Autoria: António Ramos – “O conhecimento nunca se aposenta”
(aramos@ipcb.pt). Professor-coordenador (aposentado) da Escola Superior Agrária de Castelo Branco

EFICIÊNCIA VERSUS CAPACIDADE
O sistema de plantação e os limites à intensificação cultural

Há que distinguir (pelo menos) dois níveis ou conceitos de Eficiência. A eficiência ao nível da árvore, que diz respeito ao uso eficiente da luz solar (exposição das folhas aos raios solares), e a eficiência ao nível do pomar, que diz respeito à capacidade global do pomar para intercetar a radiação solar disponível. As árvores mais pequenas são mais eficientes, mas um pomar com árvores maiores é mais produtivo (e resiliente). Um terceiro nível de eficiência diz respeito à componente económica.

O SISTEMA DE PLANTAÇÃO E SUAS COMPONENTES

O sistema de plantação é constituído por três componentes: i) o número de plantas e a sua distribuição no terreno (densidade e compasso); ii) a ocupação ou colonização do espaço aéreo pelas folhas (forma de condução); e iii) o vigor da árvore regulado, em geral, pelo porta-enxerto. A conjugação destas 3 componentes determina a estrutura da plantação (pomar, vinha ou olival), um fator-chave para a sustentabilidade dos ecossistemas frutícolas. Com efeito, a estrutura da plantação determina a capacidade de intercetar a luz solar e, também, a sua penetração e distribuição no interior das copas das árvores (eficiência). Espaços sem folhas (“vazios”) e zonas com folhagem demasiado densa levam à perda de eficiência no uso da luz solar, podendo traduzir-se na diminuição da produtividade ou da qualidade dos frutos.

Na maior parte dos trabalhos experimentais relativos à estrutura da plantação, os ensaios de densidade e compassos, de formas de condução e de porta-enxertos são tratados de uma forma independente

Isto acontece porque em geral se procura “isolar” o efeito de um fator, fazendo variar esse fator em igualdade de outras condições. Como tal, e porque outras condições (solos, climas, orografia, etc.) variam de ano para ano e/ou de local para local, os resultados são em geral aplicáveis apenas nas condições específicas de cada ensaio (estudos de caso) e de “duvidosa” aplicabilidade noutras condições.

Na realidade prática, as três componentes do sistema de plantação, determinantes da estrutura da plantação, não podem ser estudados como fatores independentes. A densidade e os compassos determinam o espaço disponível para a planta. O tamanho e a forma da árvore dependem do vigor (porta-enxerto) e influenciam a escolha da densidade e dos compassos. O espaço “volumétrico” que a planta pode ocupar para o seu desenvolvimento é, por isso, determinada pela conjugação das três componentes do sistema de plantação.

As altas densidades caracterizam-se por espaços (volumes de copa) menores, exigindo plantas com crescimento vertical e porta-enxertos mais fracos. Quando não existem porta-enxertos mais fracos e/ou quando não têm hábitos de crescimento vertical, as plantas desenvolvem copas mais volumosas e exigem densidades mais baixas.

EFICIÊNCIA DA ÁRVORE

A evolução dos pomares tradicionalmente conduzidos em formas volumosas (ex: vasos) e baixas densidades para os modernos pomares conduzidos em sebe e altas densidades, deu-se precisamente no sentido da redução do volume das árvores. Como a ocupação do volume disponível é determinante para a entrada na plena produção do pomar, a grande vantagem das altas densidades é a sua precocidade, permitindo a amortização do investimento de forma mais imediata.

Para comparar os resultados produtivos de pomares com diferentes estruturas, em vez de contar (ou estimar) o número de frutos e avaliar a produção por árvore ou por hectare, passou a expressar-se a carga e a produção por unidade de área da secção (transversal) do tronco (frutos ou kg por cm2) ou por unidade de volume de copa (frutos ou kg por m3).

A utilização destes índices de produtividade, nos últimos 20-30 anos, tem mostrado consistentemente que as árvores mais pequenas são mais eficientes na captação e uso da radiação solar, uma vez que (quase todas) as folhas estão mais bem expostas aos raios solares.

Neste sentido, a Figura 1 mostra uma simulação do efeito da carga ou densidade de frutos (expresso por unidade de volume da copa, mais propriamente, do “espaço que a árvore pode ocupar”) no peso médio do fruto, evidenciando a maior eficiência das árvores mais pequenas, uma vez que o peso médio do fruto (fruit weight) e a eficiência produtiva (yield efficiency) são mais elevados para as mesmas cargas (fruit density).

Figura 1. Simulação do efeito da carga da árvore sobre o peso médio do fruto à colheita (A) e sobre a eficiência produtiva (B), em pomares com diferentes estruturas

Legenda:

HDP: alta densidade/baixo volume – 4444 árvores/ha (3.00 × 0.75 m; 3.00 × 0.75 m);

MDP_2: média densidade/baixo a médio volume – 2857 árvores/ha (3.50 × 1.00 m; 3.50 × 1.25 m);

MDP_1: média densidade/médio a alto volume – 2000 árvores/ha (4.00 × 1.25 m; 4.00 × 1.75 m);

LDP: baixa densidade/alto volume – LPD: 1481 árvores/ha (4.50 × 1.50 m; 4.50 × 2.25 m).

Nota: Os valores entre parêntesis referem-se à estrutura da plantação (entrelinha × linha; altura × largura).

CAPACIDADE PRODUTIVA DO POMAR

Durante o mesmo período (últimas 2-3 décadas), alguns investigadores notaram uma certa inconsistência na avaliação da produtividade, uma vez que as árvores maiores eram as menos eficientes e, ao mesmo tempo, as mais produtivas.

Apesar de aparentemente antagónico, este aspeto tem relação direta com a interceção da luz.

As árvores maiores, com maior volumetria, preenchem melhor o espaço disponível do pomar (na horizontal e na vertical) e intercetam mais radiação solar, embora podendo ter algumas zonas da copa menos expostas aos raios solares.

A progressiva diminuição da entrelinha e da largura de copa implicará a utilização de porta-enxertos proporcionalmente mais ananicantes, levando à progressiva diminuição do tamanho da árvore (em largura e altura), da capacidade de intercetar a radiação solar e da produtividade do pomar. A simulação da capacidade de carga (orchard load) e da produtividade do pomar (orchard productivity) confirma esta situação (Fig. 2). Desta forma, pode dizer-se que a “quantidade” da interceção da radiação solar (ao nível do pomar) compensa alguma perda de “qualidade” na eficiência do uso da luz intercetada (ao nível da árvore).

Figura 2. Simulação do efeito da carga da árvore sobre a capacidade de carga do pomar (A) e do efeito da carga do pomar na capacidade produtiva (B), em pomares com diferentes estruturas

Legenda:

HDP: alta densidade/baixo volume – 4444 árvores/ha (3.00 × 0.75 m; 3.00 × 0.75 m);

MDP_2: média densidade/baixo a médio volume – 2857 árvores/ha (3.50 × 1.00 m; 3.50 × 1.25 m);

MDP_1: média densidade/médio a alto volume – 2000 árvores/ha (4.00 × 1.25 m; 4.00 × 1.75 m);

LDP: baixa densidade/alto volume – LPD: 1481 árvores/ha (4.50 × 1.50 m; 4.50 × 2.25 m).

Nota: Os valores entre parêntesis referem-se à estrutura da plantação (entrelinha × linha; altura × largura).

Limites à intensificação cultural

As cargas “objetivo” (para um determinado calibre desejado, cerca de 140 g para a pera ‘Rocha’) das árvores maiores variam entre 25 e 35 frutos/m3, enquanto nas árvores pequenas podem variar entre 35 e 50 frutos/m3. Mesmo atendendo a esta diferença, determinada pela maior eficiência das árvores mais pequenas, as simulações apresentadas nos exemplos (efetuadas de acordo com metodologia a apresentar em próximo artigo) mostram que as árvores pequenas perdem capacidade produtiva, porque têm baixa capacidade de carga, ou seja, é necessário que a árvore tenha uma determinada estrutura (volume) para poder otimizar a interceção da radiação disponível e, simultaneamente, “sustentar” os frutos.

A partir dos exemplos apresentados, não se poderá estabelecer um limite “concreto” à intensificação cultural, mas fica evidente que esse limite existe, embora possa ser variável de caso para caso.

Caberá aqui (apenas) lançar um “alerta” para a possibilidade de se cometerem exageros, seja através do uso de porta-enxertos demasiado ananicantes para os solos e clima de Portugal, seja pela implantação de sistemas de plantação e formas de condução de (muito) “baixo volume”.

→ Leia este e outros artigos completos na Revista Voz do Campo, edição de julho 2026.