Autoria: António Vicente1,2,3,4,5 e Ricardo Faria4,6,7,8
1 Escola Superior Agrária do Instituto Politécnico de Santarém – ESAS, Santarém, Portugal.
2 Centro de Estudos de Recursos Naturais, Ambiente e Sociedade – CERNAS, Coimbra, Portugal.
3 Centro de Investigação em Qualidade de Vida – CIEQV, Santarém, Portugal.
4 Sociedade Portuguesa de Recursos Genéticos Animais – SPREGA, Santarém, Portugal.
5 Associação Portuguesa do Cavalo Sorraia – Raça Primitiva, Alpiarça, Portugal (https://cavalo-sorraia.com/associacao/).
6 Instituto Nacional de Investigação Agrária e Veterinária – INIAV, Santarém, Portugal.
7 Centro de Investigação Interdisciplinar em Sanidade Animal – CIISA, Universidade de Lisboa / Faculdade de Medicina Veterinária, Lisboa, Portugal.
8 Depto Melhoramento e Nutrição Animal, Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia – FMVZ / UNESP, Botucatu/SP, Brasil.
Apesar da sua reduzida dimensão (cerca de 92.000km2), Portugal apresenta uma grande variabilidade no que diz respeito às condições de topografia, solos, clima, estrutura agrária, tradições sociais e culturais, o que origina uma diversidade muito pronunciada de diferentes condições ambientais. A extensa biodiversidade de animais domésticos existente em Portugal origina responsabilidades especiais e acrescidas na gestão e utilização sustentável dos recursos genéticos animais e é óbvia a dificuldade em gerir um número tão elevado de raças, na sua maioria com populações de pequena dimensão, ameaçadas de extinção (Vicente et al., 2025). O cavalo do Sorraia representa uma dessas populações animais e é, para além do Lusitano, Garrano e Pónei da Terceira, uma das poucas raças equinas autóctones presentes a nível nacional, sendo considerado um cavalo primitivo e o mais provável ancestral das atuais raças de cavalos de sela do sul da Península Ibérica.
O CAVALO DO SORRAIA
O cavalo do Sorraia representa uma ligação viva com a população selvagem do sul da Península Ibérica, sendo considerado um descendente direto do primitivo cavalo selvagem do sul da Península Ibérica. Embora o “moderno” cavalo do Sorraia possa ser considerado jovem em termos históricos, tendo sido “descoberto” apenas no início do século XX, a sua verdadeira linhagem remonta provavelmente a milénios, a uma época muito anterior à história registada.
Os equídeos são originários da Eurásia, e as evidências arqueológicas sugerem que populações pré-históricas de cavalos já percorriam várias regiões da Península Ibérica há 25.000 anos, incluindo o que é hoje Portugal. Grande parte da história específica do primitivo cavalo selvagem do sul da Península Ibérica permanece desconhecida. No entanto, as pinturas rupestres pré-históricas no sul de Portugal retratam equídeos selvagens com características semelhantes às dos atuais cavalos do Sorraia — com zebruras no corpo e cabeça subconvexa — indicando a existência/presença destes cavalos na Ibéria pré-histórica (Dan Vu, 2025).
A existência destes cavalos também em tempos mais recentes reflete-se nos nomes dados a diferentes lugares da região. Muitos locais onde os cavalos do Sorraia foram descobertos no início do século XX ostentam nomes como Zebro, Vale do Zebro e Zebrinho desde tempos passados, e continuam a tê-los até hoje. No século XV, os exploradores e comerciantes portugueses que viajaram e exploraram o continente africano encontraram equídeos listados de preto e branco, hoje conhecidos por zebras, aos quais deram o nome de “zebro”. Este nome surgiu provavelmente da semelhança destes animais africanos com os equídeos selvagens listados com os quais estavam familiarizados em Portugal.
Os registos históricos da Idade Média mostram que os equídeos selvagens, conhecidos por vários nomes — zebro, zevro, encebro, cebro, entre outros — deambulavam pela Península Ibérica
Derivados da palavra latina equiferus, estes termos, utilizados entre os séculos VIII e XVI, indicavam um equídeo selvagem com riscas, embora a sua identidade exata seja ainda objeto de debate académico. Uma descrição datada de 1576 d.C., traduzida do espanhol, menciona: “Nesta terra […] existiam muitas zebras, semelhantes a éguas pardo-acinzentadas, com uma pelagem de cor semelhante à dos ratos, um focinho ligeiramente escuro, relinchando como éguas e correndo tão depressa que nenhum cavalo as conseguia alcançar”. Estas descrições apresentam semelhanças com a população atual de cavalos Sorraia, sugerindo que o zebro-ibérico pode de facto ser o antepassado direto do cavalo Sorraia (Dan Vu, 2025).
A história moderna do cavalo do Sorraia começa em 1920, quando o Dr. Ruy d’Andrade, um reputado cientista, zoólogo, paleontólogo e criador de cavalos Lusitanos, encontrou uma manada de cerca de 30 cavalos enquanto caçava narcejas nos arredores do vale do rio Sorraia, perto de Coruche
Mais tarde, na década de 30 do século XX, adquiriu na região pouco mais de 10 exemplares com as características mais primitivas que conseguiu encontrar e se tornaram os fundadores da raça. Este animal de tipo primitivo, devido à sua grande resiliência e excelente adaptação ao seu habitat, nem sempre nas melhores condições climáticas e alimentares, foi o único que conseguiu sobreviver, permitindo concluir que deverá ser a população autóctone mais antiga e bem-adaptada ao local onde foi encontrado (Andrade, 1945).
O CAVALO DO SORRAIA É, SEM DÚVIDA, UMA DAS RAÇAS EUROPEIAS COM CARACTERÍSTICAS MAIS PRIMITIVAS
A cor da sua pelagem é rara, sendo geralmente pardo-rato ou baio-pardo, com crina e cauda bicolores. Apresenta extremidades mais escuras (cabeça de mouro), listas de mulo e cruciais, bem como zebruras nos membros, como é frequentemente apontado nas gravuras paleolíticas. Além disso, apresenta orelhas borladas com pelos mais escuros e claro para maior contraste e uma zona apical mais escura, típica de animais selvagens com comportamento gregário, para facilitar a comunicação e localização mútua (Figuras 1 a 5) (Oom & Serrano, 2006; Pinheiro, 2008). Apresenta um perfil subconvexo, elipométrico e mediolíneo, com uma altura média ao garrote de 1,44m (♀) e 1,48m (♂), muito proporcionado e com boa conformação como um cavalo de sela, com andamentos ágeis, elásticos e funcionais. É um cavalo com aptidões e utilização como animal de sela e atrelagem ligeira, equitação especial e para jovens, trabalhos agrícolas e preservação genética, muito resistente e versátil (Figura 6).




É relevante salientar a importância da preservação desta raça rara, sendo uma das menos numerosas e em maior perigo de extinção a nível mundial, não ultrapassando os 350 indivíduos, e com um número de éguas reprodutoras de cerca de 140 fêmeas, em pouco mais de duas dezenas de criadores ativos em Portugal e na Alemanha.
Sendo uma raça ameaçada de extinção, interessa dar a conhecer alguns dados demográficos da população para melhor a estudar e caracterizar, compilando-se informação relevante que possa auxiliar na sua preservação.
Na Figura 7 apresentam-se os nascimentos acumulados por criador de raça Sorraia (em %) ao longo do tempo, onde se pode observar a concentração de nascimentos nos mais influentes criadores desta população, pertencentes à Família Andrade e à Coudelaria Nacional.

Na Figura 8 apresenta-se a distribuição dos nascimentos da raça nos últimos anos e que foram inscritos no Livro Genealógico que variaram ente 7 animais (2003) e 25 animais (2010 e 2014). Podemos constatar, que mesmo com um efetivo reprodutor de fêmeas adultas superior a 100 éguas o número de poldros inscritos no livro de nascimentos é sempre muito inferior.

A criação dos animais desta raça está muito concentrada nas regiões do Alentejo e Ribatejo conforme se pode constatar pela análise da Figura 9, onde se apresenta a distribuição dos nascimentos por concelho em Portugal.

Para além da criação de animais desta raça em Portugal existe igualmente, desde o tempo da reforma agrária (com o perigo de perda desta importante população, o Dr. Ruy D’Andrade enviou alguns animais para um reconhecido hipólogo e criador de cavalos alemão, Dr. Michael Shäfer) um importante núcleo de cavalos Sorraia na Alemanha (Figura 10). Adicionalmente e pontualmente ainda foram registados cavalos Sorraia nascidos em Espanha e na Holanda.

Outro aspeto que importa realçar é a distribuição das pelagens na população que só podem ser de duas raras variedades distintas, pardo-rato ou cinzento (a dominante) ou pardo amarelo ou baio (Figura 11). Destaca-se claramente a predominância da pelagem dominante de cor pardo-rato com quase ¾ do total, relativamente à pelagem baio-pardo com cerca de 27%.

Um aspeto bastante preocupante nesta população tem sido o aumento constante dos níveis de consanguinidade (Figura 12), onde podemos observar valores a rondar os 40% para os animais nascidos nos últimos anos. Têm sido desenvolvidas algumas estratégias de troca de reprodutores entre criadores e países, acasalamentos dirigidos e monitorização da população numa tentativa de controlar a sua evolução e preservação da escassa variabilidade genética existente.
Existe igualmente um profundo conhecimento genealógico desta população com mais de 10 gerações conhecidas de ascendentes até aos fundadores da raça, ou seja, detemos um conhecimento completo do pedigree dos animais desta população (Figura 12).

GARANTIR A CONTINUIDADE DA RAÇA
A continuidade da raça está dependente da manutenção, não só de um número mínimo de animais que garanta a sua preservação, como também da variabilidade genética que constitui a base do seu potencial evolutivo. O programa de gestão e conservação em curso tem sido muito importante, pois tem resultado num aumento do número de animais nascidos nos últimos anos, bem como na melhoria dos parâmetros genéticos e demográficos da população (DGAV, 2013). Revela-se urgente o aparecimento de novos criadores que possam promover e difundir esta importante reserva genética.
→ Leia este e outros artigos completos na Revista Voz do Campo, edição de julho 2026.
Bibliografia consultada: https://qr1.me-qr.com/pt/text/g2fopq1w

