Atualização do estudo de caracterização da fileira, apresentada esta manhã pela Consulai no V Congresso da Portugal Nuts, revela uma década de forte transformação do setor, impulsionada sobretudo pela amêndoa. Exportações atingiram valores recorde e Portugal afirma-se como produtor competitivo no contexto europeu.

Pompeu Pais Dias, coordenador de Estudos e Estratégia da Consulai

O setor dos frutos secos em Portugal continua a consolidar a sua trajetória de crescimento, com aumentos expressivos na produção, nas exportações e na capacidade produtiva instalada. A conclusão foi apresentada esta terça-feira por Pompeu Pais Dias, coordenador de Estudos e Estratégia da Consulai, durante o V Congresso Nacional da Portugal Nuts, que decorre em Évora.

Na apresentação da atualização do estudo de caracterização do setor dos frutos secos em Portugal, o coordenador da Consulai traçou um retrato detalhado da evolução registada nos últimos anos, defendendo que a fileira vive um momento de afirmação estrutural, sustentado por investimento, modernização tecnológica e crescente orientação para os mercados externos.

Logo no arranque da intervenção, Pompeu Pais Dias resumiu o momento do setor em “cinco números” que considera reveladores da dimensão alcançada pela fileira. Entre os indicadores destacados estão o “ano recorde de produção” registado recentemente, os 115 milhões de euros de exportações de amêndoa, uma área global de 227 mil hectares dedicada aos frutos secos e um consumo nacional de cerca de 7,5 quilos per capita.

Segundo Pompeu Pais Dias, estes números refletem o impacto dos investimentos realizados nos últimos anos, sobretudo em novas plantações de amendoal que entraram entretanto em plena produção.

Portugal ganha peso no contexto europeu

A análise apresentada mostra que Portugal se está a afirmar como um produtor relevante no panorama europeu dos frutos secos, não apenas pela expansão da área cultivada, mas também pelo modelo produtivo adotado. “Portugal afirma-se já como um player europeu de relevância”, sustenta Pompeu Pais Dias.

O especialista destaca que os investimentos mais recentes permitiram introduzir sistemas produtivos tecnologicamente mais avançados, especialmente no amendoal de regadio, aproximando o país dos principais produtores internacionais.

A nível mundial, o setor continua também em expansão. Segundo os dados apresentados, a área global de frutos secos cresceu cerca de 17%, com especial destaque para a amêndoa e a noz. Espanha, Estados Unidos e Marrocos lideram atualmente a produção de amêndoa, enquanto a China e os Estados Unidos dominam no segmento da noz.

No conjunto dos frutos secos, amêndoa, caju e noz representam mais de 60% da produção mundial, mantendo trajetórias de crescimento positivas.

Produção de amêndoa dispara mais de 180%

Um dos dados mais expressivos da apresentação esteve relacionado com a evolução do amendoal em Portugal. Desde 2019, a área dedicada à cultura aumentou cerca de 50%, enquanto a produção registou um crescimento superior a 180%. “Estamos agora a assistir à entrada em plena produção de muitas destas áreas”, explica Pompeu Pais Dias.

A expansão do regadio surge como um dos principais motores desta evolução. O responsável sublinha que Portugal seguiu a tendência espanhola de modernização dos sistemas produtivos, mas “de forma muito mais acelerada”, beneficiando das oportunidades de investimento criadas nos últimos anos.

Além da área, também os indicadores de produtividade apresentam uma evolução significativa. No caso da amêndoa, a produtividade média aumentou cerca de 88% face a 2019, evolução associada à introdução de novas variedades, maior densidade de plantação e sistemas de produção intensivos e tecnologicamente mais avançados.

“Portugal posiciona-se hoje muito bem também ao nível da eficiência produtiva”, refere.

Exportações atingem valores históricos

Os dados do comércio externo confirmam igualmente a dinâmica da fileira. Portugal atingiu um novo máximo histórico nas exportações de frutos secos, que rondam atualmente os 150 milhões de euros, praticamente o dobro dos valores registados em 2019. A amêndoa continua a assumir-se como principal motor deste crescimento.

“A amêndoa tem sido a grande alavanca deste aumento das exportações”, evidencia o coordenador  de Estudos e Estratégia da Consulai.

Pompeu Pais Dias chama ainda a atenção para a crescente valorização do produto exportado, nomeadamente através da comercialização de amêndoa descascada, com maior valor acrescentado.

Apesar de Espanha continuar a ser o principal destino das exportações portuguesas, Pompeu Pais Dias sublinha que outros mercados europeus apresentam preços médios significativamente mais elevados. Os Países Baixos, Alemanha e Itália surgem entre os mercados que melhor remuneram a amêndoa portuguesa, evidenciando, segundo o especialista, oportunidades de valorização comercial além da proximidade geográfica espanhola.

Investimento supera os 300 milhões de euros

A atualização do estudo incorporou também dados do PDR 2020, permitindo traçar uma radiografia do investimento realizado na fileira desde 2019. Segundo os números apresentados, foram apoiados cerca de 2.300 projetos de investimento ligados aos frutos secos, num montante global próximo dos 300 milhões de euros.

Destes, 77% das áreas elegíveis corresponderam ao amendoal, evidenciando a alavanca da cultura.

A distribuição regional dos investimentos revela igualmente diferenças relevantes entre regiões. O Alentejo lidera ao nível do investimento médio por projeto, refletindo modelos produtivos de maior escala e mais intensivos em tecnologia e a região Centro também intercala no meio da tabela. “Estamos a falar de modelos de produção mais modernos, recorrendo a mais tecnologia, mais valor acrescentado e com uma integração maior na cadeia de valor”, argumenta Pompeu Pais Dias.

Mais empresas, mais produção e maior eficiência

A apresentação revelou ainda que o setor registou crescimento no número de empresas e de trabalhadores ao serviço entre 2019 e 2024. Ainda assim, o número médio de trabalhadores por empresa reduziu ligeiramente — um indicador que o responsável interpreta como sinal de maior eficiência operacional. “Produzimos mais, exportamos mais e temos mais área com menos pessoas por empresa”, observa.

Pompeu Pais Dias destaca igualmente a crescente atenção do setor às questões da sustentabilidade e da valorização nutricional dos frutos secos, recordando ao mesmo tempo que existem já evidências científicas reconhecidas ao nível europeu sobre os benefícios do consumo de noz para a saúde.

Setor mantém trajetória alinhada com projeções para 2030

Na parte final da apresentação, o responsável recuperou as projeções elaboradas no primeiro estudo de caracterização do setor, desenvolvido em 2019, comparando-as com a evolução entretanto registada.

No caso do amendoal, Portugal encontra-se “bastante alinhado” –  e até acima – das previsões feitas para 2030. Já na noz e, sobretudo, na castanha, o crescimento ficou aquém do potencial inicialmente estimado.

Apesar disso, Pompeu Pais Dias considera que os principais indicadores económicos e comerciais continuam a revelar uma trajetória positiva para o setor. “Os indicadores económicos, de comércio externo e de procura de mercado estão cá e continuam a existir para o setor dos frutos secos como um todo”, vinca.


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