No século XIX, a viticultura europeia enfrentou uma das maiores crises da sua história com a propagação da filoxera. Esta praga, de origem americana, atacava as raízes das videiras, provocando o seu enfraquecimento e, em muitos casos, a morte das plantas.

A filoxera espalhou-se rapidamente pelas regiões vitícolas europeias, devastando vinhas, afectando economias locais e colocando em causa tradições seculares ligadas ao vinho. Perante este cenário, produtores e investigadores procuraram soluções para salvar as suas vinhas.

A resposta passou pelo uso de porta-enxertos resistentes, uma prática que transformou para sempre a viticultura e que continua a ser a base da produção de vinho nos dias de hoje.

Um episódio marcante que relembra a importância do conhecimento, da adaptação e da inovação no setor vitivinícola.

A filoxera (Daktulosphaira vitifoliae) é um pulgão sugador que pode causar danos severos na cultura da videira. Isso ocorre em função do comportamento e do ciclo de vida desse inseto.

Filoxera: A praga que mudou o mundo do vinho

A filoxera é uma doença provocada por um inseto hermafrodita, o filoxera, que se alimenta do suco que extrai das raízes de certas plantas, nomeadamente das videiras. Nas vinhas europeias, o filoxera provoca nodosidades (tumores) nas raízes, que em poucos anos enfraquecem e destroem as cepas.

Originário da América do Norte, onde foi encontrado pela primeira vez em 1853, nas vinhas selvagens do Colorado, o filoxera chegou à Europa no início da década de 1860, com as videiras americanas importadas para combater o oídio. As vinhas francesas foram as primeiras a ser atacadas pelo filoxera. O insecto apareceu em 1863 no departamento do Gard, propagou-se rapidamente a todas as regiões vinícolas e em poucos anos infetou e destruiu mais de 600 000 ha de vinha e provocou quebras da produção da ordem dos 50%.

Como a filoxera se alimenta de novas raízes para sugar o suco celular, os vinhedos europeus eram o ambiente perfeito para se propagar. A disseminação do inseto é muito fácil e rápida, pois ele usa o próprio ser humano como veículo condutor. O pulgão se hospeda em botas e ferramentas e são carregados até outros vinhedos. A proximidade entre os países e a relação comercial entre eles possibilitou que a praga se espalhasse por todo o continente.

Portugal foi o segundo país europeu a ser invadido pela filoxera. A doença foi encontrada em vinhas do concelho de Sabrosa (Douro) em meados da década de 1860 e daí espalhou-se a toda a região duriense, mas manteve-se-lhe circunscrita até à década de 1880, altura em que começou a alastrar por todo o país.

À doença provocada pelo filoxera nas vinhas portuguesas no último quartel do século xix tem sido atribuída e generalizada a todo o país uma acção devastadora, por vezes mesmo catastrófica. Destruiu por completo as vinhas de muitas regiões e transformou em mortórios extensas áreas da paisagem rural. Agravou consideravelmente os custos de produção do vinho e fomentou a cultura da vinha americana, com o que contribuiu para a quebra de qualidade dos vinhos e para a sua depreciação. Arruinou viticultores, incrementou a emigração e provocou o despovoamento de muitas freguesias.

A filoxera (Daktulosphaira vitifoliae) é um inseto muito pequeno, capaz de atingir entre 0,3 e 3,0 mm de comprimento ao longo do seu ciclo de vida. No período de inverno, os pulgões adultos depositam ovos sobre a ritidoma (casca morta). Porém, esses ovos só eclodem na primavera, permitindo o surgimento das ninfas, que atacam as folhas e ramos, e formam galhas sobre elas.

As fêmeas ovipositam no interior das galhas, dando origem a novas fêmeas. Essas fêmeas galícolas são capazes de depositar cerca de 500 a 600 ovos dentro das galhas o que resulta em várias gerações do pulgão por ano.

Por conta desse modo e velocidade de reprodução, a planta começa a apresentar vários sintomas de infestação, possibilitando a identificação da praga.

Nas raízes, os pulgões provocam o desenvolvimento de nodosidades, estruturas parecidas com ganchos próximos das radicelas. Elas são resultantes do intumescimento dos tecidos das radicelas, que surgem em função da sucção contínua do inseto.

Além disso, a infestação também origina tuberosidades, pequenas estruturas que se desenvolvem nas partes lignificadas das raízes.

Já na parte aérea, a principal forma de identificação ocorre através das galhas, que são estruturas pequenas que se desenvolvem sobre a folha e abrigam as ninfas e ovos do pulgão.

Além do desenvolvimento dessas estruturas, os danos causados pelo ataque do inseto ajudam não só a identificar a presença da praga, mas permitem entender a extensão dos prejuízos que ela pode provocar.

A filoxera causa danos significativos à videira, atacando principalmente as raízes, resultando no enfraquecimento geral da planta e, em casos extremos, na morte. As feridas causadas pela alimentação dos insetos estimulam a entrada de patógenos secundários, agravando os efeitos. A videira começa a apresentar sinais de stress hídrico e nutricional, com deterioração progressiva do seu desenvolvimento e produtividade.

– Aparecimento de nódulos ou galhas nas raízes.
– Amarelecimento e queda prematura das folhas.
– Atraso no crescimento das plantas.
– Redução na produção de cachos.
– Morte gradual das plantas em infestações severas.

 


SUBSCREVA E RECEBA TODOS OS MESES A REVISTA VOZ DO CAMPO

→ SEJA ASSINANTE (clique aqui)

 

EDIÇÕES MAIS RECENTES:


Caso pretenda adquirir ou aceder integralmente a alguma edição em especial, envie-nos o seu pedido por e-mail: assinaturas@vozdocampo.pt

Periodicidade: 11 edições anuais na versão em papel ou digital

→ ASSINE AQUI A REVISTA VOZ DO CAMPO