Vivemos numa época em que os diplomas são frequentemente apresentados como a principal medida de inteligência e competência. Desde cedo, somos ensinados a acreditar que o sucesso depende da acumulação de qualificações, certificados e títulos académicos. Quem possui uma licenciatura, um mestrado ou um doutoramento é, muitas vezes, automaticamente visto como mais capaz, mais preparado e até mais inteligente do que quem seguiu outros caminhos.

O AGRICULTOR NO SÉCULO XXI
Experiência, conhecimento e inovação


OPINIÃO DE MARISA COSTA – PRODUTORA DE LEITE

Todos sabemos que o conhecimento é a melhor e maior arma que o ser humano possui. Ao longo da história, foram as ideias, as descobertas e a capacidade de aprender que permitiram à humanidade evoluir, superar desafios e transformar o mundo. O conhecimento cura doenças, cria tecnologias, impulsiona economias e abre portas para oportunidades que antes pareciam impossíveis. No entanto, existe uma figura silenciosa que continua a sustentar a vida humana sem palco, sem prestígio mediático e, muitas vezes, sem reconhecimento: o agricultor.

O setor agrícola é um setor envelhecido

De acordo com o INE de 2019 apenas cerca de 2,8% dos produtores agrícolas tinham menos de 35 anos e de acordo com o GPP a idade média dos agricultores portugueses ronda os 64 anos. Isto significa que muitos agricultores não tiveram acesso ao ensino superior. Ainda assim, são eles que desempenham uma das funções mais essenciais para a sobrevivência humana: produzir alimentos. Sem eles, não haveria pão na mesa, leite, carne e frutas nos mercados, legumes nos supermercados ou matéria-prima para inúmeras indústrias alimentares.

O agricultor acorda antes do nascer do sol, trabalha sob calor, chuva e incerteza, não vive de discursos sofisticados, vive da terra, do esforço e da experiência passada de geração em geração e ainda assim, é dele que depende aquilo que há de mais básico e indispensável à sobrevivência humana: a comida.

Este não é um elogio à ignorância, muito pelo contrário. É importante aprender com o passado, respeitar o presente e pensar no futuro. Num mundo em constante e acelerada transformação a formação e o conhecimento são estratégicos e imprescindíveis para prosperar.

Nos últimos anos tem surgido uma nova geração de agricultores que contraria muitos dos estereótipos tradicionalmente associados ao setor agrícola. São cada vez mais os jovens agricultores que chegam ao campo com formação académica, conhecimentos técnicos e uma visão empresarial moderna, preparados para enfrentar os inúmeros desafios que a agricultura enfrenta no século XXI.
As alterações climáticas, a escassez de recursos hídricos, a volatilidade dos mercados, o aumento dos custos de produção e as exigências ambientais colocam desafios cada vez mais complexos. Para responder a esta realidade, muitos jovens produtores apostam na formação em áreas como agronomia, gestão, tecnologia, sustentabilidade e inovação agrícola.

Esta tendência demonstra que a agricultura moderna exige cada vez mais conhecimento

No entanto, também revela algo importante: a formação académica não substitui a experiência acumulada pelas gerações anteriores, mas complementa-a. O sucesso da agricultura do futuro dependerá precisamente da combinação entre a sabedoria prática dos agricultores mais experientes e o conhecimento técnico trazido pelos mais jovens.

Chegou o momento de a sociedade olhar para o agricultor com mais respeito e reconhecimento. Porque alimentar o mundo não é uma tarefa simples. E quem o faz demonstra, todos os dias, que o conhecimento verdadeiro pode nascer tanto da escola como da experiência.

No fim de contas, o agricultor lembra-nos uma verdade simples: a sabedoria não se mede apenas pelos anos de estudo, mas também pela capacidade de transformar conhecimento em algo que beneficia toda a humanidade.

→ Leia este e outros artigos completos na Revista Voz do Campo, edição de julho 2026.