Nos dias 14 e 15 de março, o Hotel Vila Galé, em Évora, recebeu cerca de mil congressistas para a 16ª edição das Jornadas Internacionais do Hospital Veterinário Muralha de Évora
Ao longo de dois dias de palestras, workshops e exposições, o tema “Pecuária Inteligente” foi debatido. Criado com foco na pecuária extensiva, o Congresso visa promover a melhoria do desempenho das explorações, por meio da partilha de conhecimento entre profissionais do setor.
Nuno Prates, presidente da Comissão Organizadora das Jornadas Internacionais Hospital Veterinário Muralha de Évora, expressou à nossa reportagem a sua satisfação com a organização do evento deste ano, afirmando que correspondeu às expetativas. “Tivemos as inscrições mais ou menos que estávamos à espera, o mesmo que os outros anos. Há volta de 900 inscritos”, comenta, sublinhando que, apesar de não conseguir expandir mais a iniciativa devido à falta de estrutura em Évora, o evento mantém um alto nível de inovação, mantendo a relevância do encontro com temas novos a cada edição.
A diversidade de temas é uma das características das Jornadas.
“Nas várias salas decorrem ao mesmo tempo vários temas, como ruminantes, equinos, e vários workshops interessantes. Além disso, contamos com a presença da nossa comissão científica, que também contribui para uma sala de comunicações livres, estabelecendo um elo com as universidades e a comunidade científica”, afirma Nuno Prates. Nuno Prates destaca ainda a satisfação com a mudança para o hotel Vila Galé, após muitos anos no antigo local. Ao ser questionado sobre o aumento do interesse internacional, especialmente de oradores além-fronteiras, Nuno Prates confirma que o evento atrai cada vez mais profissionais estrangeiros, sobretudo de Espanha.
“Os nossos vizinhos espanhóis têm vindo cada vez mais, seja como oradores ou como participantes. A pecuária da Extremadura tem características semelhantes à nossa, e isso facilita a troca de experiências”, diz ainda, sublinhando ao mesmo tempo a importância de aprender com outras realidades.
O tema da edição deste ano também foi cuidadosamente escolhido, com o apoio de uma comissão consultiva. “Tivemos a preocupação de trazer temas que não se limitam à nossa área, como as aves, os porcos e o leite. Embora não estejam diretamente ligados ao nosso congresso, são áreas que contribuem para a profissionalização dos setores e para o nosso know-how”, explica. Nuno Prates admitiu que inicialmente teve receio do desafio de ampliar os temas do evento, mas agora sente que foi um desafio superado, com as informações recebidas provando que o evento está no caminho certo.
A pecuária extensiva continua a ser um dos focos principais das Jornadas. “A pecuária extensiva é a base do nosso Congresso. Estamos dirigidos principalmente para os produtores, mas também recebemos técnicos que acompanham essas explorações. O objetivo é passar informação prática que os produtores possam aplicar no dia a dia das suas explorações, melhorando o seu desempenho”, vinca.
Nuno Prates frisa também a importância de comunicar de forma eficaz com a sociedade sobre a relevância da pecuária extensiva. “Nós, que estamos debaixo do montado, que trabalhamos na conservação da natureza, na fixação de carbono, temos um papel essencial que muitas vezes não é devidamente valorizado. A mensagem que passa para a sociedade muitas vezes não é correta, e precisamos de uma interclasse que possa falar por nós e transmitir uma mensagem real e cientificamente apoiada”, sublinha.
Por fim, o presidente da Comissão Organizadora das Jornadas partilha: “As Jornadas começaram como uma brincadeira há 16 anos (…) mas hoje sou grato à minha equipa que tem estado comigo durante todo este tempo. Somos mais dedicados à veterinária, mas este evento tem-se tornado cada vez mais relevante para nós”.
O evento organizado pelo Hospital Veterinário Muralha de Évora tem uma importância vital para o setor zootécnico, salienta o Bastonário da Ordem dos Médicos Veterinários (OMV), Pedro Fabrica.
“Tenho acompanhado a evolução das Jornadas ao longo dos anos e, desde o início, o que foi inovador nesse evento foi a união dos produtores e médicos veterinários para discutir questões comuns”, afirma o Bastonário da Ordem dos Médicos Veterinários à nossa reportagem. De acordo com Pedro Fabrica, a colaboração entre essas duas partes é fundamental, especialmente quando se trata de temas como a sanidade e saúde animal. O médico veterinário desempenha um papel crucial na gestão da saúde dos animais, enquanto o produtor está diretamente ligado ao impacto que esses cuidados têm na produção.
Além disso, o evento destaca-se pela sua relevância regional e internacional. “Já não se trata apenas de um evento local, mas sim de uma referência que atrai participantes até de países vizinhos, como a Espanha”, considera. Nuno Prates acredita que o “formato descentralizado e focado em animais de produção e cavalos só seria possível numa região como Évora, onde a pecuária extensiva é uma atividade central. Isso contribui para que o evento se torne uma referência para a medicina veterinária, para os produtores e engenheiros zootécnicos”.
Observando a evolução do programa ao longo dos anos, o Bastonário da Ordem dos Veterinários nota uma mudança significativa na abordagem das Jornadas. “Há dez anos atrás, provavelmente discutiam-se muito mais casos clínicos e o problema do ponto de vista da doença, hoje assistimos também a palestras desse tipo, mas mais relacionadas com a inovação, gestão, com o futuro e a sustentabilidade do setor”, afirma.
Para Pedro Fabrica, comenta também a evolução do currículo nas universidades, que preparam os médicos veterinários para lidar com uma visão mais holística do trabalho. “Os médicos veterinários de hoje são preparados para compreender a saúde do animal de maneira integrada, considerando não apenas a doença, mas também a gestão da exploração pecuária como um todo. Hoje não é visto só a doença do animal, hoje o animal é visto como um todo (…). O produtor que deseja evoluir e ter ganhos sustentáveis sabe que não pode prescindir do trabalho do médico veterinário”, conclui.
Para além das várias sessões científicas apresentadas, na Sala Alter Real – realizou-se três mesas-redondas. A saber:
“Profissionalização e Organização do Setor”, com a participação de Idalino Leão (AGROS), Nuno Correia (MAPORAL) e Pedro Ribeiro (ANCAVE) e com a moderação de Joana Vieira (Veterinária Atual)
“Digitalização e Inovação Tecnológica na Pecuária” com a participação de Gema Almendro (Datamars Livestock), Guilherme Silva (Farmcontrol), André Almeida (Centro de Investigação LEAF e Laboratório Associado TERRA do ISA – UL) e com a moderação de Luís Alcino (InovTechAgro)
“Sustentabilidade da Produção de Carne” com a participação de Xóan Rodríguez (Alltech Espanha), Juan Pascual (Elanco Animal Health), Carla Pinto-Cruz (Universidade de Évora), José Freire (Fertiprado) e com a moderação de Paulo Gomes, CEO da Voz do Campo
Prémios das Jornadas HVME 2025:
Monte do Zambujal – Sociedade Agropecuária, Lda. – Vencedor do prémio Inovar na Pecuária Extensiva 2025, com o apoio da Consulai
Jorge Matos – Vencedor do prémio Veterinários Sem Fronteiras, pelo seu trabalho eleito pelo público com 270 votos
Eva Cunha – Vencedora do prémio Melhor Poster, eleito pela comissão científica
Ana Neves – Vencedora do prémio Melhor Comunicação Oral, também eleita pela comissão científica
→ Leia a reportagem completa da 16ª edição das Jornadas Internacionais do Hospital Veterinário Muralha de Évora na Revista Voz do Campo – edição de maio 2025, disponível no formato impresso e digital.
Recorde aqui as sessões do Programa Agropecuário:












