Autoria: Rosa Lino Neto Pereira, Filipa Ferreira, João Pedro Barbas, Ricardo Faria, Nuno Carolino
Unidade de Biotecnologias e Recursos Genéticos do Instituto Nacional de Investigação Agrária e Veterinária. Polo de Investigação da Fonte Boa, 2005-424 Vale de Santarém.

UMA ARCA DE NOÉ PARA A BIODIVERSIDADE DO SÉCULO XXI
Banco Português de Germoplasma Animal

O Banco Português de Germoplasma Animal (BPGA) é um repositório de biodiversidade ímpar em Portugal, onde são conservados para uso futuro sémen, embriões, oócitos, tecido ovárico e ADN das raças autóctones de animais domésticos, a maioria ameaçada de extinção. Estes animais têm características únicas de rusticidade e adaptabilidade aos territórios do nosso País e, apesar de terem um papel socioambiental essencial e serem responsáveis pela produção de produtos regionais muito apreciados, os seus efetivos têm vindo paulatinamente a decrescer.

O BPGA representa a nossa Arca de Noé onde o germoplasma destes animais está guardado a -196ºC, e constitui a última salvaguarda para contrariar a erosão genética e evitar a extinção deste património nacional em biodiversidade.
Portugal possui uma enorme riqueza em recursos genéticos animais (RGAn), traduzida no elevado número de raças autóctones atualmente reconhecidas (53 raças pecuárias e 11 de cães). Contudo, a maioria destas raças encontra-se em risco de erosão genética e de extinção, sendo necessário assegurar a sua conservação a longo prazo.

Esta biodiversidade é um bem público e a conservação deste património, uma responsabilidade nacional

De facto, as gerações presentes têm o dever de transmiti-lo às gerações futuras. A biodiversidade dos recursos genéticos para a alimentação e agricultura é indispensável face a um futuro imprevisível, como as alterações climáticas, secas ou outros fenómenos extremos, doenças emergentes, protegendo assim os ecossistemas naturais, o futuro da alimentação humana e um vasto conjunto de serviços do ecossistema. Face ao declínio acentuado das raças autóctones portuguesas, a criopreservação de germoplasma (sémen, embriões, oócitos e tecido ovárico) (Figura 1) de todas as raças no BPGA, representa a última salvaguarda para evitar a extinção deste património nacional em biodiversidade.
Figura 1. Exemplos de germoplasma: à esquerda, embrião bovino e à direita, espermatozoides, ambos observados ao microscópio

A BIODIVERSIDADE EM RECURSOS GENÉTICOS ANIMAIS: ONDE CHEGÁMOS NO SÉCULO XXI

De acordo com os relatórios mundiais da FAO sobre o estado dos «RGAn para a Alimentação e a Agricultura», entre 2000-2014, cerca de 561 raças com características únicas foram extintas e 17% das raças de animais domésticos mundiais encontravam-se em risco de extinção, enquanto 600 raças já se tinham extinguido anteriormente. Em 2022, mais de 2 400 destas raças estavam em risco de extinção. Posteriormente, a situação de perda de biodiversidade continuou, com 60,3% das raças de animais domésticos classificadas como em risco ou com risco desconhecido no mundo (Figura 2), no final de 2025. Em Portugal, segundo o Regulamento (CE) n.º 455/2002, 91,0% das raças autóctones portuguesas estão em risco de extinção, restando apenas 5 raças que o não estão.

Figura 2. Estado da biodiversidade das raças de animais domésticos a nível mundial em 2025, reportado pela FAO (https://www.fao.org/dad-is/en)

As raças de animais domésticas com menos de 1 000 fêmeas e 20 machos férteis vivos são consideradas em situação crítica pela FAO. Para a definição do estatuto de risco das raças autóctones portuguesas, não foi adotado apenas um parâmetro (número de fêmeas reprodutoras), mas um conjunto de indicadores demográficos, genéticos e socioeconómicos, que avaliam com maior precisão o grau de ameaça de cada população. Em 2022, no âmbito PEPAC Portugal – apoio C.1.1.4, as raças autóctones foram classificadas quanto ao grau de risco de extinção como “em risco” e “rara”, respetivamente, em risco moderado e elevado de extinção.

Programas reprodutivos podem constituir uma opção para aumentar as taxas de reprodução da população

A utilização de programas reprodutivos em raças em risco de extinção, incluindo a aplicação da inseminação artificial, a transferência de embriões, a fertilização in vitro e outras tecnologias associadas, pode constituir uma opção para aumentar as taxas de reprodução da população. No entanto, as estratégias de conservação in situ dos animais nos seus solares de origem, por si só, não são suficientes para garantir a manutenção destes recursos, devido a situações imprevistas, como problemas sanitários, catástrofes naturais ou mesmo à atividade humana. Por conseguinte, uma estratégia adequada de conservação de qualquer população deve combinar ações de conservação in situ e ex situ. Desta forma, a criopreservação de gâmetas e embriões em bancos de germoplasma animal tem um efeito crucial na conservação ex situ desta biodiversidade genética, contribuindo também para uma estratégia dinâmica de manutenção de populações vivas nos seus ambientes naturais.

COMO DEVEMOS CONSERVAR AS RAÇAS?

A conservação dos RGAn deve seguir recomendações internacionais e atualmente, todos os países devem implementar planos nacionais para os RGAn. O Plano Nacional para os RGAn, aprovado em 2014, tendo em consideração o Plano Global de Ação da FAO e as respetivas prioridades estratégicas destinadas a combater a erosão da diversidade genética animal e promover a utilização sustentável dos RGAn, estabelece orientações sobre, entre outros, os procedimentos relacionados com a caracterização, conservação e utilização sustentável dos RGAn.

Estes planos incluem várias categorias de ações de conservação com diferentes designações, consoante os seus fins:

– conservação in situ (Conservação ou Manutenção dos animais na zona de produção ou de origem)

–  ex situ in vivo (Conservação ou Manutenção dos animais vivos fora da sua zona de produção ou origem)

–  ex situ in vitro (Crioconservação).

A execução destas ações de conservação deve ser realizada de forma coordenada, devido aos resultados complementares das várias estratégias, e incluir vários agentes do setor, criadores, associações de criadores, técnicos, cientistas e também o público em geral.

A crioconservação de gâmetas e embriões em azoto líquido a –196ºC, em bancos de germoplasma animal tem um papel crucial na conservação dos RGAn a longo prazo, pois as biotecnologias reprodutivas existentes permitem hoje, se existir material biológico criopreservado, repor o nível original de diversidade genética de uma população, em caso de colapso resultante de ação humana, desastre ambiental, agentes patogénicos ou quaisquer desequilíbrios populacionais.

Crioconservação e recomendações para a preservação das raças

À semelhança da Arca de Noé, a famosa embarcação bíblica construída por ordem de Deus para salvar a biodiversidade do grande dilúvio, onde se resgataram um casal de cada espécie animal, o BPGA pretende crioconservar sémen, embriões, oócitos, tecido ovárico e ADN das raças autóctones de animais para garantir a sua recuperação; salvaguardar, para uso futuro, a informação genética referente às características de adaptabilidade local e resiliência, resistência a doenças ou outras; suportar estratégias de conservação in vivo, nomeadamente para diminuir a consanguinidade, melhorar a adaptação ou potenciar o melhoramento genético, como também implementar colaborações internacionais que ajudem os objetivos elencados.

Se numa raça em risco, o número de animais disponíveis for inferior a este limiar, todos devem ser utilizados no programa de conservação, independentemente das relações familiares entre eles. No entanto, a implementação de objetivos ambiciosos em termos de quantidade de material genético a crioconservar (sémen e embriões), pode revelar-se muito difícil em raças numa situação crítica de perigo de extinção, devido ao seu elevado custo, mas sobretudo pelo reduzido número de animais disponíveis (Figura 3). Por outro lado, a qualidade do germoplasma é um dos principais fatores limitantes na preservação da fertilidade, tanto masculina como feminina, sendo por vezes difícil recolher e crioconservar material de qualidade em raças com poucos reprodutores disponíveis ou já com níveis elevados de consanguinidade.

Inovações recentes nas biotecnologias reprodutivas revelaram novas possibilidades na conservação de germoplasma

No entanto, apesar das limitações técnicas em algumas espécies e tipologia de germoplasma, inovações recentes nas biotecnologias reprodutivas revelaram várias novas possibilidades na conservação de germoplasma e na resolução de problemas de infertilidade, que devem ser implementadas o mais rapidamente possível.

Figura 3. Raças autóctones em situação de risco “rara”, mas com material criopreservado no Banco Português de Germoplasma Animal: à esquerda, raça Sorraia e à direta, Churra do Campo (Fonte: Fotografias de Raças Autóctones, Conhecer para Proteger. Ruralbit Lda)

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A biodiversidade agrícola é a base de um sistema alimentar seguro e resiliente, contribuindo para a paisagem, fixação e rendimento das populações em zona rurais, sustentando a coesão territorial. Preservar a diversidade de raças e espécies, garante os recursos genéticos animais vitais para adaptar os ecossistemas, a agricultura e os animais a desafios imprevisíveis, designadamente as alterações climáticas, doenças emergentes, novos hábitos alimentares ou visões da sociedade, protegendo assim o futuro do bem-estar e alimentação humana. Apesar de todas as ações desenvolvidas, o declínio da biodiversidade em Portugal continua no século XXI, importando suportar o BPGA como um dos pilares de salvaguarda para evitar a extinção das raças autóctones de animais domésticos.

→ Leia este e outros artigos completos na Revista Voz do Campo, edição de julho 2026.

Bibliografia: https://qr1.me-qr.com/pt/text/mopspbvd