A FENAREG – Federação Nacional dos Regantes de Portugal está a assinalar 20 anos de atividade com um ciclo de colóquios em várias regiões do país.
O primeiro aconteceu em Beja, durante a Ovibeja 2025, subordinado ao tema “+ Água, + Futuro”. No final do debate, falámos com José Núncio, presidente da FENAREG, sobre os objetivos desta iniciativa e os desafios atuais da água e do regadio.
Este colóquio marca o início de um ciclo de conferências. Com que propósito?
Esta iniciativa faz parte das comemorações dos 20 anos da FENAREG. O nosso objetivo é, além de celebrar, diversificar os temas de debate, ampliando-os a outras questões que têm impacto no nosso contexto. Estamos muito habituados a falar apenas de hidráulica, de agricultura ou regadio de forma isolada. Achámos que era tempo de alargar a discussão, até porque a situação política internacional assim o exige. Neste momento temos guerra na Europa, guerra no Médio Oriente e uma guerra comercial à escala global desencadeada pelos EUA. São cenários e intervenientes distintos, todos em movimento e isso tem impacto direto na nossa área. Por isso, quisemos trazer este tema para cima da mesa — é diferente, é oportuno e enquadra-se no ciclo mais alargado de debates que iremos levar a cabo ao longo deste ano.
Quais são os próximos passos deste ciclo de conferências?
O próximo foi realizado na Feira Nacional de Agricultura em Santarém, no passado dia 11 de junho, e esteve focado no tema da internacionalização e das relações com os nossos parceiros europeus. Proximamente teremos a Agroglobal, também em Santarém, e onde iremos falar, no dia 10 de setembro, sobre a vertente das questões económicas ligadas à água e à agricultura. E, vamos concluir o ano, com um grande encerramento, as XVI Jornadas da FENAREG | Encontro do Regadio 2025, que este ano terá lugar em Lisboa em Novembro, com data ainda a definir.
Portanto, é um conjunto de eventos ao longo do ano?
Sim. A ideia é debater todos os temas relevantes com os nossos associados e com o público em geral. É cada vez mais importante alargar estas discussões a toda a sociedade, desde logo porque a água é um recurso essencial para o país, e não apenas para a agricultura/regadio.
Todos os debates têm a água como pano de fundo?
Sempre. A água é o fio condutor de tudo. Neste primeiro colóquio, falámos sobre geopolítica e os seus efeitos sobre a gestão da água. A agricultura de regadio é a base — e tudo gira à volta disso.
O tema da geopolítica não era comum neste tipo de fóruns. Porquê agora?
Porque agora impõe-se mais do que nunca. Há uns anos ninguém falava disto, mas o contexto mudou. Não é que estas questões já não existissem e nos afetassem, mas o contexto em que vivemos obriga-nos a prestar atenção e a agir. É como o apagão que tivemos em abril e que foi referido vastamente no colóquio — os riscos estão lá, mas só nos lembramos quando um facto/ocorrência os põe em evidência. Temos andado distraídos, preocupados com outras coisas. Agora é impossível ignorar.
Os conflitos, sejam os armados como os comerciais, estão a impactar-nos a todos e em todo o mundo, e já não é possível ignorar. E isso tem de ser debatido. Os agricultores também precisam de estar consciente destas realidades até porque a atual equação volta a colocar em primeiro plano e no centro de tudo a agricultura e a água.
Como tem evoluído a gestão da água e o comportamento dos agricultores nestes 20 anos?
A evolução foi absolutamente fantástica. Há 20 anos, a maioria das áreas regadas ainda usava rega por alagamento. Hoje, mais de 60% é rega gota a gota. Isso não é mérito da FENAREG, é mérito dos agricultores portugueses, que souberam adaptar-se e modernizar-se.
Passámos por dois quadros comunitários de apoio e agora entramos no terceiro. As culturas mudaram, as tecnologias evoluíram e o regadio acompanhou este desenvolvimento. Os agricultores portugueses são resilientes — têm sabido resistir e reinventar-se.
Este ano temos as reservas de água cheias. Isso muda o debate?
Muda a oportunidade do debate, não o seu conteúdo. Até porque o tema da água e da resiliência hídrica não está confinado à seca e à escassez da água, ele inclui igualmente as cheias e o excesso. De resto, termos as reservas cheias, o que só põe ainda mais em evidência a necessidade de sabermos aproveitar e gerir a água e isso tem de ser feito tanto em períodos de abundância, como de escassez. Se o armazenamento e a gestão forem mais eficientes e as infraestruturas tiverem a capacidade necessária podemos ter um ponto de equilíbrio que ainda não alcançámos e que será cada vez mais necessário por causa das alterações climáticas e dos fenómenos extremos cada vez mais recorrentes. Nos últimos três anos estivemos sempre a falar da seca. Agora, com albufeiras cheias, podemos falar de outras questões que também são importantes. Mas a seca vai voltar, claro que vai. Por isso, o trabalho tem de ser contínuo e temos de usar os momentos de abundância para nos precavermos para os de escassez.
O futuro da agricultura vai ser ainda mais dependente do regadio?
Sem dúvida. A verdadeira agricultura profissional ou industrial – uma agricultura de produção, tem de contar com o regadio. Os agricultores precisam de recorrer ao regadio para conseguirem viabilizar as produções. Estar à espera do São Pedro já não chega no século XXI. Os agricultores precisam de algumas garantias. Não estou a dizer que se pode garantir tudo — a seca vai acontecer, como sempre aconteceu. Mas é preciso preparar as infraestruturas para podermos ser mais resilientes e minimizarmos os eventuais impactos tanto da escassez, como do excesso.
E isso passa também por termos uma agricultura diversificada, com várias culturas, para nos defendermos de qualquer situação que possa surgir de imprevistos climáticos e outros, porque infelizmente, nos últimos anos, temos sido pródigos nisso. Tivemos uma pandemia que ninguém estava à espera, temos agora uma guerra na Europa, uma guerra comercial desencadeada pelos EUA e que afeta o mundo todo, vários conflitos crescentes no médio Oriente, na Ásia e em África. Torna-se cada vez mais evidente que não podemos pôr todos os ovos no mesmo cesto e que precisamos trabalhar para sermos cada vez mais sustentáveis e independentes.
O que espera destes encontros?
São eventos um pouco diferentes do habitual, que esperamos que sirvam para abrir horizontes, tanto dos agricultores como do público em geral, aproximando a sociedade como um todo e contribuindo para uma maior sensibilização e desenvolvimento de políticas públicas em torno de todas estas questões.
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