Em 1498, Vasco da Gama chegava a Calecute (Índia) e abria uma nova página na história de Portugal. A descoberta do caminho marítimo para a Índia constituiu muito mais do que um feito náutico extraordinário. Representou a abertura de novas rotas comerciais, o encontro entre culturas e a afirmação de Portugal como uma potência global.

OPINIÃO DE FILIPA VELEZ
AZEITÓLOGA
Mais de cinco séculos depois, a Índia volta a surgir no horizonte estratégico da Europa e do nosso país. Portugal, tão bem conhecido como a nação que “deu mundos ao mundo”, encontra-se novamente perante a oportunidade de reforçar a sua ligação a um dos mercados mais promissores do século XXI. Desta vez, porém, não são as caravelas que procuram o Oriente. São as empresas, os produtores e os setores estratégicos de Portugal que olham para um dos maiores mercados do mundo em busca de novas oportunidades de crescimento.
A conclusão das negociações do acordo comercial entre a União Europeia e a Índia poderá marcar o início de uma nova era nas relações económicas entre os dois blocos. Para o setor agroalimentar europeu, e particularmente para a fileira do azeite, abre-se uma janela de oportunidade que merece ser analisada com atenção e visão estratégica.
A Índia é atualmente o país mais populoso do planeta, com mais de 1,4 mil milhões de habitantes e uma das economias que mais cresce a nível mundial. Segundo um estudo recente da AICEP, a classe média indiana poderá ultrapassar os 700 milhões de pessoas até 2030, um indicador que ajuda a compreender a dimensão do potencial deste mercado para produtos agroalimentares de maior valor acrescentado.
Tradicionalmente, a alimentação indiana assenta na utilização de diferentes óleos vegetais, como o óleo de palma, soja, girassol, mostarda e ghee. O azeite continua a representar uma pequena parcela do mercado alimentar.
No entanto, os sinais de mudança são evidentes.
A crescente urbanização, a exposição a hábitos alimentares internacionais e uma maior preocupação com a saúde e o bem-estar têm vindo a criar condições favoráveis para o crescimento do seu consumo.
O consumidor indiano das grandes áreas metropolitanas é hoje mais informado, mais exigente e mais atento ao que consome. Procura qualidade, valoriza a saúde e está cada vez mais aberto a experimentar novos produtos. Neste contexto, o azeite beneficia de uma imagem positiva, associada à dieta mediterrânica e a um estilo de vida saudável.
Embora a Índia represente ainda uma parcela reduzida das exportações portuguesas de azeite (menos de 1%, segundo a AICEP) estamos perante um dos mercados mais promissores para o crescimento do setor na próxima década. Pequenas alterações nos hábitos de consumo, poderão traduzir-se em aumentos expressivos da procura.
Mas seria um erro olhar apenas para a dimensão do mercado. A Índia é um país de enorme diversidade cultural, económica e social. O que atrai um consumidor de Mumbai poderá não ter o mesmo impacto em Nova Deli ou Bangalore. Os desafios são, por isso, consideráveis.
Desde logo, o fator preço continua a ser uma barreira importante. O azeite é frequentemente percecionado como um produto premium e enfrenta a concorrência de alternativas locais muito mais económicas. Existe também o desafio de educar e informar o consumidor, demonstrando a versatilidade do produto e os seus benefícios nutricionais.
A boa notícia é que o novo acordo entre a União Europeia e a Índia poderá contribuir para ultrapassar alguns destes obstáculos. Segundo a AICEP, a redução das tarifas aduaneiras atualmente aplicadas aos produtos agroalimentares europeus poderá representar um fator importante para aumentar a competitividade do azeite no mercado indiano.
Tudo indica que, concluídos os respetivos processos de ratificação, o acordo possa entrar em vigor durante 2027. Contudo, importa não cair na tentação de acreditar que um acordo comercial resolve todos os problemas. Os acordos abrem portas. Não garantem vendas.
O verdadeiro desafio começa precisamente depois da assinatura.
Se existe uma lição que os mercados internacionais nos têm ensinado é que o crescimento do consumo de azeite não acontece de forma espontânea. Exige investimento, persistência e uma estratégia de longo prazo. É aqui que a promoção concertada da fileira assume uma importância decisiva.
Nenhuma empresa portuguesa conseguirá, sozinha, criar uma categoria de consumo num mercado com mais de mil milhões de habitantes. Será necessário um esforço coletivo.
Se há algo que o setor do azeite português tem demonstrado ao longo dos últimos anos é a sua capacidade de trabalhar, inovar e superar desafios.
O Ministério da Agricultura e Mar, a AIFO, as associações da fileira, os produtores, as câmaras de comércio e a AICEP terão de trabalhar de forma articulada para promover não apenas as marcas portuguesas, mas também o próprio conceito de Azeite. Porque a conquista de novos mercados exige muito mais do que bons produtos. Exige estratégia, continuidade e uma visão partilhada.
Mais do que vender azeite, importa transmitir conhecimento. Importa explicar o que distingue o azeite de outros óleos vegetais, comunicar os benefícios da dieta mediterrânica e associar o produto à saúde, à qualidade alimentar, à sustentabilidade, ao estilo de vida e à autenticidade dos territórios produtores.
Neste contexto, a diplomacia económica portuguesa assume uma importância acrescida. A abertura de portas e a consolidação de uma presença consistente num mercado tão exigente como o indiano, serão fatores determinantes para transformar potencial em oportunidades concretas para a fileira do azeite português.
Portugal dispõe hoje de uma fileira moderna, competitiva e altamente exportadora. Produzimos dos melhores azeites do mundo e temos vindo a afirmar-nos nos mercados internacionais através da qualidade, da inovação e da eficiência.
Mas a qualidade, por si só, não chega.
A conquista de novos mercados exige visão estratégica, capacidade de cooperação e compromisso.
Os portugueses sempre souberam olhar para além do horizonte. Foi assim nos Descobrimentos e continua a ser assim sempre que enfrentamos novos desafios. Talvez por isso, a Índia não deva ser vista apenas como um novo mercado, mas como uma oportunidade para afirmar a qualidade e a competitividade do azeite português numa das economias mais dinâmicas do mundo. Hoje não navegamos em caravelas nem procuramos especiarias. Procuramos mercados, consumidores e oportunidades para criar valor para a agricultura portuguesa. A Índia representa uma dessas oportunidades.
O potencial existe. O mercado está a crescer. O caminho começa a abrir-se diante de nós.
Cabe-nos agora ter a ambição, a visão e a capacidade de o percorrer!
→ Leia este e outros artigos completos na Revista Voz do Campo, edição de julho 2026.

