O SmartAgriSense, projeto financiado pelo Voucher para Startups do PRR (Aviso 21 – vertente Agrotech), está a entrar na fase de utilizadores piloto, antes do lançamento comercial, e ambiciona acelerar a digitalização das pequenas e médias explorações agrícolas em Portugal. Francisco Seruya, gerente da Autonomous World, empresa responsável pelo desenvolvimento do SmartAgriSense, explica em entrevista como nasceu esta plataforma de Inteligência Artificial concebida para apoiar agricultores e produtores florestais na gestão inteligente de documentos e na tomada de decisões.
Como surgiu a ideia de desenvolver o SmartAgriSense e que necessidades concretas do setor agrícola procurou resolver?
A ideia do SmartAgriSense nasceu da observação de familiares e amigos que vivem uma realidade ainda hoje marcada no setor agrícola português: a gestão financeira e documental das explorações de pequena e média dimensão é, em muitas situações, feita em papel ou ficheiros Excel. Faturas dispersas, sem categorização útil, sem visão consolidada do custo por hectare ou por cultura.
Estamos habituados ao mundo das grandes plataformas digitais onde preconizam conseguem cobrir todo e qualquer sector com uma única solução, mas a realidade é que, as ferramentas existentes tem pouca orientação para o setor agrícola. Na sua maioria, são demasiado caras, complexas e necessitam de demasiadas customizações. Faltava uma solução que falasse a linguagem do agricultor e que estivesse acessível a quem trabalha numa dimensão pequena e familiar.
O SmartAgriSense responde exatamente a este desafio: começar pelo problema mais imediato, a leitura automática de faturas com categorização específica para o setor, e a partir daqui os modelos começarem a crescer na direção do que cada exploração precisa para tomar melhores decisões.
De que forma a plataforma simplifica a gestão documental dos agricultores e produtores florestais no dia a dia?
A simplificação começa logo num dos primeiros pontos de maior esforço mensal, gestão de faturas: com uma fotografia do telemóvel ou upload direto no nosso website, o sistema trata de tudo. Os nossos modelos de Inteligência Artificial leem o documento, identificam o fornecedor, extrai os itens e fundamentalmente categoriza cada despesa segundo uma taxonomia específica do setor agrícola: fertilizantes azotados, fitofarmacêuticos, rações, sementes, combustível agrícola, eletricidade de regadio, água, manutenção de equipamentos, e por aí adiante.
A partir daqui a plataforma constrói automaticamente um dashboard de exploração: custo total por categoria, custo por hectare, evolução mensal, alertas quando há desvios face ao período homólogo. Tudo aquilo que, manualmente, demoraria horas ou dias a transcrever, calcular e sumarizar. Na prática, na maior parte das explorações de pequena e média dimensão, simplesmente não se faz de imediato, quando vão tratar do tema o esforço é multiplicado.
O ganho não é apenas no tempo e automação é na capacidade de decisão. Saber, com dados, quanto está a custar um saco de adubo na minha exploração, com isto abre-se caminho para otimizações que de outra forma ficariam invisíveis ou com demasiado consumo de tempo.
Quais são as principais diferenças entre o SmartAgriSense e outras soluções de gestão atualmente disponíveis no mercado?
Há três diferenças que considero estruturais.
A primeira é a especialização Agrotech. A maioria das ferramentas de gestão financeira disponíveis no mercado nasceram para a pequena e média empresa em geral, sem qualquer conhecimento do setor agrícola. O SmartAgriSense foi construído desde o início para ler documentos agrícolas, com uma taxonomia própria do setor e modelos de IA treinados em terminologia agrícola portuguesa.
A segunda é a linguagem e a experiência de utilização. Não pedimos ao agricultor que aprenda contabilidade, fluxos de aprovação ou como configurar a aplicação. A interface fala da exploração, dos hectares, das culturas, das parcelas. Quem usa sente que a ferramenta foi pensada para si.
A terceira é o enquadramento institucional do projecto. Estamos a desenvolver o SmartAgriSense ao abrigo do Voucher para Startups do PRR – Aviso 21, vertente Agrotech o que significa que o projeto está alinhado, desde o desenho, com as prioridades da transição digital e climática do setor. Isto manifesta-se, por exemplo, no nosso roadmap: estamos a desenvolver um catálogo dedicado de apoios públicos (PEPAC, PRR, IFAP, GAL/LEADER) e um módulo de recomendações de eficiência no consumo de água, fertilizantes e fitofarmacêuticos.
Considera que a digitalização continua a ser um desafio para as pequenas e médias explorações agrícolas em Portugal? Quais são os principais obstáculos?
Continua, sem dúvida. E os obstáculos são vários, mas eu destacaria três que se reforçam mutuamente.
O primeiro é o custo. A maioria das soluções de gestão agrícola digital no mercado tem mensalidades, custos de implementação ou requisitos de hardware que são proibitivos para uma exploração de pequena dimensão. Quando o teto da margem é apertado, o investimento em software acaba sempre por ficar para último.
O segundo é a complexidade. Mesmo quando o software está disponível, a curva de aprendizagem é demasiada. Pede-se ao agricultor que assuma um papel de configurador de sistemas, gestor de dados, administrador de utilizadores. Não é a especialização do agricultor, nem deve ser. Por outro lado, os processos de consultoria também extravasão os preços que estes conseguem suportar para manter margens num negócio tão estrangulado.
O terceiro é a falta de adequação ao setor. Muitas ferramentas chegam ao agricultor já com categorizações, fluxos e linguagem pensadas para outros tipos de negócio. Acaba por ser exigido um esforço de tradução constante, que desincentiva.
A combinação destes três fatores explica em larga medida porque é que, em pleno 2026, a fatura em papel ainda é a regra na pequena e média exploração.
Que papel desempenha a Inteligência Artificial na análise e categorização automática de documentos agrícolas?
A Inteligência Artificial é absolutamente central. Sem ela, o que propomos não é viável.
Para entender porquê, convém perceber o que está em causa: uma fatura tanto em Portugal como pelo mundo pode chegar em formatos muito diversos, desde um documento digital seja um PDFs, ficheiro Word, imagens, talões impressos com qualidade variável, faturas manuscritas (não é prática comum, mas o sistema está preparado para documentos com texto manuscrito), recibos de pagamento de fornecedores, etc. Toda a informação que interessa, de quem vendeu e o quê, em que quantidades, para que efeito está detalhado por estes documentos muitos com padrões complexos e com bastante tempo de trabalho manual para introdução, diga-mos para introduzir numa folha de Excel.
A Inteligência Artificial faz três coisas em sequência. Primeiro, lê o documento com modelos de Reconhecimento Óptico de Caracteres (OCR) reforçados para os formatos que circulam no setor. Depois, com Processamento de Linguagem Natural, identifica os elementos críticos: fornecedor, número de fatura, data, itens, valores, etc. Por fim, classifica cada item dentro de uma taxonomia agrícola, distingue um adubo azotado de um foliar, um fitofarmacêutico sistémico de um de contacto, um aditivo de uma ração base.
Sem IA, este trabalho exigiria muito tempo, horas por fatura, o que muitas vezes leva à desistência dos próprios para ter a informação em dia. Com a IA bem treinada, transforma se num gesto imediato: tirar a fotografia e upload.
Que resultados ou benefícios esperam demonstrar durante a fase de utilizadores piloto atualmente em curso?
O piloto está orientado para validar três coisas concretas, que são também os principais argumentos de adoção.
Primeiro, a precisão da leitura e categorização automática em condições reais. Trabalhamos com agricultores e gestores florestais com tipologias diferentes de exploração, com a maior diversidade possível de fornecedores e formatos de fatura. O objetivo é atingir uma taxa de extração e classificação correta acima dos 90% sem intervenção manual, e melhorar a partir daí.
Segundo, o tempo poupado em gestão documental. Medimos quanto tempo um utilizador dedicava à organização das faturas antes do SmartAgriSense, e quanto tempo dedica depois. Esperamos demonstrar uma redução substancial [entre 70% a 90%] neste indicador.
Terceiro, o impacto na tomada de decisão. Aqui medimos qualitativamente: quantos utilizadores piloto identificaram, durante a utilização, um padrão de consumo que não conheciam, ou uma otimização possível, ou um custo que tinham subestimado. É o que nos diz se a plataforma cumpre o seu objetivo último, que é informar melhor a decisão do agricultor.
Acrescentaria ainda uma quarta validação, transversal: aprender com os utilizadores. As primeiras dezenas de utilizadores são também os primeiros validadores do roadmap, o catálogo de apoios, as recomendações de eficiência, futuras integrações com sensores. O que aprendermos com eles determinará o passo seguinte.
Quais são os próximos passos para o projeto e que impacto esperam ter na modernização do setor agrícola português nos próximos anos?
Os próximos passos, de forma muito objetiva: completar o piloto até ao verão de 2026, consolidar a versão Base da plataforma (gratuita) e a versão Pro (com funcionalidades acrescidas), e iniciar uma fase de crescimento orientada para cooperativas agrícolas, associações setoriais e consultoras do agribusiness, que podem servir como canal de chegada aos seus associados e clientes.
Em paralelo, completaremos o desenvolvimento das funcionalidades em curso: o catálogo de apoios públicos PEPAC, PRR, IFAP e GAL/LEADER, o módulo de recomendações de eficiência, e numa fase seguinte a integração com sensores IoT, para que dados de campo em tempo real possam alimentar a tomada de decisão na plataforma.
Quanto ao impacto: a nossa ambição é contribuir, de forma concreta, para a digitalização da pequena e média exploração agrícola portuguesa. O setor precisa de modernizar-se para responder aos desafios da transição climática, da volatilidade de custos, da escassez de mão de obra. Sem ferramentas digitais acessíveis e acessíveis para desde logo pequeno e médios produtores, esta transição tornar-se-á complexa e favorece quem já tem escala. Acreditamos que o SmartAgriSense, e outras iniciativas com este espírito, ajudam a corrigir este desequilíbrio.
Termino com um convite. Estamos neste momento a abrir o piloto a novos utilizadores agricultores, gestores florestais, cooperativas, associações de produtores e outros curiosos que queiram experimentar a plataforma e contribuir, com o seu feedback, para o que ela será nos próximos meses. A inscrição é gratuita e fica reservada a fase Pro durante os primeiros meses de utilização.
Qualquer leitor que queira participar, ou simplesmente conhecer melhor o projeto, pode contactar diretamente através do site www.smartagrisense.pt ou do email hello@smartagrisense.pt
Agradeço à Voz do Campo a oportunidade desta entrevista. É exatamente este tipo de espaço que ajuda projetos novos a chegar à comunidade que pretendem servir.




