – Geobiociências, Geoengenharias e Geotecnologias, Universidade NOVA de Lisboa
Referência Bibliográfica
Lourenço, S., Neves, M., Gonçalves, E.M., Roseiro C., Pombo, A., Raimundo, D., Pinheiro, J. 2025. Application of fruit and vegetable processing by-products as ingredients in aquafeed. Discover Food 5, 45. https://doi.org/10.1007/s44187-025-00309-6


