Todos os anos, Portugal desperdiça milhões de toneladas de resíduos e subprodutos biodegradáveis. Infelizmente, não consegui encontrar um valor exato ou minimamente próximo da realidade dos sacos, contentores e baias que são desaproveitados em toda a cadeia de valor, e isso, por si só, já revela muito.

Parque de Verdes da LIPOR

Os dados são escassos, fragmentados ou inexistentes, e mesmo com a ajuda do ChatGPT não se consegue chegar a uma estimativa séria.

O que existe é uma enorme contradição entre aquilo que precisamos urgentemente de fazer e aquilo que efetivamente fazemos. Perdemos matéria orgânica essencial ao desenvolvimento da Bioeconomia nacional (silvicultura, horticultura, produção animal, mar, resíduos industriais e urbanos), enquanto os solos portugueses se degradam diante dos nossos olhos quando podiam beneficiar enormemente da reintrodução destes biorresíduos na sua matriz.

Este é um problema global, agravado pelas alterações climáticas, que coloca Portugal, juntamente com outros países do sul da Europa, na linha da frente deste cenário cada vez mais hostil.

Apesar da gravidade, o problema pode ser convertido numa vantagem estratégica se formos capazes de usar os nossos recursos de forma inteligente e inspirada na própria natureza. Na natureza não existem resíduos porque tudo circula, tudo regressa, tudo se transforma. Se observarmos o metabolismo dos ecossistemas e o compararmos com o metabolismo urbano, percebemos de imediato que aquilo que hoje tratamos como desperdício tem valor. A falta de matéria orgânica nos solos portugueses é o resultado direto de décadas de um modelo linear de produção, extrair, usar, descartar, sem reposição, sem visão de longo prazo e sem consideração pela finitude dos recursos. Numa realidade em que a fertilidade do solo continua a diminuir e a dependência de fertilizantes importados sujeita os produtores a uma volatilidade cada vez maior, os biorresíduos assumem um papel essencial para uma agricultura mais autónoma, resiliente e alinhada com os desafios que todos reconhecemos.

A Economia Circular fornece o plano de operações, mas é na Bioeconomia que encontramos o motor da verdadeira transformação.

A combinação destes dois conceitos dá origem à Bioeconomia Circular, um sistema em que biomassa, resíduos e subprodutos de base biológica regressam continuamente à cadeia de valor, substituindo materiais fósseis e sustentando a produção de alimentos, energia, medicamentos e bioprodutos com menor impacto climático – um sistema naturalmente regenerativo.

Precisamos, pois, de parar de enviar “ouro” biológico para aterro ou de tratar esta matéria-prima de alto valor de forma pouco nobre, desperdiçando nutrientes essenciais e compostos bioativos com elevado potencial agronómico, como já fazem algumas empresas: a KODBIO, que transforma biorresíduos em surfactantes, ou a BlueMatter, com os seus reatores de microalgas que tratam lixiviados e produzem biomassa. A ideia é simples: aquilo que antes era tratado como problema pode e deve tornar-se matéria-prima para regenerar solos, reduzir custos e aumentar a resiliência dos sistemas agrícolas. Basta recordar o exemplo da LIPOR, que há mais de 40 anos transforma resíduos orgânicos urbanos do Grande Porto em corretivos orgânicos de elevada qualidade – materiais que podem evoluir para produtos como substratos e bioestimulantes.

Composto de verdes

A tecnologia já existe, a matéria-prima não nos falta. Então, porque não avançamos para esta Bioeconomia Circular?
É precisamente aqui que surge um elemento estratégico que raramente é discutido nos fóruns públicos: a necessidade de infraestruturas capazes de servir como polos de transformação regionais dos resíduos e subprodutos orgânicos, equivalentes ao papel que a LIPOR assume para os resíduos urbanos, mas orientados para todo o universo da matéria orgânica, agrícola, pecuária, agroindustrial ou urbana. Embora a distinção entre resíduos urbanos, agrícolas ou industriais tenha origem em preocupações de segurança alimentar, esta distinção é hoje menos relevante do que se possa pensar (…).

→ Leia este e outros artigos completos, na Revista Voz do Campo – edição de dezembro 2025, disponível no formato impresso e digital.

Autoria: Telmo Machado, gestor da Unidade de Produtos Sustentáveis da LIPOR

 

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